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Palavras da Tribo
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As primeiras, as segundas e todas as palavras Segunda-feira, Janeiro 29, 2007 "Foi por amor dela, e a despeito de Settembrini, que me sujeitei ao princípio oposto à razão, ao princípio genial da doença, ao qual, talvez tenha estado sujeito desde sempre, e fiquei aqui já não sei exactamente desde quando. Porque tudo esqueci e desliguei-me de tudo, dos meus parentes e da minha profissão, na planície, e de todas as minhas esperanças. E quando Claudia partiu, esperei-a, esperei-a sempre, aqui em cima, de modo que estou definitivamente perdido para a planície, que me considera morto." Thomas Mann in "Montanha Mágica" miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:16 PM - Comments: Quarta-feira, Janeiro 24, 2007 "21.06.06 O andorinhão morreu. Não cumpri o dever de violência, a eutanásia. Mas morreu quente, afastado da predação dos gatos, alguma coisa doce no papo. Tinha a cabeçorra de gavião encostada à borda do cesto e não se virou de pernas para o ar, como fazem os pássaros mortos. Tinhas razão hoje ao telefone, quando te disse, muito afoita, que basta de sentimentalismos. Calaste-te. Não, não vai para o lixo. O British Quintal, campo santo de cão e pássaro alto. Acho que nos conhecemos melhor agora, no termo desta empresa, melhor do que em anos de convívio." Maria Velho da Costa, quase no final de "O Livro do Meio", de Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa (IR) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:01 PM - Comments: Segunda-feira, Janeiro 22, 2007 como este é um blog "plural", que é o que se diz de quem discorda violentamente e com quantos dentes tem na boca, de outrém, aqui me socorro da Cristina Campo para dar uma achega a esta coisa da vida, que mais uma vez é palavra. "Numa época de progresso puramente horizontal, em que o grupo humano surge cada vez mais semelhante àquela fila de chineses conduzidos à guilhotina de que se fala na crónica dos Boxers, o único comportamento não frívolo parece ser o daquele chinês, na fila, que estava a ler um livro. Surpreeende ver os outros, à espera da sua vez, atirarem-se com fúria sangrenta sobre o que era preferido dos carnífices que actuam no cadafalso. (...) seja como for, o chinês que lê mostra sapiência e amor". "Os imperdoáveis" miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:59 PM - Comments: O seguinte post foi descaradamente roubado a um umblogsobrekleist.blogspot.com. Naturalmente, só me compromete a mim, myself and I, que o subscrevo absolutamente e, como é evidente, ao seu republicano e laico autor, Alexandre Andrade. IR DE SÍMIOS E DE GALHOS: Que autoridade, que competência possuem os representantes da Igreja Católica para emitir pareceres sobre o referendo à despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez? Resposta: nenhuma. Tanta como o Clube de Coleccionadores de Saquetas de Chá Preto de Miranda do Corvo. Infelizmente, não só a Igreja se auto-reconhece essa autoridade e essa competência (servindo-se do inacreditável argumento de que tudo o que diz respeito ao ser humano cai sob a sua dilatadíssima alçada), como a comunicação social se mostra cúmplice contumaz dessa exorbitação. Por tradição? Por hábito? Por inércia? Até ao dia 11, não duvido de que a opinião pública continuará a ser visada pelo esforço de "iluminação das consciências" promovido por ilustres membros do clero. Por uma questão de equidade, espero que seja atribuído tempo de antena a médicos, juristas, filósofos e psicólogos para discorrerem sobre a santíssima trindade, sobre a exegese do Novo Testamento e sobre os desafios do ecumenismo neste dealbar do século XXI. postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:16 PM - Comments: Sábado, Janeiro 20, 2007 "Nossa alma é feita para pensar, ou seja, para perceber; ora, um tal ser deve ter curiosidade, pois, como todas as coisas estão em uma cadeia em que cada ideia precede uma e segue outra, não se pode gostar de ver uma coisa sem desejar ver outra. E, se não tivéssemos esse desejo por esta, não teríamos nenhum prazer por aquela. Assim, quando nos mostram uma parte de um quadro, desejamos ver a parte que escondem de nós, na proporção