Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Domingo, Outubro 29, 2006

queria falar-vos, amigos, sobre a correcta posição da mão dela sobre o colo. sobre a inclinação do seu pescoço quando se vira para o lado direito, sem demasiadas pressas, sem pretensiosa lentidão. sobre a alegria das manhãs de sol. sobre o seu olhar que não me fita. queria dizer da incompreensão deste gesto e da minha persistência em o deslindar. queria falar-vos, amigos.

alberto

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:02 AM - Comments:


Quinta-feira, Outubro 26, 2006

O postigo serve de moldura ao rosto de Teófila. Os pilares de sustentação dos andaimes emolduram o postigo. Teófila não traz os óculos. Mas pôs os dentes, brancos, alinhados uns com os outros. Hoje dispensou a bandeleta. Não precisa dela. Tem o cabelo cortado. O risco ao lado. O rosto limpo, cruzado pelas rugas. Sorri, como se olhasse o passarinho com o olho que ainda vê. O senhorio começou finalmente a fazer obras no prédio. Teófila é a única habitante desde a saída do inquilino do quinto andar na sequência de um incêndio. É pelo quinto que os operários começam. Teófila ocupa o rés-do-chão. Os homens já montaram os andaimes. Tratam agora de estender uma rede verde de malha apertada diante do edifício decrépito. O pano cai diante de Teófila, que sorri ainda. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:59 PM - Comments:


Quarta-feira, Outubro 25, 2006



A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

mp (ao ver o documentário sobre o maravilhoso homem que foi Vinicius de Moraes que ontem estreou no cinema percebi finalmente porque persigo a música e a cultura brasileira, por ser um constante ensinamento e exemplo de recusa da solidão, de abrir-se ao outro, de entrega, de amor, de paixão pela vida, e não é por terem uma vida fácil. Eles falam com o coração na boca e escrevem e tocam com o coração nos dedos. Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça!)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:42 PM - Comments:




auto-retrato com cama, Frida Kahlo
(é um dos quadros dela de que mais gosto. IR)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:46 AM - Comments:


Segunda-feira, Outubro 23, 2006

ajuda-me a passar pela noite prometo que serei boazinha amanhã meu deus amanhã de manhã serei boazinha agora ajuda-me protege-me do escuro fica perto de mim até que adormeça faz com que dentro do sono eu saiba que tu velas por mim acalma os sons da noite aquieta-os suprime esta respiração profunda que ouço não é minha contenho-a e a outra continua quem está aí? cala os bichos que roem a madeira faz com que emudeçam meu deus pai do homem louro dentro do livro da catequese faz com que o negrume não se abata sobre mim impede a mancha informe do canto de avançar serei boazinha obriga os olhos que me observam a partir do negrume a fecharem-se discutem a minha sorte sabem que estou sozinha que ninguém virá em meu auxílio quando me agarrarem tranquiliza-me diz-lhes que não podem fazer-me mal porque tu não deixas fecho com força os meus olhos extingo-os dentro das órbitas para que não vejam o miolo da escuridão dar forma a tudo aquilo que temi temo e temerei oh! está cá dentro tomou-me inteira meu deus pai do homem que traz o coração luminoso ao peito já não há diferença entre o negrume e aquilo que sou eu a escuridão entrou dentro de mim a distinguir-me dela apenas
o medo. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:43 PM - Comments:


Sexta-feira, Outubro 20, 2006

Saltitei até à estação do Metropolitano dentro da minha saia travada, aquela que nunca uso. No cais escolhi o lugar entre a rapariga de jeans com o umbigo à mostra e um rapaz de cabelo comprido.
O Metro chegou com as suas múltiplas portas. Uma delas estacionou diante de mim. Antes que se abrisse, vi dentro da composição uma mulher com uma saia que lhe apertava os joelhos. Afastei-me para que passasse. Ninguém saiu. Era a primeira estação da linha azul. Todas as carruagens chegavam vazias.
Não encontrei lugar sentada. Fiquei no corredor e ao olhar em frente reencontrei a imagem. Desta vez tive tempo de observá-la: o rosto excessivamente pintado para o meu gosto, "minimalista", palavra tua; o cabelo liso sobre as clavículas; um soutien daqueles que elevam o peito sob o top verde transparente.
A imagem balançou para a direita quando um homem procurando a saída me deu um empurrão. Senti o meu corpo inclinar-se. Percebi que tinha estado a examinar-me ao espelho. Lembrei-me que me tinha vestido assim de propósito para ti.
Esperavas-me três estações depois. Caminhei na direcção do banco onde costumas sentar-te. Lá estavas, os olhos inchados pela alergia - "à mudança de estação", contaste-me -, o nariz congestionado, sem forma, as mãos abertas sobre as coxas, um corpo firme e sem entusiasmo, à espera de um estímulo de fora.
Olhaste-me quando passei por ti. Tremendo sobre os saltos altos fininhos. Dentro da minha saia travada, aquela que nunca uso. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:53 AM - Comments:


