Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Terça-feira, Julho 24, 2007

"Agora os olhos de Yvonne detinham-se na velha, que se encontrava na sombra sentada à única mesa do bar. Uma bengala de aço, rematada por um cabo em forma de garra de animal, pendia da esquina da mesa, como se fosse uma coisa viva. Preso a uma guita, trazia um pintainho que aconchegava ao coração, resguardando-o com o vestido, o que não impedia a ave de lançar para o exterior olhadelas oblíquas e nervosas, repassadas de impertinência. A mulher poisou o pintainho na mesa, mas junto dela, e o animalzinho, soltando débeis pios, pôs-se a debicar por entre os dominós. Não tardou, porém, que a velha o abrigasse mais uma vez no seio, aconchegando-o ternamente com o vestido. Mas Yvonne tratou de desviar os olhos. Aquele pintainho, os dominós e a velha gelavam-lhe o coração. Aquilo afigurava-se-lhe de mau agouro."

Debaixo do Vulcão, Malcolm Lowry
(IR)

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Quinta-feira, Julho 05, 2007



estudo de cascalho para o tempo de verão.

miss portugal

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Le repas frugal, 1904,
Pablo Picasso

miss portugal

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os meninos castanhos viam ao de longe o jipe, que deitava atrás de si sacos atados em cordas rudes. corriam atrás dele como se quisessem apanhar a abundância. estoirados desaceleravam as pernas ossudas e travavam os pés nas pedras soltas da estrada. voltavam atrás onde mulheres se dobravam sobre os sacos deitados, como pombos à roda de migalhas de pão. passavam por elas pretensamente desinteressados, dando guinchos de assentimento e revolteando sobre a poeira levantada pelas mulheres. elas acocoravam-se e metiam mãos e braços castanhos entre o branco dos sacos.as mãos cheias enchiam os regaços e curvadas escapavam-se em altas vozes. os rapazes seguiam-nas jogando para o ar pedras famintas.

miss portugal

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Quarta-feira, Julho 04, 2007

dentro de si existiam nós apertados de variados tamanhos e texturas. enrolavam-se e desenrolavam-se com um ritmo próprio como um tic tac do relógio. o processo seguia uma rigorosa pré determinação de origem desconhecida. várias explicações tinham surgido com o tempo, mas nenhuma delas explicava tudo na totalidade. os puxões de nó no estômago eram azedos e repentinos e numa hierarquia de dor e desconforto não proporcionavam muita aflição. os apertos na cabeça repuxando para trás o couro cabeludo como se o escalpe se despegasse (à maneira dos western) já constituíam pior sofrimento. as caîbras nocturnas que a obrigavam a esticar e espalmar os dedos dos pés, como se tivesse visto um fantasma, eram ainda suportáveis. o mais doloroso era a prisão da garganta que nenhum pigarreio limpava, nem nenhuma mezinha parecia disfarçar. quando o via com as patilhas compridas e ralas a subir a rua no seu jipe preto, melhor gingando do que rodando, de membros soltos e pousados na janela aberta, sabia que a garganta se lhe fechava e ela de tanto querer chamá-lo enrubescia de raiva. ele tinha sido dela num monopólio que lhe parecia agora raro e extremamente valioso. e como um qualquer jogador incapaz de se contentar com a sua sorte jogara-o e perdera-o. a dimensão da sua tristeza e desalento cansava-a todos os dias. olhava o passado e vira nele a imprevidência do seu gesto. perdera-o e perdera-se. era fácil escrever sobre o que tinha sido, pois tinha em si este pus que necessitava de ser expurgado. era fácil recordar-se lentamente, como um devaneio, das conversas aparentemente banais e dos desencontros havidos.
nunca existia culpa.
nunca faltava corpo.
o corpo dele prenchia o vazio.
a sua presença era luz.
quando pensava nele escrevia mal.
amélia

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Segunda-feira, Julho 02, 2007



Frank Stella, Metropolitan Museum

miss portugal

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