do prazer que nos deu a parte que vimos" Montesquieu in " Ensaio sobre o gosto" miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:49 AM - Comments: Sexta-feira, Janeiro 19, 2007 Quando quis virar-se sentiu que a arrepelavam. Acordou com o gato enrolado no cabelo. Ao lado, o homem dormia, a mão sobre o peito, o pescoço estranhamente arqueado, o alto da cabeça, em vez da nuca, sobre a almofada. Respirava serenamente, mas o corpo parecia em tensão. Rigor mortis. Ela expulsou o pensamento com um movimento brusco que fez saltar o gato. Foi nessa altura que deu pela falta do braço direito: o estremeção não o implicara. Procurou-o com o olhar e soube que ainda lá estava, atirado para trás, no alinhamento do ombro. Tentou levantá-lo, sem resultado. Não porque se tivesse tornado pesado. Era leve, tão leve que roçava a inexistência. A mulher não chegou a sentir-se aflita. Nem quando pensou na possibilidade de algum vaso sanguíneo dentro da sua cabeça ter rebentado. Pegou no braço com a mão esquerda - os dedos sentiram-no quente - e deixou-o em cima do peito do homem. Pouco depois a nuca dele regressou lentamente ao travesseiro e o braço ao corpo dela. Simples dormência. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:28 PM - Comments: "Como se explica, Hípias, que os antigos sábios Todos se tenham afastado dos negócios públicos?' Perguntei, porque também eu calei A minha voz pública de outrora. Cidade, Perdoa-me a ausência e o rancor, Perdoa que a minha voz agora Não nomeie os teus cais de embarque, A dor, a miséria, a cúpida opressão. Ainda amo, neste exílio de paz, a mesma Paz. Sábia, não sou. Calei-me porque as memórias minhas e a voz sozinha também pertencem ao Todo, em harmonia. Ainda amo a pátria, feita de lugares, parentes, dos próximos, e do vento, meu semelhante." Fiama Hasse Pais Brandão, citada por Armando Silva Carvalho em "O Livro do Meio", de Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa (IR) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:27 PM - Comments: Quinta-feira, Janeiro 18, 2007 "Haverá poucas pessoas cuja vida seja inteiramente pura e plena. E oxalá também existam poucas pessoas cuja vida se tenha convertido numa negação total insuperável. Quase sempre, apesar dos numerosos fracassos, a nostalgia do bem é determinante" Joseph Ratzinger in "Deus e o Mundo" miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:12 AM - Comments: Terça-feira, Janeiro 16, 2007
egon schiele miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:21 PM - Comments: os acasos tecem-se dos nossos desejos. desejo encontrar a mulher que amo, e um amigo bate-me à porta a uma hora improvável. não tencionava abrir e agarrei-me à cadeira, sem vontade de negar aos explorados que enfiam publicidade no correio a entrada no prédio. sinto-me a um passo de lhes tirar os papéis, que prometem felicidade, das mãos e correr com eles de porta em porta, como maria e josé, andrajosos, ela grávida não se sabe bem de quem. quando me chamaram à realidade, quando a campainha tocou e eu sabia que não podia ser ninguém e afinal era, estava agachado sobre o teclado de mãos cruzadas a gemer da incompreensão do mundo. baixava-me como para deixar passar as ondas que vinham cinzentas, roliças, em séries de sete e ameaçavam cobrir-me. e eu lá por baixo como um peixe/homem esperava ser anfíbio e aguentar sem respirar o tempo das ondas passarem e eu vir ao de cima sorver o ar, que me falta sempre. eu e a mulher que eu amo poderíamos ter vivido no mar. eu poderia ter construído uma casa rente ao mar, para ela. ela viaja para o nosso mar, um mar estrangeiro que nós apadrinhámos e nomeámos, com outro homem. é assim. alberto postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:15 AM - Comments: Segunda-feira, Janeiro 15, 2007 "A Rapariga Velha passou uma manhã quase deliciosa. O ar está fino, frio e claro. É ainda a luz, que se diz crua, do Inverno. Levanta-se às oito da manhã, que é um hábito que não tinha até há uns dez anos, quando começou de facto a envelhecer. O gato mais velho dorme ainda aos pés da cama. Esta noite não pediu para sair de madrugada. O cão, uma cadela preta ainda cachorro, enrosca-lhe o focinho no cabelo, um gesto de dominância matinal de que a Velha não gosta. Levanta-se devagar, abre