Terça-feira, Outubro 17, 2006

O DocLisboa começa na sexta-feira. Domingo passa "Elogio ao 1/2", de Pedro Sena Nunes, sobre os índios que vieram de Montegordo para construírem na Meia-Praia as suas cabanas. Para quem os não conhecia ainda, ei-los:

"Os Índios da Meia Praia", de José Afonso

Aldeia da Meia Praia
Ali mesmo ao pé de Lagos
Vou fazer-te uma cantiga
Da melhor que sei e faço

De Montegordo vieram
Alguns por seu próprio pé
Um chegou de bicicleta
Outro foi de marcha à ré

Quando os teus olhos tropeçam
No voo de uma gaivota
Em vez de peixe vê peças de oiro
Caindo na lota

Quem aqui vier morar
Nao traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana

Tu trabalhas todo o ano
Na lota deixam-te nudo
Chupam-te até ao tutano
Levam-te o couro cabeludo

Quem dera que a gente tenha
De Agostinho a valentia
Para alimentar a sanha
De esganar a burguesia

Adeus disse a Montegordo
Nada o prende ao mal passado
Mas nada o prende ao presente
Se só ele é o enganado

Oito mil horas contadas
Laboraram a preceito
Até que veio o primeiro
Documento autenticado

Eram mulheres e criancas
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
quem diz o contrário é tolo

E se a má língua nao cessa
Eu daqui vivo não saia
Pois nada apaga a nobreza
Dos índios da Meia-Praia

Foi sempre tua figura
Tubarão de mil aparas
Deixas tudo à dependura
Quando na presa reparas

Das eleicões acabadas
Do resultado previsto
Saiu o que tendes visto
Muitas obras embargadas

Mas não por vontade própria
Porque a luta continua
Pois é dele a sua história
E o povo saiu à rua

Mandadores de alta finança
Fazem tudo andar para trás
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz

Eram mulheres e crianças
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
Que diz o contrário é tolo

E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hão-de fugir aos berros
Inda a banda vai na estrada




postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:35 PM - Comments:


Segunda-feira, Outubro 16, 2006

repuxou-me as saias para cima, antes que tivesse tempo de poisar os sacos no chão. virei-me para ele, como quem barafusta e de cara séria, mas o homem encostou a boca à minha e nem tempo para falar tive. lembrei-me entre dentes de lhe dizer para não pisar os ovos. ao menos que não me estragasse o tapete. enquanto ele se encostava passou-me pela cabeça que a fruta era mais cara na frutaria do que no minipreço. mas quando lá fui já estava toda escolhida. ele continuava e eu vi sobre a mesa do telefone a conta do gás para pagar. logo que ele acabasse tinha de correr ao correio, senão ainda me cortavam o gás. e então é que ia ser. perguntei-lhe, então? e ele respondeu que eu era como o milho. lembrou-me logo a receita de cachupa que me esqueci de apontar. era a vida.

alzira

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:28 PM - Comments:




Há um momento em que João Paulo Santos deita o corpo a dois palmos do mastro. Homem e mastro erguem-se perpendiculares ao chão, o primeiro lá em cima, sem apoio para os pés. Há um sentimento de equívoco. Diante de impossíveis é mais seguro esfregar os olhos. E voltar a abri-los.
João Paulo Santos continua agarrado ao mastro com as duas mãos, os braços estirados. O corpo dele parece uma bandeira desfraldada ao vento. Depois corre para baixo como se estivesse destinado a espalmar-se na terra.
No centro do palco está um homem e um mastro. Do lado direito de quem vê está outro homem e vários instrumentos musicais, capazes de prolongar o som mesmo quando o sopro e o toque humanos se extinguem. Também o corpo do homem no mastro se multiplica. Brinca com as réplicas, projectadas no ecrã, sobrepostas ao original.
Os homens são como crianças que brincassem com o que têm à mão. IR
(João Paulo Santos e Guillaume Dutrieux / O último momento, no sábado passado, na Culturgest)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:19 PM - Comments:


