Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Quarta-feira, Novembro 29, 2006


esta é a Sara com uma cadelinha que adoptou na União Zoófila. roubei a foto do blogue dela, chamado missanguinhas. a Sara é artesã. IR

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Quando ela me pergunta se quero ir ao banho finjo que estou a dormir ou aparento uma espécie de dormência felina aquecida pelo sol e ronrono. Não é que não goste de banhar-me mas o melhor de ir à praia é poder ver a Maria Emília entrar no oceano.
Ouço-a primeiro enterrar os pés até ao peito na areia. Um dois três quatro, conto até cinco e soergo as costas, apoiado nos cotovelos. Tenho a forma de um gafanhoto na altura em que abro os olhos para a surpresa incandescente e dolorosa da luz.
O corpo dela refulge. Dilui-se, mas não totalmente. No centro permanece uma zona maciça. Tudo o resto é cintilação. Depois, habituados os olhos, recupero-o, inteiro, diante do recorte de espuma e sal. É ali que começa o bailado pontuado por vénias à água. Emília avança e recua, dobra o corpo, molha a ponta dos dedos, parece que chilreia fugindo da onda para persegui-la depois. Está a jogar à apanhada com o oceano.
De repente, caminha, decidida. A água dá-lhe pelos joelhos quando deixa cair as mãos que agarravam as costelas e começa a desenhar semicircunferências ao nível das ancas. Devagarinho, rema, deslocando o corpo mar adentro. Não mergulha. Prossegue, até chegar-lhe aos ombros e então, na vertical, imerge. Integra-se.
Muito, não sei quanto, tempo depois sou eu quem se encontra à beira da água. Esbracejo. Peço-lhe que volte. Não a vejo. De em vez em quando parece-me que lhe avisto o cabelo. Mas posso tê-lo confundido com um feixe de algas. Ouço-a rir e isso tranquiliza-me. Então sento-me na areia molhada. Espero por ela. IR

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Domingo, Novembro 26, 2006

"Os versos são poeira fechada
de um meu tormento de amor,
mas lá fora o ar é correcto,
instável e doce e o sol
fala-te de caras promessas,
por isso quando escrevo
afundo a cabeça na poeira
e desejo o vento, o sol,
e a minha pele de mulher
contra a pele de um homem."

Alda Merini in "Terra santa", 1996

miss portugal

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"É o silêncio que deves escutar
o silêncio por detrás das alusões, das elisões
o silêncio por detrás da retórica
o silêncio do que se chama a perfeição formal
Isto é a busca do não-sentido
até no próprio sentido
e reciprocamente
Ora tudo o que com arte escrevo
justamente é sem arte
e todo o cheio é vão
Tudo o que escrevi
está escrito entre as linhas"

Tradução de Vasco Graça Moura.

Gunnar Ekelöf, poeta sueco recém descoberto, com a devida vénia ao blog "Insónia"

miss portugal

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Sexta-feira, Novembro 24, 2006

"Atribui-se ao progresso das ciências naturais um aumento comprovado e cada vez mais rápido da força e do conhecimento humanos. Pouco antes da era moderna, a humanidade europeia sabia menos do que Arquimedes no século III antes de Cristo, ao passo que, nos primeiros cinquenta anos do nosso século, o número de descobertas importantes foi maior que o de todos os séculos de história somados. No entanto, com igual razão, atribui-se ao mesmo fenómeno a culpa do não menos comprovado aumento do desespero humano, ou do niilismo especificamente moderno que tomou conta de sectores cada vez maiores da população, do qual o aspecto mais significativo é que já não poupa os próprios cientistas, cujo fundamentado optimismo, no século XIX, foi ainda capaz de enfrentar o igualmente justificado pessimismo de pensadores e poetas."
Hannah Arendt, "A Condição Humana"