estore e persiana. Começa a gerir as forças da casa. Abre a porta de alumínio e da cozinha para o quintal, deixa sair os animais. Prepara um café com açúcar, a Rapariga Velha não come de manhã. Senta-se na senhorinha do quarto, fuma. Olha. (...) Não ouve música ou noticiários. Lê. Olha. Hoje não há empregada e a Velha Rapariga inquieta-se se duas vezes por semana não serão já demais. Força-se a olhar de novo, não força quase nada, a ponderar as suas bênçãos. O pequeno quarto, à escala da pequena casa. Já lhe disseram, de várias boas mentes e das más, que vive numa casa de bonecas. E ela diz que não é bem verdade, que se sente como a Alice de Carrol, quando toma a poção que a faz enorme e sair-lhe o corpo pelas aberturas da casa, a cabeça pela chaminé, braços e pernas por janelas e portas. Não é nada de tão angustioso. A casa tem para a Rapariga velha a dimensão carinhosa do abrigo possível e grato. Poderá carecer de espaços mais amplos, elanguescer em mais nobreza de pé-direito e jogos de luz de sacada aberta, poderia. Deus não quis, ela não pôde, está bem assim, na Casa de Bonecas, sem Ibsen, sem mármores, certamente sem lustres e balaustradas. A Velha Rapariga também se ri sozinha. A pequena casa é de fundo risonho." Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa, Livro do Meio (IR) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:26 PM - Comments: Sexta-feira, Janeiro 12, 2007
Daniel Blaukfus miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:59 AM - Comments: dói-me, começou ela. dói-me mais. dói-me cada vez mais. não quero que me doa, disse.não quero mais dor, gritava. pára, já disse. e então ele tirou-se devagarinho dela, e desligou o rádio. ela ouviu algo que lhe soava a Wagner, ao misterioso começo dos nibelungos, em que nada parecia acontecer. no entanto, toda a orquestra a fitava e continuava a subir de tom, escapava e voltava à tónica. ela tapou-se e virou-se de costas para os sons. e a sua língua inepta murmurou: desculpa. ele deveria ter guardado silêncio, mas ouviu-se: não há crise. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:38 AM - Comments: Quarta-feira, Janeiro 10, 2007 "Uma grande parte do dia não é vivida conscientemente. Dão-se passeios, come-se, vê-se tudo o que é possível e fica-se ocupado com o que tem de ser feito: com o aspirador danificado, o planeamento do jantar, a escrita da lista de compras para a Mabel, com a lavagem da roupa, cozinha e encadernação de livros. Num dia difícil a percentagem do não-ser é muito maior... O verdadeiro romancista pode dar expressão às duas partes do ser. Jane Asuten pode e Francês Trollope também, e talvez Thackeray e Dickens e Tolstoi. Eu ainda não consegui unir as duas." Diário de Virgina Woof, citado em "Virgina Woolf", Werner Waldmann (IR) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:48 PM - Comments: e ELA disse: i retira as tuas lágrimas do tanque do coração com o cuidado das tuas mãos estende-as sobre a madeira a secar ao sol de janeiro de seguida pendura-las nos meus olhos ao inclinares-te sobre a terra como brincos do mais fino ouro e pérola usá-los-ei para sempre aqui onde agora me encontras o nosso PONTO DE ENCONTRO ii entraste fundo em mim e de mim nunca saíste somos todos filhos de um VENTRE MAIOR a miúda devolta
Anish Kapoor postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:24 PM - Comments: ele era só um pulmão doente, que assobiava como uma fresta de uma janela mal fechada. esperava visitas, que tardavam em chegar e quando chegavam não bastavam. ela passava no corredor branca e destemida. os corpos doentes não a impressionavam. os que morriam causavam-lhe um franzir de ombros e de cara, como se a morte fosse uma ocorrência inconveniente e nada mais.ele não queria morrer. pelo menos mais um dia a olhá-la, a sentir-lhe a voz de acerto. e assim vivia escondido atrás de um pulmão doente. alberto postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:39 PM - Comments: Terça-feira, Janeiro 09, 2007 Teresa gostava da água. A mãe, que nunca tinha aprendido a nadar, dizia-lhe: "És o meu peixinho." Tinha medo da água, a mãe de Teresa. Na praia, seguia até dar-lhe o mar pelos joelhos, inspirava, preparando-se para uma grande façanha, e acocorava-se de repente. Logo a seguir dava