Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Segunda-feira, Novembro 26, 2007


Hoje à noite, no CCB, leitura de O Náufrago, seguida de projecção do filme Glenn Gould: Variações de Golderg, de Bruno Monsaingeon. (Os bilhetes já cá cantam!) IR

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Sexta-feira, Novembro 23, 2007



Foi há uma semana na Culturgest. Vinicio Capossela. Nunca tinha ouvido falar dele. Nunca o tinha ouvido cantar e por isso não ia à espera de nada. Fui à espera de nada e recebi tudo: Minotauro e Medusa, modernidade e arcaísmo, palavras e ritmo, perda e delírio. Inesquecível! IR

Os pianos de Lubecca

Uma noite, no canal de Lubecca
Numa velha fábrica de pólvora
Para fogo.
Ali jazem no pó, amontoados,
Os velhos pianos
Abandonados, desde a guerra,
Como cães sem dono;
Em sentido, como antigos
Mordomos.
E naquelas caixas surdas e empoeiradas
Jaz o silêncio
De milhões de canções
Mas uma noite, como por encanto,
Um velho Duysen disse, para o piano que estava ao
seu lado,
Os seus pés juntos a outros pés
Mais torneados; Aproximou-se
E, baixinho, docemente murmurou:
“senhora Blutner
Não fique a pensar.
O que passou
Já não volta.
Se conseguirmos encantar todos…
Agora… ao encanto
Cedemos o nosso coração…
Se os tornozelos afrouxaram,
E aqueles notívagos já não se tocam,
Toca de leve no meu teclado,
Pega os meus beijos.
E ao encanto
Ceda o seu coração…”
Se as cordas afrouxaram,
E o tempo já não mantém mais
Duas notas juntas,
Esqueçamos também nós o que já foi
Esqueçamos duma vez o passado.
Toque para nós mister Kaps uma “berceousa”
No grande piano de rolos,
O príncipe Steinway
Os ingleses com a baioneta!
Chilreia a espineta!
A balalaika russa do hussard Petrov!
(Instrumental)
“Se os tornozelos afrouxaram
E aqueles notívagos já não se tocam
Toque de leve no meu teclado
Agarre aqueles beijos
Que me fazem sonhar
Senhora Blutner
O que lhe parece
O que já passou, passou
Não voltará
Se conseguirmos
encantar todos…
Agora… ao encanto
Ceda o coração…”
E ao encanto cedo o meu coração

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Quinta-feira, Novembro 22, 2007



I'm a connoisseur of roads. I've been tasting roads my whole life. This road will never end. It probably goes all around the world.

My Own Private Idaho, Gus Van Sant

(IR)

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Quarta-feira, Novembro 21, 2007

Falava-me de seu trajecto académico incomum. De pensar vir a ser uma pessoa e ter-se tornado outra, completamente diferente. Ou aparentemente diferente. Há-de haver alguma ponte entre desporto e filosofia pura. Entre a tensão do corpo e a excitação mental. Disse "parece que estou a falar de outra pessoa". E eu, que não sei de filosofia nem de desporto, lembrei-me de nós. Diante do intelectual lembrei-me da nossa vidinha.
Lembrei-me do dia em que saíste de casa. Da força a retirar-se do meu corpo. Podia ter-me deixado cair mas não. Nada de cenas melodramáticas.
Olhei em volta à espera de ver o que quer que fosse que corria de mim formar charcos no soalho. Mentira, se olhei em volta, foi à procura de uma cadeira para sentar-me.
Esperava sentir-me mais leve, quase etérea, como quando se passa muito tempo sem comer, e bater as asas em direcção do assento. Não foi assim. Sou a prova de uma impossibilidade física. Massa que quando lhe é retirado um pedaço ganha, em vez de perder, peso. Foi difícil arrastar a perna direita. Tentei fazer balanço com o corpo para puxar a outra.
Depois passei a levantar-me muito cedo, duas horas antes de sair de casa, para conseguir tomar banho. Precisava de tempo. Tinha de pensar bem em cada movimento antes de executá-lo.
Quanto às lágrimas, chegaram numa manhã fria. Ia a atravessar a rua – o peãozinho estava verde esperança – quando senti qualquer coisa debaixo dos olhos. Era decerto o frio, a humidade. Levei lá as mãos e não era.
Parece que estou a falar de outra pessoa. Se eu pudesse fazia, a essa outra pessoa de quem estou a falar, uma festa no braço. Talvez até lhe apertasse a mão e tentasse ser simpática.
IR

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Terça-feira, Novembro 20, 2007

"Quem nos virou assim do avesso, que
o que quer que façamos temos ar
de alguém que vai embora? Como esse
se volta na colina mais distante
para ver todo o vale inda uma vez-,
assim vivemos sempre num adeus."

