Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Sábado, Junho 30, 2007

Brilhante Sir Ken Robisson!!!
http://www.ted.com/index.php/talks/view/id/66
mp

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Sexta-feira, Junho 29, 2007



uma cama para a miúda. está na vertical, mas também se pode usar na horizontal.

miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:22 PM - Comments:


'If all there was to the human mind was the capacity for academic reasoning, most of human culture would never have happened. There would be no art, no design, no architecture, no love, no affection, no relationships, no literature, no intuition and no desire. I think these are rather large factors to leave out in terms of an education system.'
Sr. Ken Robinson
mp

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Terça-feira, Junho 26, 2007

se o cão fosse preto e se fizesse acompanhar de uma gata e de um livro, esta poderia ser a cama da ramos no bairro alto


Alfred Eisenstaedt (1898-1995)
Andrew Wyeth's Bed, Hat and Dog, Cushing, Maine, 1965

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com um gato quieto sobre a colcha e uns chinelos rosa shocking no chão, esta poderia ser a cama da branco em troia



brincadeiras de miúda

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:52 PM - Comments:


Segunda-feira, Junho 25, 2007

O dia ainda não nasceu quando ela chega. Sorri ao segurança, adormecido contra a parede. Ela está acordada desde as três da manhã. Mora no subúrbio. Ele dorme. Sorriem um para o outro. No fio que ela traz ao pescoço há, entre as medalhas, uma chave. Da despensa. Lá repousam, alinhados, os carrinhos, cada um com meia dúzia de produtos de limpeza diferentes, uma esfregona de um lado, uma vassoura com pá colada do outro, um grande saco azul de plástico no meio. Ela já vestiu a farda. Empurra o carrinho em direcção ao elevador - o único som é o das rodas de borracha sobre o linóleo. No segundo andar ela estaciona. Puxa das luvas e do pano cor de laranja. Mal saiu do habitáculo acendeu todas as luzes do piso. Nunca viu quem ali trabalha. Só as filas de secretárias, cada qual com um ecrã empoleirado. Lá ao fundo há-de encontrar a mais desarrumada de todas. Folhas em completa desordem. Dobradas algumas. Outras amarfanhadas. Em todas a caligrafia que lhe faz lembrar o traço de um electrocardiograma. Lá ao fundo. Primeiro tem de limpar e arrumar as outras. Despejar os cinzeiros. Varrer debaixo das cadeiras. Limpar o chão. Não é por mais nada - gosta de fazer o segundo andar porque ali há janelas. Duas. De frente para o sol que primeiro há-de nascer e depois nasce. Lá está a luz original. Ela desliga as do tecto. Reina a penumbra. Não parece definitiva, a luz do sol. É como se pudesse arrepender-se. Onde incide primeiro é na secretária mais desarranjada. Ela está bem acordada, mas, mesmo assim, esfrega os olhos - com os punhos, com uma criança - quando se apercebe de movimento lá ao fundo. Forma-se uma pequena colina negra. Depois é apenas um casaco esquecido no cabide. Até que cresce um braço para cada lado e em cima uma cabeça. O homem levanta-se. Ela corre sem ruído - usa sapatilhas, brancas - e refugia-se no canto atrás da porta. O homem sai, com os braços atirados para cima, a espreguiçar-se. O carrinho com os detergentes, o saco azul, a vassoura, a esfregona ficou a quatro secretárias daquela que ele ainda há pouco ocupava. Ela começou agora a arrumá-la. IR

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Sexta-feira, Junho 22, 2007

dantes eram só palavras que ela necessitava de colar à realidade. agora eram também imagens, traços de luz e cor. a sempiterna obrigação de endireitar o torto, compor a saia, fechar os joelhos quando se sentava.

