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Palavras da Tribo
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As primeiras, as segundas e todas as palavras Sexta-feira, Outubro 26, 2007 "Nada acontecia. Vassily Mikhailovich não era visitado por nenhum serafim com seis asas, nem por qualquer outra criatura emplumada com ofertas de serviços sobrenaturais; não havia explosão nenhuma, dos céus não vinha voz alguma, ninguém o tentava, ninguém o levava para as alturas, ninguém o atirava ao chão. A tridimensionalidade da existência, cujo final estava cada vez mais perto, sufocava Vassily Mikhailovich. Tentava sair da linha, fazer um buraco no céu, desaparecer através da porta desenhada." O Círculo, in "Alpendre Dourado", Tatiana Tolstoi (IR) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:04 PM - Comments: Quinta-feira, Outubro 25, 2007 ter uma sílaba de sol na boca procurar com ela uma palavra uma palavra que lavre que brilhe, não escureça uma lava de som num bosque de anacoreta uma palavra que dita ou escrita não arrefeça uma palavra quente: a dor, por exemplo a dor uma rosa de carne, dizes eu predigo tempo, prossigo Ah, o rumor dos dias quase felizes! uma palavra na boca uma sílaba trémula outra sílaba áspera, uma sílaba de janela com a palavra diáspora e por ela, só por ela, o som se acha. uma rosa de carne viva uma centelha, uma faísca onde tudo cresça, se vista e só com o fogo exista José Marto postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:35 PM - Comments: Quarta-feira, Outubro 24, 2007
stella roof miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:31 PM - Comments: Fazes da fealdade uma promessa, da abjecção um rio límpido. O rio banha-me. A qualidade do ser resplandece nos teus gestos. alberto postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:30 PM - Comments: olha a minha pele, esta chama vermelha e azul ardendo como papel, vibrando como lume olha esta demora pelo corpo pelo cutelo pela vibração do sangue pela tensão, estou mudo olha a minha pele, a cor castanha, a veia negra, vermelha olha este pulsar de mão, esta franca distensão, a veia azul olha a minha pele nua, escura, tecendo como agulha o risco, e nela o florescer do tempo neste instante na corrente das horas permanece quente, dura olha a minha pele, a carne, o lume que incendeia continua aceso, agora o sangue alumia e a nossa obsidiante teia irradia a vibrante, a perfeita, a inconclusa teia. olha a minha pele, olho a tua nela no momento incandescente morremos com a pulsão dos dentes mordemos a luz comovente, aberta da janela José Marto postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:34 PM - Comments: "quem nos virou assim do avesso, que o que quer que façamos temos ar de alguém que vai embora? Como esse se volta na colina mais distante para ver todo o vale inda uma vez-, assim vivemos sempre num adeus." Oitava elegia de duíno, Rainer maria rilke, Tradução de Vasco Graça Moura miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:47 PM - Comments: Terça-feira, Outubro 23, 2007 mais do DocLisboa...