"Oitava elegia" Rilke in Elegias de Duíno
miss portugal

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Quinta-feira, Novembro 15, 2007



Sentei-me diante do Homem de Barba Branca, de Tintoretto. Não, não. Quem se sentou diante dele todos os dias durante 30 anos foi o outro, bem sei. Eu sentei-me em linha ligeiramente diagonal. Num banco cinzento-azulado. O olhar dele pegou-se-me ao corpo, sob o vestido vermelho, sob o casaco de bombazina, sob o sobretudo. Esqueci-me de deixar os afagos no bengaleiro. Era a única encasacada no Museu de História de Arte. Os outros visitantes passeavam-se diante dos quadros em mangas de camisa. Eram corpos vulneráveis. Mas foi ao meu, julgado inacessível, que aderiu o olhar do homem barbudo. Quis perguntar-lhe de onde me conhecia para me avaliar daquela maneira. Dizia-me: sei o que vales. Dizia-me: não me iludes com os teus disfarces. Dizia-me: de nada te valem tão parcos agasalhos. Levantei-me, assustada. Tropecei numa mulher de uniforme azul, cabelo ralo, amarelado, apanhado atrás, as calças apertadas muito acima do umbigo, walkietalkie enfiado no cós. Enschuldigen sie bitte. Entschuldigen sie bitte. Lancei-me para a saída. Regressei a Lisboa. Em casa vesti outro casaco, por cima dele a gabardina castanha e por cima desta um xaile que me deu a minha avó. Dizem-me que é Verão de S. Martinho na cidade. Conversa. IR

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Segunda-feira, Novembro 12, 2007

"A grande inocência adstrita ao micróbio, a convicção que ele tem de viver no seu mundo, deve consolar-nos do facto de provocar a morte. Observei-os no meu microscópio Wernich, de aperfeiçoada lente tripla , e pude constatar que são alegres, crédulos, estabelecidos num universo que devem à revelação humana.
São bem-humorados e curiosos. Mais do que os seus caracteres físicos, estudei neles a psicologia, o carácter, a expressão, o sentido optimista que têm da vida.
Há micróbios alegres em doenças terríveis, e se me atacassem a mim, creio que na agonia ainda haveria de sorrir, consolando-me ao pensar como andariam alegres os meus micróbios na quermesse das minhas entranhas."

Ramón Gómez de la Serna, o Médico Inverosímel

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hoje é um DIA EM GRANDE no Coliseu - Adivinhem quem vem para cantar??????



mp

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Quarta-feira, Novembro 07, 2007

Assim, deita-te no divã, mais uma espécie de canapé azul escuro mas não de um tom nocturno, enquanto me sento numa cadeira e não olho para o teu cabelo desarranjado a crescer na cabeceira. Estás calado, à espera que te diga quem és. Tu és a dualidade dentro de um corpo atarracado que começa a envelhecer. Percebo que tenhas gostado do 'Lobo das Estepes' e sucedâneos. Gostas de alimentar a fantasia romântica do herói destroçado, maldito, dual. Não queres deixar morrer de inanição o maldito mas auto-sedutor, mesmo se Mr Hyde der cabo de ti. Não há em ti verdadeira vontade de equilíbrio, mas conflito eterno, irreconciliável e, no fundo, isso agrada-te. Dos românticos fica-te ainda a mitologia da inspiração por obra e graça do espírito santo. Tu, devia tratar-te por senhor, não se tutificam clientes, sentes a nostalgia do que deixaste por fazer e associa-la à repressão do lobo. Mas também isto é literatura, meu caro cliente, de quem, no final, reclamarei 50 euros. Levas dentro coisas impossíveis - viking, mouro, lobisomem - mas não acreditas de todo na disciplina da criação, atrevo-me a dizer, nem sequer da vida, porque estás intimamente convencido de que assim não vale a pena. Talvez tenhas razão. Levanto-me. Preciso de beber água. Vejo que o meu cliente dorme como um marinheiro, completamente descomposto. Ressona de boca aberta. Aproximo-me para sussurar-lhe duas ou três palavras ao ouvido e saio do consultório. Deixo-o dormir.
IR

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