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Quinta-feira, Novembro 23, 2006



este senhor vem de uma dimensão diferente, rude, áspera, selvagem e ao mesmo tempo absolutamente terna I hope that I don't fall in love with you 'cause falling in love just makes me blue convive com as criaturas da noite e acaba num canto do bar a tocar um piano embriagado the piano has been drinking and my necktie is asleep é o homem dos gelados I got a cherry popsicle right on time, a big stick, mamma, that'll blow your mind o cavaleiro negro e inocente quando sonha I made a golden promise that we would never part I gave my love a locket and then I broke her heart está em cima de uma árvore à espera de Jesus e sabe que ele virá, só é preciso manter os olhos bem abertos so I can see my Lord I'm gonna watch the horizon For a brand new Ford uiva à Lua I'm sitting on a windowsill, blowing my horn nobody's up except the moon and me e agora reuniu os seus órfãos em três discos, recém editados em Portugal. Já pedi que mos gravassem. Desculpe quem o rouba e admira assim tão descaradamente senhor Waits. IR
(quase tão bom como o que este senhor escreve e canta é a biografia que inventou para si próprio. leia-se a propósito o cartaz do expresso desta semana)

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Terça-feira, Novembro 21, 2006



a propósito de "não me plantes no teu coração" e da cadela feia de Rilke

Eu nunca tinha olhado muito para ti. Não és um animal que se destaque entre os outros. És pequenina. Dás a tua voltinha. Regressas à boxe. Não pedes mimos. Passas despercebida entre os demais. Não tinha reparado em ti até - foi ontem - me dizerem que não sobreviverás ao Inverno. Por causa do frio e da humidade. O cobertor no qual te aninhas é quente, mas não há maneira de evitar que tenhas sempre as patinhas molhadas. Cresceste no canil. Não sabes o que é não tê-las molhadas no Inverno. Desculpa só ter olhado para ti quando me disseram que te faltam as forças para sobreviver ao que aí vem. Só então ter visto os teus olhos grandes e brilhantes. Fixavam-me. Não me plantes no teu coração Tuca. Eu cresceria demasiado depressa. IR

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Domingo, Novembro 19, 2006

Rilke encontra uma cadela feia nas ruas de Córdoba. Este episódio inspirá-lo-á no XVI dos "Sonetos a Orfeu" (I Parte):

"Tu, meu amigo, tu és solitário...
precisamos de suportar juntos aquilo que não é senão
pedaços e fragmentos, como se fosse o Todo...
Acima de tudo não me plantes no teu coração:
eu cresceria demasiado depressa"

retirado de "Cartas ao Papa" de António Ferreira Gomes

miss portugal

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Quinta-feira, Novembro 16, 2006

Xaile Encarnado
Letra: João Monge
Música: Armandinho (Fado da Adiça)
Voz: Aldina Duarte

Eu tenho um xaile encarnado
É uma lembrança tua
Tem um segredo bordado
Que às vezes eu trago à rua


Tem as marcas de uma vida
Que a vida marca no rosto
Mas ganha uma nova vida
Nas noites que o trago posto


Já foi lençol e bandeira
Vela de barco também
Tem marcas da vida inteira
Mas dizem que me cai bem


Se pensas que me perdi
Nalgum destino traçado
Para veres que não esqueci
Eu ponho o xaile encarnado


mp (se tivesse os conhecimentos tricoticos do blog tricotetal a tribo teria passado estes últimos dias à roda do fogo a tricotar um xaile encarnado para a Aldina levar amanhã! Boa sorte Aldina, a noite é toda tua! e nossa!)








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Segunda-feira, Novembro 13, 2006



Maria, de Graça Morais
(IR)

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"Se a soberania e a liberdade fossem a mesma coisa, nenhum homem poderia ser livre, pois a soberania, o ideal da inflexível auto-suficiência e autodomínio, contradiz a própria condição humana da pluralidade. Nenhum homem pode ser soberano porque a Terra não é habitada por um homem, mas pelos homens - e não, como sustenta a tradição desde Platão, porque a força limitada do homem o faça depender do auxílio do outro."
Hannah Arendt, A Condição Humana
(IR)

