Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Sexta-feira, Março 28, 2008



"Il n'y a de mots sans images", Alechinsky

Exposição de Pierre Alechinsky, em Bruxelas


miss portugal

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Segunda-feira, Março 24, 2008

De Worms, suposto anarquista, explica-se:

"Numa ocasião, numa toca de sonhadores exilados, fui apresentado ao grande filósofo niilista alemão de Worms. Pouco aprendi a seu respeito, além da aparência, que era repugnante e que estudei cuidadosamente. Percebi que ele provara ser Deus o princípio destrutivo do Mundo, e por isso insistia na necessidade de uma energia furiosa e incessante que desse cabo de tudo. A energia, dizia ele, era o Tudo. Ele era míope, coxo e parcialmente paralítico. Eu, quando o conheci, estava muito bem disposto e embirrei tanto com ele que resolvi irritá-lo. Se fosse um desenhador tinha-lhe feito a caricatura, mas como era apenas actor, só podia representar essa caricatura Caracterizei-me com a ideia de me tornar um exagero louco da pessoa suja do velho Professor. Quando entrei no quarto, que estava cheio de partidários do homem, esperava ser recebido com uma gargalhada ou, se eles estivessem entusiasmados demais, com protestos de indignação pelo insulto. Não lhe posso descrever a surpresa que tive quando a minha entrada foi acolhida por um silêncio respeitoso, seguido, depois das minhas primeiras palavras, por um murmúrio de admiração. Caíra sobre mim a maldição do artista perfeito. Tinha sido demasiado subtil, demasiado verdadeiro, pensavam que eu era na verdade o grande professor niilista. Eu era então um jovem espiritualmente são e, confesso, que aquilo para mim foi um choque. E, antes que me pudesse recompor, alguns daqueles admiradores correram para mim, fulos de indignação, a dizer que eu fora publicamente insultado na sala seguinte. Indaguei a natureza desse insulto. Disseram-me então que um individuo impertinente se mascarara, numa paródia inconcebível da minha pessoa. Eu bebera champanhe demais e, resolvi ir até ao fim. E, em vista disso, quando o verdadeiro professor entrou na sala foi par enfrentar a hostilidade da assembleia e o meu olhar glacial.
Escuso de dizer que houve um choque. Os pessimistas à minha volta olhavam ansiosamente de um Professor para outro, a ver qual era na realidade o mais débil. Mas eu ganhei. Não se podia esperar que um velho doente como o meu rival fosse de uma fraqueza tão impressionante como um jovem actor na força da vida. Compreende, ele era de facto paralítico e, movendo-se dentro de limites definidos, não podia ser tão paralítico como eu. "

in "O homem que era quinta-feira", Chesterton

IR

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Adão e Eva, por Mark Twain, ou a mulher que falava com os peixes, por Cristina Robalo (trabalho surpreendentemente... inédito)
IR

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Quarta-feira, Março 19, 2008

chocolate

um corpo estranho alargava-lhe a cintura, rodeando-a de abundância.ela própria se sentia maior, era uma outra pessoa mais lenta que se erguia de manhã embora repetisse de bom grado todas os gestos, todos os sorrisos de sempre. este corpo era abraçado por crianças, que o deveriam achar confortável. assim o esperava. o corpo não se dava ao prazer. tinha-se encolhido todo sobre si próprio, escudado em considerações impossíveis de deslindar. não se vislumbrava o fim ou a conclusão do enigma. o corpo era um mistério em si. nem a idade, nem a acumulação dos anos, a experiência alguém diria, serviam para coisa alguma. a pele estaria carregada de histórias por ler. a incompreensão, o desconhecido, o improvável desdobravam-se em múltiplas hipóteses, todos os dias era necessária e devida uma explicação. o cansaço de entender fazia-a suspirar. teria de aceitar e com toda a resistência de uma existência de acção, teria de se render. o mistério mal se vislumbrava. a revelação era lenta e seguia o ritmo da natureza. teria de parar. abriu a gaveta. retirou um rectângulo embrulhado em papel prata e meteu-o na boca. derreteu-o lentamente. assim, era mais fácil esperar.

miss portugal

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Segunda-feira, Março 17, 2008

Pegou na peruca. Sentiu os caracóis ruivos bem modelados entre os dedos. Ajeitou-a na cabeça. Para um lado, para o outro, um puxão para a frente, outro para trás. Desenhou traços negros sobre as pálpebras, prolongando-os além dos cantos dos olhos. Pintava-se assim desde que, há mais de 60 anos um admirador cujo nome não recordava, a assemelhara a Cleópatra.
Passava a manhã diante do espelho oval que no toucador dominava uma multidão de boiões de creme, lápis dos olhos e dos lábios, pincéis, sombras, perfumes.
O que mais lhe custava era levantar-se da cama e caminhar até ficar a distância suficiente para que o espelho lhe captasse o rosto. Movia-se com dificuldade, as costas dobradas, a mão direita tremendo agarrada à bengala, a camisa de noite de rojo na alcatifa descorada.
O ruído das articulações era ensurdecedor. Ruído interno, a que ela se tornara cada mais sensível desde que quase perdera a capacidade de ouvir o que se passava fora dela.
O caminho entre a cama, sempre desfeita, e o toucador era o calvário. O paraíso começava a senti-lo quando enfiava a peruca, tapando o crânio mirrado e praticamente calvo. Os traços negros sobre e sob os olhos, ligeiramente afastados da linha de nascimento das pestanas, ainda belas, e o batom cor-de-laranja exagerando o recorte dos lábios sinalizavam o caminho da salvação. Enfiou nas orelhas áridas os brincos de pendentes com pedrinhas verdes e vermelhas.
Pegou na bengala. Já não lhe tremia a mão. Com passos seguros endireitou à janela. Era ali, com as mãos artríticas de unhas vermelhas sobre o parapeito, que costumava passar a tarde.
IR

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