um pulo, buscando ar como se terminando um prolongado mergulho. "Não te afastes tanto peixinho!", pedia a Teresa, quase a chegar à bóia vermelha. Teresa gostava da água mas nunca abria os olhos debaixo dela, a não ser que usasse os óculos cor-de-rosa, que evitava porque lhe apertavam a cara. Nadava às cegas. Impulsionava o corpo rechonchudo, dentro de um fato de banho vermelho, pelo espaço interminável. Por detrás das pálpebras cerradas aparecia-lhe às vezes um astronauta saltitão. Levantava a mão enluvada, saudando-a, e partia de novo. Aos saltinhos. Teresa acreditava que se abrisse os olhos a água havia de entrar-lhe dentro do corpo e tomá-lo inteiro até que se dissolvesse. Então o amor acabava. Porque não é possível amar-se a si próprio. Não da maneira que interessa, pelo menos. Naquele dia Teresa não usava o fato de banho vermelho, há muitos anos guardado numa mala, por cima do roupeiro. O corpinho rechonchudo a transbordar na zona das alças e do rabo existia apenas dentro dos porta-retratos, na casa da mãe. Também não havia sol. Foi ao princípio da noite que Teresa avançou, sentindo a ganga das calças colar-se às pernas e depois o fio de contas subir-lhe até ao queixo. Da cama do hospital, que provavelmente as enfermeiras já preparavam para receber outro doente, a mãe não podia dizer-lhe "Não te afastes peixinho!" Teresa mergulhou e abriu os olhos. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:20 PM - Comments: Segunda-feira, Janeiro 08, 2007 Henry James sobre O Calafrio ou A Volta do Parafuso "Havia algo de peculiarmente enregelante na ideia de um casal de adultos corromper a inocência de duas crianças e voltar depois do outro mundo para reclamar as suas almas, mas ele tinha percebido instantaneamente que sublinhar a maldade, torná-la escabrosamente explícita, lhe atenuaria o efeito. O conto 'funcionava' porque a natureza da corrupção nunca era especificada e as manifestações sobrenaturais eram confinadas ao espaço da idílica casa de campo - podia até ser (como a pragmática Mrs. Grose dava a entender) produto da imaginação febril da jovem e impressionável preceptora que era ao mesmo tempo narradora e pólo convergente da consciência. ... Henry tentara fazer com que todos os incidentes insólitos da história fossem passíveis de ter duas explicações, uma natural e outra sobrenatural, e era a dúvida da narrativa, sustentada até ao fim, que mais do que qualquer outra coisa os mantinha em permanente suspense." "Autor, Autor", David Lodge (IR) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:04 PM - Comments: Sexta-feira, Janeiro 05, 2007 Queria falar-vos da infelicidade do tempo presente. dos dias em que ditadores morrem e ainda assim, o bem não triunfa. as crianças desenham homens pendurados em cordas e, logo de seguida vão jantar, apaziguados, como se nada se passasse entre as refeições. os pais, incomodados, desligam a televisão durante mais uns segundos e julgam que controlam as suas vidas. estão quase certos que são melhores do que os outros. lá fora, num mundo distante, os outros sobrevivem, ou não, ao horror. as crianças, se pudessem, desenhavam homens pendurados em cordas e choravam, ou não. alberto postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:03 PM - Comments: Eu tinha contas a ajustar com ele, senhor comissário. Queria dizer-lhe que não me esqueci. Olhar-lhe os olhos pequenos atrás das lentes escurecidas e perguntar porquê? Obrigá-lo a explicar o descaso. Forçá-lo a reconhecer a ausência passada. Levá-lo a pedir desculpa pelas pequeninas atrocidades. Pelos jogos que me faziam chorar a mim e o divertiam a ele. Pensei em tudo, senhor comissário. Estava preparado para debitar um texto com alíneas. "Isto e mais isto e ainda isto. Explica-te! Retrata-te!" Ele apareceu com o pescoço encolhido no casaco azul que não tira sequer dentro de casa. O cabelo todo branco a precisar de barbeiro. Os riscos verticais nas faces muito pronunciados. Dois ou três pêlos compridos a encaracolarem-se além das medidas nas sobrancelhas. Os olhos pequenos. Cansados. Não era com ele que eu tinha de ajustar contas. Fui-me embora e, na rua, bati em quem encontrei. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:30 PM - Comments:
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