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Teófila ficou em casa, rés ao chão. É a única no prédio de cinco andares. Os pombos que ocuparam o último não contam.
O rés-do-chão tem uma porta verde, de madeira, com postigo. Teófila costuma abri-lo e espreitar cá para fora, perguntando "quem morreu?", certa de que a hora dela chegará. Só não compreende porque não chegou ainda.
Quando se retira para junto das flores de plástico, dos naperons e das imagens de Nosso Senhor penduradas nas paredes, Teófila deixa o postigo entreaberto.
Usa o rolo de papelão que sobra do papel de cozinha para impedir que se feche completamente. Por aquela nesga entra o som do Mundo. Das crianças que jogam à bola. Dos homens no café, que gritam "goooolo!". Da alegria dos cães quando os soltam na rua. Do ciúme dos amantes que discutem à luz dourada do candeeiro.
Debaixo do tecido da bata, atrás da combinação, depois dos peitos em gotas, lá dentro, algures entre as aurículas e os ventrículos, Teófila sabe que a sua hora ainda não soou por causa daquela nesga.
Ontem vieram os homens das obras. Desalojaram os pombos, que voaram a abrigar-se na cornija em frente. Cobriram a fachada do prédio com andaimes e enrouparam-no numa teia verde. Teófila ficou contente por não a terem afugentado a ela também e por isso ria-se à medida que o pano verde caía.
Quando, hoje de manhã, viu as imagens do senhor em frenética tremedeira, Teófila temeu pelo seu olho direito - morto que estava há muito o esquerdo. Também a Nossa Senhora de Fátima, de manto ora azul ora cor-de-rosa, dependendo do tempo chuvoso ou soalheiro, pulava sobre o frigorífico, enquanto a jarrinha com as flores de plástico se estilhaçara no chão. A mãe de Jesus saltava ao ritmo das pancadas nas paredes.
Teófila arrastou-se até ao postigo. Escancarou-o. Lá fora o ar fora tomado pela poeira até ficar castanho escuro. Ela não conseguia respirar. Teólfila fechou a janelinha e sentou-se, saltitando na cadeira ao mesmo tempo que a Virgem sobre o naperon. IR

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Filoctetes foi abandonado por Ulisses após ter sido ferido ou picado por uma cobra. Os companheiros não conseguiam suportar-lhe os gritos de dor nem a pestilência da chaga. Deixaram-no só. Passaram nove anos e agora a conquista de Tróia depende da presença de Filoctetes, que, no entanto, se recusa (compreensivelemente) a ajudar quem o traíu. Ainda assim, é preciso que abandone a "arrogância do sofrimento". Filoctetes, em cena na Cornucópia. IR

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Sábado, Novembro 11, 2006

"Se eu falasse as línguas dos homens e até as dos anjos, mas não tivesse amor
Seria bronze que soa ou címbalo que tine.
Se tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e todos os saberes,
se a minha fé fosse a ponto de mover montanhas,
mas não tivesse amor, nada ganharia.
O amor paciente, repleto de bondade,
o amor que desconhece inveja e não ostenta orgulho,
o amor sem vaidade, que descura o próprio interesse,
e não se irrita e não suspeita mal, o amor que não colhe alegria da injustiça,
mas se alegra com a verdade;
tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais acabará:
há um tempo em que vacilam as profecias, as línguas emudecem e o saber desaparece
porque só em parte conhecemos e só em parte profetizamos,
mas quando chega a perfeição
os limites apagam-se.
Quando eu era criança, falava como criança,
sentia como criança, pensava como criança:
quando me tornei homem
abandonei as coisas de criança.
Agora vemos por um espelho, e de maneira obscura,
o que depois veremos face a face.
Agora conheço apenas uma parte, mas então conhecerei
conforme também sou conhecido.
Agora permanecem fé, esperança, amor, todos juntos.
Mas o maior de todos é o amor.

Hino da 1ª Carta de São Paulo aos Coríntios, tradução de Tolentino Mendonça


miss portugal

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queria dizer-te da minha capacidade de amar. do meu ser amar. de mim todo como um ser que se vira para ti, como um girassol se vira ao sol. mesmo desactualizado, mesmo com rugas de cansaço no rosto, o meu amor é onde melhor me sinto e te sinto, embora ausente. peso-me com frequência, sabes, pois quero-me leve sobre ti e a verdade é que não me sinto leve. nem capaz. como já fui. acomodo-me aos meus pensamentos de ti, que são visitações profundas. o meu entendimento de ti melhora dia a dia. vou-me afeiçoando à perda, como a língua que tacteia a gengiva onde o dente já não está. mas, tu sabes tão bem como eu que estivemos juntos num lugar que é só nosso. eu chamo-lhe casa. tu chamas-lhe passado.

