|
Palavras da Tribo
|
![]() |
As primeiras, as segundas e todas as palavras Sexta-feira, Dezembro 28, 2007
Rafeiros e lindos, a Lara e o Rex, os meus afilhados caninos da União Zoófila, em passeio pelo Parque das Nações. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:29 PM - Comments: Quinta-feira, Dezembro 27, 2007 Levanta-se cedo para não lhe faltar o tempo para o que tem de fazer durante o dia. Põe a cafeteira grande com água ao lume. Faz a cama sem entalar os lençóis debaixo do colchão. Tira a combinação - faz com que desça ao longo do corpo pois não consegue levantar os braços à altura suficiente para tirá-la por cima. O corpo dela é bege e granuloso. Deita a água a ferver no alguidar verde e tempera-a. Prova-a com os dedos antes de agachar-se lá dentro. Passa com a toalha encharcada no rosto, no cabelo, no pescoço, atrás das orelhas, no peito e por aí abaixo até aos pés. Levanta-se e enrola-se a pingar na toalha seca. Sente-se limpa. Deixa pegadas húmidas no soalho no caminho para o quarto. É lá, diante dos santinhos da mesa de cabeceira, que se veste. Deixou há muito de usar cinta debaixo da saia. Já não estranha que o elástico não lhe contenha o corpo. Derrama-se à vontade e ela gosta. Prende a pregadeira, com a foto do defunto dentro, no colarinho da camisa grená. Toma o pequeno-almoço: café, a cobrir o fundo da cafeteira grande, e uma fatia de pão com manteiga. Já não tem muito tempo. Despacha-se. Puxa para cima a persiana da única janela da casa, com santinhos alinhados no parapeito. Olha para o relógio, uma circunferenciazinha amarelada. Está atrasadíssima! Se pudesse corria para a porta. Fecha-a. Dá duas voltas à chave. O calcanhar de um pé pouco à frente do bico do outro e depois ao contrário. Passinhos de bebé no jogo da mamã dá licença. Demora a atravessar a rua. Os automóveis gritam com ela. Chega ao outro lado, onde existe um muro. Desdobra o pano do pó cor-de-laranja sobre o muro, alisa-o e pousa lá os cotovelos. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:43 PM - Comments: uma ceia de poesia: Cada dia nos dê o nosso pão e comê-lo nos abra aquela casa de inteligência e coração onde sentar-se é mesa rasa de ver quantos não estão sentados nessa casa. E comer se ilumina, e abre-se portão, ou qualquer coisa de brasa entra no movimento e na palavra, como se cada gesto e cada som fosse uma leitura que se abra dentro da história de não haver senão a de estarmos à mesa da palavra, transparentes, à luz de se partir o pão. (Fernando Echevarria) … e duas passagens para o próximo ano: “… da minha cama olhava para fora, pela grande janela aberta. E era como se a vida com todos os seus segredos estivesse de novo junto a mim, a ponto de a poder tocar. Tinha a sensação de repousar sobre o seu peito nu, de sentir o bater regular e ligeiro do seu coração. Estava entre os braços vazios da vida e sentia-me tão segura e protegida. Pensava: como tudo é estranho. Existe a guerra. Existem campos de concentração, pequenas barbáries acumulam-se de dia para dia… Conheço a dor humana… sei que todas estas coisas existem e ainda assim insisto em olhar nos olhos cada fragmento de realidade inimiga, encontro-me sobre o peito nu da vida e os seus braços vazios envolvem-me, tão doces e protectores, e o bater do seu coração que não sei sequer descrever”. (“Diário de Etty Hillesum”, madrugada de sábado) “Pedir a alguém que nunca se distraia, que escape sem repouso aos equívocos da imaginação, à preguiça dos hábitos, à hipnose dos costumes, é pedir-lhe que viva na sua máxima forma. É pedir-lhe alguma coisa muito próxima da santidade, num tempo que parece perseguir, com fúria cega e glaciar sucesso, o divórcio total entre a mente humana e a faculdade da atenção que lhe pertence.” (Cristina Campo) mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:30 PM - Comments: "O pensamento é a verdadeira medida da dimensão do homem. O homem é apenas um junco, mas um junco que pensa. O universo não necessita de armas para o esmagar. o vapor, uma gota de água são suficientes para o matar. Mas, se o universo o esmagasse, o homem seria ainda assim, mais nobre do que o que o matou, porque sabe que morre e conhece a vantagem que o universo possui sobre ele, algo que o próprio universo desconhece. Assim, toda a nossa dignidade consiste no pensamento. Através dele nós devemos elevarmo-nos, e não através do espaço e do tempo, que não conseguimos preencher. Tentemos então pensar bem; este é o princípio da moralidade" Blaise Pascal miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:45 AM - Comments: Quarta-feira, Dezembro 26, 2007