miss portugal

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acontecera de novo. aquela impressão no baixo ventre ou à inglesa "navel", que soava embora não fosse diferente. percorria-o como uma mão que cheia de vulgaridade o tacteasse. tinha a certeza que todos ao seu redor poderiam sentir o seu desejo, de tão intenso. ficou aliviado ao reparar que estava como sempre sozinho. afinal, a vergonha era de si próprio e o receio de ser descoberto era o medo de si.ainda assim olhava em redor, inquieto como se alguém o estivesse a questionar e da sua resposta dependesse o bem ou o mal do mundo.aumentava a urgência e o desejo que solidificava em coisa. a coisa tornava-se insistente e absorvia-o através de milhares de reacções, que sentia queimarem-lhe a pele. trocas de oxigénio por dióxido de carbono, libertação de substâncias contaminantes e de calor. tornava-se mais poderoso do que alguma vez fora.
acordara dorido e devendo-se muitas e demoradas explicações.olhara em redor e verificou cada um dos objectos do seu quarto, a mobília e o pó da véspera.conferiu mentalmente o que tinha a fazer nesse dia. ainda não estava louco. preocupava-o não a ter amado no sonho. falaram-se e ele explicou-se longamente. era assim ultimamente. só ele falava.

alberto

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Domingo, Junho 17, 2007

"Nothing was ever discussed - nor did they feel the lack of intimate talk. These were matters beyond words, beyond definition. The language and practice of therapy, the currency of feellings diligently shared, mutually analyzed, were not yet in general circulation. While one heard of wealthier people going in for psychoanalysis, it was not yet customary to regard oneself in everyday terms as an enigma, as an exercise in narrative history, or as a problem waiting to be solved."

"On Chesil beach", Ian McEwan, 2007

miss portugal

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Sexta-feira, Junho 15, 2007

Costumo vê-la, de bata às florinhas azuis sobre o soutien, a sacudir o pano do pó ou a empoleirar os sapatos - para que arejem. Também a regar a calandiva com minúsculas flores amarelas. Intriga-me que todos os dias limpe a casa e surpreende-me a resistência da calandiva a tanta água. Quando pela primeira vez a observei, à noite, no parapeito pensei que ia atirar-se para o espaço aureolado. Até ouvir um rumorejar de asas. Os pombos do beiral em frente atravessavam o espaço iluminado. Eram muitos, muitos mais, vindos não sei de onde. Por momentos a rua escureceu. Depois, a luz recomposta, rodeavam a mulher no parapeito. Ouriçavam-se. Abriam as asas. Puxavam as penas com o bico. Formavam um corpo único celebrando a desordem e a sujidade. No meio deles estava a dona da casa. O cabelo quase todo fora do carrapito. Rasgões nas meias de vidro pretas. Sorria. Sentei-me a fumar na minha varanda e devo ter adormecido diante daquela bizarra manifestação de felicidade. Na manhã seguinte a dona da casa, o carrapito refeito, esfregou o parapeito. Hoje voltou a empoleirar-se. Está acocorada, as pernas dobradas e abertas, as mãos entre elas, agarradas ao mármore. Subiu agora mesmo. IR

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Quarta-feira, Junho 13, 2007

"o definitivo é o amor" disse ela. não pensei que se pudesse falar assim. a medo acrescentei, e o belo e o bem. olhei em volta e ninguém se opôs. não queria sair de lá, da pequena sala claustrofóbica onde perdi o medo de falar do que me interessa. sobre estas palavras ouvidas de noite, outras se sobrepuseram. eram sorridentes, tinham o cabelo apanhado, compunham os óculos e pigarreavam ao falar. eram jovens, fortes e desassombradas. cuidavam de mim. não se iam embora. defendiam-me de mim, punham-se do meu lado, embora permanecendo imóveis no sofá novo. devia cheirar a pele, o lugar preto e fundo. a pele, minha pobre pele, soltou-se, mas foi varrida pela água. ao olhar para a minha esquerda entre os estores fechados vejo as ondas, que se agigantam e me querem, se querem, afogar. mergulho, olho para os óculos bem firmes e venho à linha da água. já consigo respirar.até já respiro no mar.