“Poeticamente Exausto, Verticalmente Só - A História de José Bação Leal” de Luisa Marinho uma homenagem muito justa e bonita a José Bação Leal, ao homem e ao poeta que aos 23 anos morre em Nampula, onde estava a cumprir serviço militar. O filme é realizado com imagens de arquivo e com testemunhos de todos aqueles que o acompanharam, familiares e amigos. Todos os testemunhos são incríveis porque muito próximos, como se se tivessem despedido dele há pouco tempo, como se ele ainda os acompanhasse. Vê-se que laços muito fortes os uniam e que por ele nutriam uma enorme admiração. Esta morte é muito difícil de aceitar, porque ele sim foi um homem em lugar mal situado (como nos versos de Daniel Faria). Nunca aquele homem deveria ter estado naquele lugar, àquela hora. Nunca aquela hora deveria ter sido a dele. Porque aquela guerra n era sua, nem aquela nem nenhuma outra. A força da sua escrita em tão tenra idade é pelo menos um consolo, como se ele tivesse acelerado a maturidade. Vivido mais intensamente. E nas cartas que enviava aos amigos há um bocado de si gravado em cada palavra sangrada… uma verdade visceral… uma contenção que dói… uma despedida. Foi um gesto muito bonito da Luísa Marinho, o de o ter deixado registado para a posteridade! Os meus sinceros agradecimentos e parabéns! ...poeticamente exausto, verticalmente só... lembro memória dum qualquer verão em nenhuma parte. Percorro o suor dos mortos. Acabo em cada boca que começa. E como os mortos suaram antes da guitarra de barro! Kid, companheiro antiquíssimo: pergunto: o desespero já foi jovem? Quem doará seu rosto ao trigo da aurora? Quem, quando a areia crescer nos olhos, resolverá a rosa marítima? ESCREVE! Nada sei da mulher que possuíste em casa da Lena. Sei somente das jovens que a cidade digeriu... Sei todas as cidades do nocturno mapa do esquecimento... P.S.: Sou aspirante. Não me chames alferes. Sim, não me promovas. ao Francisco Agosto de 1963 Mafra este excerto de uma das suas cartas retirei do blog da realizadora Luisa Marinho mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:04 PM - Comments:
"Elle S´appele Sabine", de Sandrine Bonnaire depois de vermos estas imagens dos primeiros vinte anos de vida de Sabine - diagnosticada com psicoinfantilidade e comportamentos autistas - não acreditamos no que ela se tornou... cinco anos de internamento num hospital psiquiátrico destruiram a sua "fúria de viver", a sua paixão pela geografia, pelo piano, pelos passeios...agora só pede para descansar, e o seu descanso é interrompido por tremores constantes e crises de ansiedade... Lindíssimo este retrato que a irmã, a actriz Sandrine Bonnaire, faz de si, do amor e da dedicação que, juntamente com as outras irmãs, sempre lhe dedicaram, e do desespero de vê-la deteriorar-se tanto. Resta a esperança no centro de acolhimento em que finalmente a conseguem internar, numa equipa de terapeutas dedicados e incansáveis e, nos pequenos progressos diários de Sabine. Talvez um dia ela consiga voltar a viajar com a sua irmã, como quando foram a Guadalupe e a NY e Sabine era uma mulher feliz. (repete hoje na Culturgest às 21:00 com a presença da autora) mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:43 PM - Comments: Segunda-feira, Outubro 22, 2007 Margreth Olin, In the House ot Angels (ontem, no cinema Londres) O operador de câmara não se vê, mas o homem velho pergunta-lhe 'o que queres? queres ver o corpo de um homem velho? queres filmar um corpo decrépito? então toma, vê.' Despe-se. Um nu integral. Frontal. Gosto dele. Gosto da maneira como chega ao lar dizendo que não tem dinheiro para pagar o táxi. Gosto de saber que, pelo menos na Noruega, onde os cidadãos não passam o tempo a fugir aos impostos, os velhos que não têm dinheiro para pagar o táxi são, ainda assim, bem tratados. Gosto da lucidez deste velho quando diz: 'Sou eu, sou eu que crio os vossos postos de trabalho.' Gosto dele quando convida as senhoras velhas para dançar numa daquelas cerimónias de infantilização dos idosos. Gosto da mulher que se recusa a usar um chapéu ridículo na festa dos chapéus. Gosto do corpo nu de uma velha a banhar-se. Gosto do homem que viveu com a mulher durante 70 e recusa deixar de dormir perto dela, cuidando de aproximar a sua cama de solteiro da cama de solteira dela, que mal dá conta do esforço dele. Gosto da velha-criança que ajuda na cozinha. Que saltita a caminho do quarto quando é hora de dormir. Dói-me o rosto ossudo, o crânio, que desata as lágrimas durante a festa. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:51 PM - Comments: Pergunta o jornalista do El Pais: Como é que você se sente, agora que ganhou o Nobel? Responde Doris Lessing: Você está a perguntar-me isso a sério? Olhe, tenho tosse, uma ligeira diarreia e cistite. Mas, tirando isso, sinto-me bem, estou muito bem, obrigada. O stress causado pelo Nobel... isto é muito stressante. Toca a campainha da porta, vocês vêm falar comigo, o telefone está sempre a tocar, é assim durante todo o dia. O gato está incomodado, não vê? Domingo, El Pais IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:34 PM - Comments: existe qualquer coisa nas vidas destroçadas, que me atrai. o enleio de eternas desculpas, a confusão de identidades, a inquietação permanente, a saraivada de imbróglios, que dia a dia exigem ser desembrulhados. ela é assim. eu nem por isso. alberto postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:44 PM - Comments: Quinta-feira, Outubro 18, 2007
Anish Kapoor Miúda, tatuei a parte anterior do meu antebraço com um fósforo, estava pela primeira vez apaixonada e queria guardar no meu corpo o seu corpo. Uma letra. A primeira de um nome. Era uma prova a que submetia a paixão - até que ponto era esta capaz de resistir à dor? Lembro-me de sentir orgulho ao olhar para o meu braço em ferida aberta. Exagerara, como é hábito dos primeiros amores, mas superara com êxito a primeira prova. Chegada à última e derradeira, a da real união dos corpos, deitei tudo a perder e. Fugi. Uma miúda com a cabeça gelada e o corpo em chamas! postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:27 PM - Comments: Quarta-feira, Outubro 17, 2007
ilustração de joão cabaço a família. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:59 PM - Comments:
ilustração de joana figueiredo eu em luta com os meus fantasmas. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:56 PM - Comments: entro na sala vazia depois de passos apressados terem varrido o chão, entre filas de mesas e cadeiras. o silêncio pousa nos meus ombros e aconchega-me. entrar numa sala em silêncio alivia, como chorar num filme. é um pouco triste, um pouco desesperado, um pouco inútil, mas é belo. entre dois instantes lembro-me de como sofro de indecisão, de como nunca sei comportar-me como o esperado, como o que faço nunca chega. poucas vezes sei parar a tempo, poucas vezes me revolto. dá-me para calar, como se fosse eu próprio uma sala vazia. no entanto, as tuas palavras ressoam sempre em mim, com tónicas e acentos circunflexos. a tua voz descobre as minhas emoções e encosta-me à parede, encurralado, quase sem ar, como só tu consegues. fico à toa, dirias tu. eu nunca o diria dessa maneira. tu e eu não perdemos tempo com a gramática. vivemos, tu e eu, perdidos entre equívocos. alberto postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:05 PM - Comments: Terça-feira, Outubro 16, 2007 (sobre o post anterior) Sei onde posso encontrá-la, sei onde vive Elizabeth Costello, mas porto-me como se não lhe conhecesse a morada. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:44 PM - Comments: postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:42 PM - Comments: A senhora idosa agarrava o catraio pela mão. o punho fechado dela arrepanhava o pulso pequeno dele, como se de uma boa pega de pulso dependesse o mundo. agarrava-o para além do necessário. os carros passavam distantes e indiferentes à ansiedade da avó. o pequeno trotava em saltos desiguais e saltava para longe dos medos.quando se aproximava o lancil, a avó que vestia de preto e de angústia apertava ainda mais a mão redonda e mole. era imperioso chegar a casa quanto antes. antes que escurecesse, antes que alguma coisa acontecesse. só dela e da firmeza dela se podia esperar o alívio dos males. só dela e de mais ninguém. quando chegou a hora de atravessar, a hora do momento que deve ser a agarrado sem hesitações, a avó soergueu o miúdo em braços, que de pés suspensos no ar, esperneou de incompreensão. aterrou, mais tarde, no passeio seguro perto de casa. sem ter pisado chão, sem ter esfolado os joelhos, sem ter sentido prazer. amélia postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:47 PM - Comments: "Ainda hoje me espanta aquele exame, que não foi nenhum, e a valoração sem críticas de poemas, todos eles enfermos de metaforite aguda; talvez o novo candidato, que era visto como futuro e promissor poeta, tivesse ganho ali um bónus. Mais surpreendente foi a paciência com que Karl Hofer, que estava isoldado no meio da comissão, aguentou a minha apresentação, de início tímida, depois afirmativa. eu teria sido mais rigoroso a interrogar-me. Ficou-me o rosto de Hofer, marcado pela perda. Presente e simultanenamente ausente, presidia à comissão, como se os seus quadros queimados em noites de bombardeamento não o largassem, como se tivesse de voltar a pintar em pensamento quadro por quadro." Gunter Grass, "Descascando a cebola" miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:41 PM - Comments: "Não creio que Irsigler tenha comunicado alguma vez aos seus superiores a circunstância de eu vir há mais de trinta anos ao Museu de História de Arte e me sentar de dois em dois dias no banco da Sala Bordone, com certeza não o fez tanto quanto eu o conheço, ele sabe que não o pode fazer, que a direcção não pode saber isso. As pessoas vão tentar de imediato mandar alguém como eu para o manicómio, isto é, para Steinhof, se souberem que esse alguém vem de dois em dois dias ao Museu de História de Arte para se sentar num banco da Sala Bordone. Para os psiquiatras eu seria um achado, disse Reger. Para entrar no manicómio uma pessoa não precisa de se sentar durante mais de trinta e dois anos, de dois em dois dias, no banco da Sala Bordone, diante do Homem de Barba Branca de Tintoretto, para isso basta que uma pessoa tenha esse hábito só duas ou três semanas, eu, porém, tenho esse hábito há já mais de trinta anos, disse Reger. E eu também não abdiquei desse hábito quando casei, pelo contrário, ainda intensifiquei com a minha mulher o hábito de vir de dois em dois dias ao Museu de História de Arte e sentar-me no banco da Sala Bordone." Antigos Mestres, Thomas Bernard (IR) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:07 PM - Comments: Terça-feira, Outubro 09, 2007
O Capacete Dourado, Jorge Cramez O realizador gostou tanto de Jota e Margarida que se esqueceu das outras personagens e é pena. Quem é o Rato? Quem é o pai de Jota? Quem é a mãe de Margarida? De resto, as imagens são belíssimas e a fúria de viver está lá inteira. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:29 PM - Comments: Segunda-feira, Outubro 08, 2007 Tudo bem, mas a que parte do atarefado dia podemos ir buscar essa hora de leitura diária? Onde desencantar tempo para ler? É um problema grave. E não é o único. O tempo disponível para ler e o desejo de ler nem sempre coincidem. Porque, se virmos bem, ninguém tem tempo para ler. Nem os pequenos, nem os médios, nem os grandes. A vida é um perpétuo entrave à leitura. - Ler? Eu bem gostava, mas sabe… o trabalho, as crianças, a casa, não tenho tempo… Mas como se explica que aquela, que trabalha, vai às compras, educa os filhos, guia o carro, ama três homens, vai ao dentista, vai mudar de casa para a semana, arranje tempo para ler, e este casto celibatário que vive de rendimentos não o consiga? O tempo para ler é sempre tempo roubado. (Como aliás, o tempo para escrever, ou para amar). Roubado a quê? Digamos que ao dever de viver. É sem dúvida por essa razão que o metropolitano – símbolo tranquilo do dever – é a maior biblioteca do mundo. Tanto