"O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz começou a brilhar", Livro de Isaías "Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. O Anjo do Senhor aproximou-se deles e a glória do Senhor cercou-os de luz." miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:31 PM - Comments: lapsos linguae ou sobre os benefícios de não ver bem Naquela manhã, quando saiu para o emprego, reparou num papel que alguém tinha pregado na porta. Leu apenas as letras maiúsculas. ORDEM DE DESEJO. Entrou de novo em casa e pintou os lábios de vermelho vivo. Ela era uma cidadã cumpridora da Lei. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:27 PM - Comments: Sexta-feira, Dezembro 21, 2007 PAZ AMOR TRANQUILIDADE da mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:28 PM - Comments: Quinta-feira, Dezembro 20, 2007 "Viu-se subir ao estrado uma velhinha de aspecto tímido, parecendo encolher-se o mais que podia nas suas pobres roupas. Levava nos pés grossos tamancos de madeira e ao longo dos quadris um grande avental azul. O magro rosto, circundado por uma coifa simples, estava mais cheio de rugas do que uma maçã reineta já passada e das mangas da camisola vermelha saíam duas mãos compridas de articulações nodosas. O pó dos celeiros, a potassa das barrelas e a suarda das lãs a tal ponto as tinham encostado, escoriado e endurecido, que pareciam sujas apesar de bem lavadas e passadas por água limpa; e, à força de terem trabalhado, mantinham-se entreabertas, como que para apresentar por si mesmas o humilde testemunho de tantos sofrimentos suportados. Havia uma espécie de rigidez monacal que lhe realçava a expressão do rosto. Nenhuma tristeza ou ternura parecia abrandar aquele olhar baço. No trato com os animais adquirira-lhes o mutismo e a placidez. Era a primeira vez que se via no meio de tanta gente; e, interiormente assustada pelas bandeiras, pelos tambores, pelos senhores de casaca preta e pela cruz de honra do conselheiro, ficou completamente imobilizada, não sabendo se devia avançar ou fugir, nem porque a empurrava a multidão e os examinadores lhe sorriam. Assim se apresentava, diante daqueles prósperos burgueses, esse meio século de servidão (....) - Cinquenta e quatro anos de serviço! Uma medalha de prata. Vinte cinco francos! É para si. Depois, quando recebeu a sua medalha, ficou a olhar para ela. Então assomou-lhe ao rosto um sorriso de beatitude e ouviram-na murmurar enquanto se afastava: - Vou dá-la ao nosso prior, para dizer missas por mim.” Gustave Flaubert, Madame Bovary (IR) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:53 PM - Comments: Terça-feira, Dezembro 11, 2007
parafuso ecológico numa casa. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:27 PM - Comments: gostaria de te amar como se vira a página de um livro favorito. deixando-te para os outros e nunca perdendo de vista cada personagem, cada percalço na narrativa. gostaria de te amar como o vento sobre a copa das árvores. as oliveiras enchem-se de frutos acres e perenes. como eu, que permaneço no amor. alberto postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:12 AM - Comments: Segunda-feira, Dezembro 10, 2007 não me custa a maiúscula depois do ponto. o que me custa é o ponto se tenho a certeza que isto ficava muito melhor mais verdade mais de acordo com o pensamento sem o ponto o chato do ponto sempre a limitar a dizer que acaba ali ora essa e porque havia de acabar ali e não noutro sítio qualquer se as personagens continuam cá dentro para além do livro e agora aflijo-me porque acredito que as convenções são necessárias para tornar o arengo perceptível mas como julgo mas como julgo julgo saber que tipo de receptor és ou julgas que és a tua ânsia de ordem é evidente exprime-se nas tabelas taxonómicas que guardas na cabeça na vontade de perceber tudo de não ficar à superfície de nada perdi-me mas sei que estava a pensar que não devo recear a ausência de ponto quando és tu o destinatário porque não és um ponto final não és também ao contrário do que gostas de pensar um ponto de interrogação talvez sejas um apóstrofo um ‘ sim um apóstrofo porque aprecias a elisão a elipse até lynchiana o salto narrativo que IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:12 PM - Comments: Terça-feira, Dezembro 04, 2007 há muito tempo que não trazia aqui mr. Tom Waits (Jesus gonna be here, em Varsóvia, no ano de 2005) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:12 PM - Comments: Ela passeia o cão pequeno e branco com uma trela que estica e encolhe. Fá-lo várias vezes por dia. Também à noite. Cruzo-me com ela. O meu é um cão preto e grande que passeia sem trela. Ela veste-se de preto e tem o cabelo branco, separado ao lado e cortado para deixar à mostra as orelhas. Tem pouca altura, como o cão. Ela caminha como sobre andas - de brincar, pequenas. Disse-me que vai ser operada às pernas porque lhe doem ao dobrá-las. O filho fica com o boby na casa dele quando ela for operada. O boby já virou a esquina - julga-se livre até sentir o puxão no cachaço. Lá vem ele aos rebolões. O marido dela morreu da cancerosa, conta-me. Pensou que lhe morria o boby também. O bichano atirou-se para o chão a contorcer-se. Escapou. Ela prova o que diz puxando de novo a trela e exibindo na ponta o boby, as patas à procura do macadame. Nas noites frias, ela veste-lhe uma camisola verde às riscas amarelas. Ela, com excepção do cabelo, apresenta-se sempre de luto. O marido morreu da cancerosa. O boby não. Está ali, na ponta da trela. Ela tem medo da noite. Quando, à noite, está em casa e lhe batem à porta, ela abre o postigo e diz que o marido e os filhos estão a dormir. Diz-lhes também, conta-me, que tem ali o boby para protegê-la. É só puxar a trela e lá vem, de rojo pelo soalho, uma coleira com guizo. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:31 PM - Comments:
|
![]() |