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Palavras da Tribo
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As primeiras, as segundas e todas as palavras Quarta-feira, Janeiro 30, 2008 Um cão (o lá de casa) a descer as escadas com muuuuita pressa de ir à rua. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:18 PM - Comments: Domingo, Janeiro 27, 2008 "Estarás no princípio e no fim, à porta da nossa casa e à janela dos caminhos, na partida e nos regressos. A nosso lado farás cada trilho, Como companheiro que vai permanecendo até se tornar um de nós, Tornando suave a difícil pausa e uma descoberta cada desvio. Brilharás como a estrela da manhã E serás o ponto mais silencioso da noite Quando mesmo o assobio do tempo se suspende. Então pousarás sobre nós o Teu imenso olhar, Como uma mãe ou um pai Que se levantam na casa recolhida Apenas para vigiar o precioso filho que dorme. E quando acordarmos já Tu Penteaste de verde os longos cabelos das árvores, E ensinaste ao pássaro cantor a sua alegria" José Tolentino Mendonça miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:45 PM - Comments: via soltarem-se os laços que o prendiam às coisas. telefonemas, eram já poucos os que se atreviam. a voz de incómodo profundo e de impaciência passava para além da boa educação, que ainda soava na sua voz. pouca gente lhe batia à porta, se não fossem os brasileiros dos jornais gratuitos e das promoções. com esses era delicado e agradecia para não ferir mais ainda a sua pobreza. havia semanas em que poderia ter deixado de existir e poucos teriam sentido a sua falta. era assim, que tinha ordenado a sua vida. mas eles podiam mais do que os seus estratagemas. insistiam em chegar-se a ele. punham-lhe as patas por cima, enrolavam-se em posições impossíveis e passavam-lhe vida. era por eles que sorria. com eles que se zangava e se indispunha. eram eles que o faziam suportar-se. amar-se para amar os outros. tocar-se para poder um dia tocar um outro. alberto postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:34 AM - Comments: Segunda-feira, Janeiro 21, 2008 O corredor era longo. Tinha uma carpete bege a todo comprimento. Deixava de fora apenas alguns tacos de madeira escura de cada lado. Ao fundo do corredor ficava a cozinha. Na cozinha, o vapor das panelas diluía a cabeça da mãe. O corpo dela começava nas omoplatas. O laço do avental marcava-lhe a cintura. As pernas assentavam em chinelos de andar por casa. Havia um relógio quadrado, com moldura de madeira clara, na parede. Os ponteiros aproximavam-se da hora de regresso do pai a casa. Qualquer som, sandálias a raspar nas traves dos bancos da cozinha, a mãe a procurar uma colher na gaveta dos talheres, a vizinha a puxar o estendal, podia ser o de som da chave a rodar na fechadura. A carpete do corredor preparava-se para recebê-lo, alisava-se, tal como as mulheres alisam a saias. Os ponteiros do relógio quadrado estavam quase lá. O pai podia chegar contente e bem-disposto. Talvez cantasse chiquita la banana ou certa noite, à média luz p’ra jantar fui convidado... Se chegava em silêncio, no corredor abatia-se o silêncio. Até a carpete se arrepiava. Enquanto as costas redondas da mãe se perdiam também dentro do vapor, as crianças olhavam para o relógio, rezando para que os ponteiros negros parassem antes da hora. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:50 PM - Comments: Segunda-feira, Janeiro 07, 2008 O extracto seguinte já aqui tinha sido publicado. Hoje repito e acrescento a cópia. Para mim, a quem, reconheço, o homem às vezes irritava, mesmo se ironizava quando deixava que se servissem dele, que o transformassem numa espécie de bobo, em entrevistado de quem se espera que diga umas alarvidades sob a capa da inimputabilidade, "A Comunidade" é nada menos que MAGNÍFICA". IR "Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro, e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso e sangue latejante, descai-me sobre um seio morno ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão aconchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem compassadamente, silenciosamente, duma igual e vivificante seiva." "Desde que estamos aqui, estudámos, experimentámos várias posições para nos ajeitarmos a dormir melhor: ora todos em fileira, ao lado uns dos outros, para a cabeceira da cama, ora distribuídos como agora, três para cima, dois para baixo, ou, então, com um dos miúdos (a Lina ou o Zé) atravessados a nossos pés. E havia, ainda, o problema da colocação ou das vizinhanças: eu e a Irene num lado e os miúdos noutro, ou nós no meio e eles um de cada lado, isto com insucessos, preferências, trambolhões cama abaixo, muitos pontapés, mijas, rixas, complicações de família, favoritismos e cìumeiras e choros e berraria às vezes, resolvidos em família entre risos e lágrimas, bofetões, beijos; descomposturas, carícias leves... Também na cama as posições variavam conforme o frio ou o calor, conforme, principalmente, o frio ou o calor que fazia na cama, pois os cobertores, às vezes, eram convocados (um, ou dois) à pressa, num afã de salvação pública (nossa) e seguiam com destino incerto. Depois, não havia trapada pelas gavetas que chegasse para os substituir, e até jornais, são óptimos, ramalham duma maneira estranha, apreciada pelos vagabundos que têm sono e frio. A verdade é esta: o frio não entrava connosco!" Comunidade, in Exercícios de Estilo, Luiz Pacheco, dedicado a Mário de Cesariny Vasconcelos, Poeta do Corpo postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:42 PM - Comments: Domingo, Janeiro 06, 2008 fingi que não te amava durante algum tempo. a coisa resultou tão bem que quase me convenci. quase acreditei na minha impassibilidade perante as tuas demoradas e injustificadas ausências. os dias decorriam sem sobressaltos, o tempo não me doía ao passar. já não via o teu carro em ruas coincidentes. pressentia-te onde moravas, embora nunca, quase nunca te visse. mas a noite trouxe-me sem querer a tua imagem. comias sentado a uma mesa doméstica e olhavas-me de um modo odioso, com compaixão. senti que podia destruir tudo o que te rodeava. mas como sempre, preferi destruir-me mais um pouco. alberto postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:11 PM - Comments: Sábado, Janeiro 05, 2008 teria gostado de a ver descomposta, despenteada e de olhar perdido. a mulher que ele amava parecia-lhe demasiado perfeita, talvez por isso a amava desse modo tão desesperado. imaginava-a a sofrer por uma pena menor, pois a dor nunca lhe fora agradável. sofreria por uma contrariedade, sentir-se-ia desagradada por um desencontro sanável e sem consequências. ainda assim, o seu rosto ficaria enrugado, os olhos vincados por uma luz perplexa, a boca mais cerrada e a forçar um sorriso.ela poderia chamá-lo, ou talvez não. era a mulher das vitórias, não lhe agradaria expôr-se à piedade dos outros. mas o seu brilho ficaria toldado de imperfeição. os dias não lhe seriam tão favoráveis. e ele, finalmente, ele iria senti-la humana. era o que mais desejava. vê-la na sua humanidade em sofrimento. alberto postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:48 PM - Comments:
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