o tempo para ler como o tempo para amar dilatam o tempo de viver. Se encarássemos o amor pela perspectiva do emprego do tempo, o que sucederia? Quem tem tempo para estar apaixonado? No entanto, alguma vez se viu um apaixonado não ter tempo para amar? Nunca tive tempo para ler, mas nada, nunca, me impediu de acabar um romance de que gostava. A leitura não resulta da organização do tempo social (…). A questão que se coloca não é saber se tenho ou não tempo para ler (tempo esse, aliás, que ninguém me dará), mas sim se tenho ou não prazer em ser leitor. “Como um romance”, Daniel Pennac postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:48 PM - Comments: Quinta-feira, Outubro 04, 2007 "Quem lê tudo não entende nada, disse ele. Não é necessário ler todo o Goethe, todo o Kant, nem mesmo é necessário ler todo o Schopenhauer; alguns páginas do Goethe, algumas páginas das Afinidades Electivas e no fim sabemos mais dos dois livros do que se os tivéssemos lido do princípio ao fim, o que, em qualquer dos casos nos priva do mais puro deleite. Mas para se chegar a esta drástica autoalimentação é preciso ter tanta coragem e tanta capacidade intelectual que só muito raramente isso é possível e nós mesmos só muito raramente o conseguimos; a pessoa que lê é, como a carnívora, de uma abjecta voracidade e arruína, como a carnívora o estômago e toda a saúde, a cabeça e toda a existência intelectual. Mesmo um ensaio filosófico compreendemo-lo melhor quando não o devoramos por completo de uma só vez, mas apenas debicamos um pormenor, a partir do qual, se tivermos sorte, chegamos depois ao todo." Antigos Mestres, Thomas Bernhard postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:00 PM - Comments:
postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:44 PM - Comments: Quarta-feira, Outubro 03, 2007 Tinha conseguido lugar no Metro e puxado do livro que trazia na mala. O cansaço fazia com que saltasse palavras. Regressava ao início da frase e esforçava-se por pronunciá-las sílaba a sílaba. Fazia com que se ouvissem dentro dela. Entre uma estação e outra não avançava mais de duas ou três linhas. "Estação terminal. Faça o favor de sair do comboio", como se apetecesse a alguém permanecer lá dentro. Talvez as mulheres que começavam a limpar os escritórios às cinco da manhã, argolas douradas nas orelhas, gostassem de ficar mais um bocado com a cabeça encostada à janela. Ela levantou a dela do livro e ouviu alguém que lhe parecia ter mais ou menos a mesma idade dizer "esperei que acabasses a leitura". Tratou-a como se conhecessem. A mulher perguntou-lhe se tinha entretanto mudado de emprego. Se vivia no mesmo sítio. E ela que sim às duas e capaz de devolver as perguntas. O diálogo estabeleceu-se. Lembras-te? E ela que sim. Era altura de se separarem mas a outra, traços indianos, olheiras marcadas e dentes perfeitos, disse que a acompanhava até à rua tal e depois seguia a pé. Ficaram ombro a ombro nas escadas rolantes. Rolava também a conversa. Lembras-te? Pois era. Subiram até à noite que acendera os candeeiros. Foi cada uma para o seu lado – a mulher mais ou menos da mesma idade para o comboio suburbano. Não a conhecia ou se alguma vez não se lembrava. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:58 PM - Comments: Segunda-feira, Outubro 01, 2007 "Agora, não havia nada que a pudesse consolar da perda. Tinha sido ele o motor que pusera em movimento aquele dia tão extraordinário, que fizera o tempo girar mais depressa, até fazer com que ela própria e mais algumas circunstâncias e pessoas se envolvessem numa espécie de turbilhão, olhando-se nos rostos, tocando-se nas mãos, como se fossem as únicas coisas que ainda restavam no mundo. E agora, como uma luz que se apaga, ele tinha mandado dizer que não vinha, deixando-os a rodopiar no vazio, até que o impulso parasse e acabassem no chão, estatelados." Philip Larkin, Uma Rapariga no Inverno postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:36 PM - Comments:
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