alberto

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Sexta-feira, Novembro 10, 2006

"O motivo pelo qual talvez seja prudente duvidar do julgamento político de cientistas enquanto cientistas não é, em primeiro lugar, a sua falta de 'carácter' - o facto de não se terem recusado a criar armas atómicas - nem a sua ingenuidade - o facto de não terem compreendido que, uma vez criadas tais armas, eles seriam os últimos a ser consultados quanto ao seu emprego -, mas precisamente o facto de que habitam um mundo no qual as palavras perderam o seu poder. E tudo o que os homens fazem, sabem ou experimentam só tem sentido na medida em que pode ser discutido. Haverá talvez verdades que ficam além da linguagem e que podem ser de grande relevância para o homem no singular, isto é, para o homem que, seja o que for, não é um ser político. Mas os homens no plural, isto é, os homens que vivem e se movem e agem neste mundo, só podem experimentar o significado das coisas por poderem falar e ser inteligíveis entre si e consigo mesmos."
A Condição Humana, Hanna Arendt
(IR)

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Quinta-feira, Novembro 09, 2006

Lembro-me dela sentada num banco baixo diante do lume, a saia preta a transbordar-lhe das coxas. Usava uma tenaz para compor os troncos cruzados na lareira, um lugar sob a chaminé, vago no Verão. Depois debruçava-se para as chamas com um garfo enorme na mão, nas pontas do garfo uma fatia de pão. Quase entrava nas chamas, mas a mim dizia-me "põe-te para lá, amiga". E eu ficava cá atrás, a vê-la mergulhar no lume. A ver o tronco dela misturar-se com os troncos incandescentes. O fogo debruava-lhe o corpo, vestido de preto, e a cabeça. Avermelhava-lhe o carrapito. Muitas vezes pensei que ia pegar fogo à minha frente. Até que arrastava o banquinho para trás, a fímbria da saia varrendo a pedra. Nos dentes do garfo o pão fumegava. O miolo tornara-se amarelo, quase castanho claro, e a côdea escurecera. "Toma amiga", dizia-me, já com o assento na linha do meu. Tinha o rosto afogueado e, gulosa, ria-se, mostrando-me os dentes pequeninos. Os pêlos grossos, calcinados, que tinha sobre as comissuras dos lábios levantavam-se. "Toma amiga." Obrigada avó. São boas as torradas que fazes dentro do lume. IR

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Quarta-feira, Novembro 08, 2006

"Porque, com aquela macaca desesperada e meia louca com quem os seus captores, na história de Kafka, o tentaram acasalar, só poderia gerar um monstro. É tão difícil imaginar um filho de Red Peter como um filho do próprio Franz Kafka. Os híbridos são, ou devem ser, estéreis; e Kafka via-se, a ele e a Red Peter, como híbridos, como máquinas de pensar. Monstruosas, montadas, inexplicavelmente, em corpos sofridos de animais. O olhar que vemos em todas as fotografias de Kafka que sobreviveram, é um olhar de surpresa: surpresa, espanto, alarme. Kafka é, entre todos os homens, o mais inseguro em relação à sua própria humanidade. É isto, parece estar a dizer, é isto a imagem de Deus?"

Elizabeth Costello, JM Coetzee

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Terça-feira, Novembro 07, 2006


O Sorte entrou na minha casa há um ano. Na altura fiquei muito preocupada. Pensei que não podia cuidar dele. O Sorte ficou e desde então eu sou mais feliz. IR

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Quarta-feira, Novembro 01, 2006

"A partir de então, falávamos sem nada dizer. Vimos instalar-se entre nós as palavras lisas, os reflexos sonoros do quotidiano, aquele líquido verbal com que nos sentimos obrigados, não se sabe porquê, a preencher o silêncio. Atónito, descobria que falar era, efectivamente, a melhor maneira de se calar o essencial. Quando, para o dizer teria sido preciso articular as palavras de uma maneira totalmente diferente, sussurrá-las, entretecê-las com os ruídos nocturnos, com os raios do Sol poente."

Andreï Makine in " O testamento francês", 1995

miss portugal

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