(para a rita)

amélia

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Saíste de noite e fiquei enrolada em mim própria. quente, já que de quente nada tens. regressaste sem saudade, como se não tivesses partido.não me falaste como se me reencontrasses, mas como se estivesses perdido em ti.tinha-te pedido um manjerico. nesse momento quisera esconder a minha tristeza com um pedido. ao chegares puseste sobre a mesa o pequeno vaso ocre. num cravo branco de papel, esvoaçava um verso. li-o e gostei tanto, que achei que o tinhas escolhido para mim. a minha natureza é de espera. contemplo as coisas e tiro-lhes o que necessito. acontece dar-me às coisas também. li mais uma vez:
"Depois de tanta desordem
Depois de tam dura prova
Deve vir a nova ordem
Se vier a ordem nova."
corri para ti, no meu coração corria, embora o passo estivesse arrastado como habitualmente. disse-te, adorei os versos. vêm mesmo a calhar. ao que respondeste, não estás a pensar que estive a escolher um verso entre todos os que lá havia, não? não respondi, de gelada. mas, vêm mesmo a propósito, não achas, insisti, com uma voz de quase fel. qualquer verso dá para nós, disse ele. não, não dá, calei eu.
amélia

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Segunda-feira, Junho 11, 2007

Imagino que vou buscá-lo. Que pego nele. Que o encosto a mim. Sinto o focinho no meu ombro. Uma orelha preta tapa-me o olho direito. Penso que é bom ver menos, que não preciso de ver tanto, não preciso de ver o caminho. Aperto-o mais. Com força. Cruzo os braços à frente. Os músculos retesam-se. O corpo doente dele encolhe-se contra o meu. Sinto-lhe as costelas. Quero continuar a apertá-lo mais e mais. Curá-lo ou então parti-lo contra mim. Parti-lo naquele enleio. Dizem-me que não é assim que se faz. Há algures uma seringa. Um líquido dentro de uma seringa. Imagino que relutantemente deposito o corpo dele sobre uma mesa de alumínio. Não quero separar-me dele. Também ele luta por manter a proximidade. Olha para mim. Aninho-me como posso junto dele. Puxo as pernas para cima. Dobro-as. Ele fica deitado, a pata inchada, onde o mal se manifestou, retesada sobre a parte lateral do meu tronco, as outras encolhidas à frente. Os olhos dele perguntam-me porquê. Espero que os nossos olhos castanhos se entendam quando respondo aos dele que não sei. Depois ele fecha-os.
(para um cão que viveu toda a vida num canil e ali morreu também. era velho e parecia um cachorro - sempre a correr e aos saltos.) IR

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Terça-feira, Junho 05, 2007

Branca de Neve

Acreditaria cheia
de gosto, pois a confiança
é um prazer calmo. Porém,
com que confiança posso
acreditar, quando não há
confiança, quando a velhaca
maldade está à espreita
e a injustiça se senta
de nuca empertigada?
Falar docemente, isso
vós conseguis, mas não agir
com doçura. O olho que
brilha tão desdenhoso e
com lampejos me ameaça,
bem pouco maternal, ri-se
agoirento do tom meloso
da vossa língua que, aliás,
despreza: é ele quem fala
verdade e é apenas
nele, nesse olho arrogante
que eu acredito, não na
vossa língua traiçoeira.

Robert Walser, Gata borralheira branca de Neve a bela Adormecida
(IR)

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Segunda-feira, Junho 04, 2007



tinha-a alcançado finalmente. depois de anos de espera, de invejas e de algum desalento, conseguira. não era qualquer uma que se poderia gabar do mesmo. ela sim. podia dizer de cabeça erguida e peito trinta e seis enchumaçado, que era ela a que mais cedo tinha alcançado a felicidade.podia dizê-lo abertamente. debruçar-se no parapeito e cantá-lo nas noites quentes. olhava para ela e sorria com desvelo maternal. era feliz. já tinha a sua cozinha. gozava o prazer que nenhum homem lhe tinha dado. tinha alcançado a felicidade. a felicidade na cozinha.

alzira

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Sexta-feira, Junho 01, 2007


Ilustração de Cristina Robalo
(eu queria ter copiado a imagem da menina com saia azul de balão que empunha os lápis. vejam-na em http://www.re-searcher.com. cliquem em Ilustradores, Infantil e Cristina. IR)

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