Sábado, Outubro 14, 2006

no outro dia ele levantou-se coberto de uma luz que brilhara de noite. era uma luz de ponta de cigarro, de nicotina, alcatrão e excipientes, como se lê embalagem. a pele dele poderia exalar esse cheiro, se ao menos ele se pudesse cheirar como se podia ver ao espelho. o espelho dizia-o perdido, cansado, o olhar a esconder-se do seu olhar outrora límpido e cheio de desejo. ao espelho preparara-se para ir trabalhar e ao encontrar os colegas, a que obrigatoriamente cumprimentou, sentiu como era exigente o contacto com os outros que nada sabiam, que nada entendiam, que não estiveram lá nessa noite. secretamente protegeu-se contra a desilusão. fez o seu trabalho com suor e esforço, como convém aos pecadores. tentou endireitar-se durante o dia, voltando-se para a luz de um dia, que nada lhe prometia. chegou ao final da tarde como previra e ainda com aparência humana despediu-se dos colegas como sempre. voltou a casa e tudo lhe parecia igual. a estupidez das coisas imutáveis e concretas que não sofrem com os outros, que não se deixam magoar. olhou intensamente para a sua mesa de trabalho, sobre a qual repousavam os papéis da véspera. sentou-se e procurou sentir o conforto de outrora. olhou para eles, tocou-lhes mas era só ela e as suas palavras que lhe soavam aos ouvidos: isto é só uma brincadeira.


alberto

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:09 AM - Comments:


Sexta-feira, Outubro 13, 2006

Tenho-me portado bem. Não discuto. Não discordo. Deixo-te falar. Deixo que te ouças enquanto falas. Tento sentir-me delicada perto de ti porque sei que me queres delicada. Não frágil. Nunca em desequilíbrio. Nunca instável. Dou um jeito às flores na jarra. Reparo que reparas no gesto. Inclino-me para as flores. Mergulho lá o nariz. Eu, que não cheiro como outros não vêem e tu não sentes, sorvo o ar das corolas. Depois sento-me perto de ti. Mantenho as costas direitas e cruzo as pernas. Enrolo o cabelo atrás da orelha. É um gesto delicado, este de enrolar o cabelo atrás da orelha, não te parece? Pena que hoje não tenha posto as perolazinhas. Podia fazer girar uma delas no buraquinho do lóbulo. Estamos os dois sentados no sofá. Fico à espera. Não consigo desfazer o sorriso que sinto na cara. Esforço-me por relaxar os músculos. Não sou capaz. Olho para ti. Tens na cara um sorriso parecido com aquele que imagino em mim. Postiço. Levanto-me (sem delicadeza, reconheço). O meu corpo é feito de ângulos e arestas. Desculpa. Falhei outra vez. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:09 PM - Comments:




Retrato de mulher, El greco, 1595


miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:17 PM - Comments:


Terça-feira, Outubro 10, 2006

I see the boys of summer



"I see the boys of summer"

I see the boys of summer in their ruin
Lay the gold tithings barren,
Setting no store by harvest, freeze the soils;
There in their heat the winter floods
Of frozen loves they fetch their girls,
And drown the cargoed apples in their tides




Dylan Thomas in " Collected poems", 1934

miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:24 PM - Comments:


Domingo, Outubro 08, 2006

"Here she is mending her dress; mending her dress as usual, he thought; here she's been sitting all the time I've been in India; mending her dress; playing about; going to parties; running to the House and back and all that, he thought, growing more and more irritated, more and more agitated, for there's nothing in the world so bad for some women as marriage, he thought; and politics; and having a Conservative husband, like the admirable Richard."

Virginia Woolf in "Mrs. Dalloway"

miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:31 AM - Comments:


naquele dia cresceu-lhe a certeza das coisas que iriam suceder-lhe. todas as possibilidades do futuro começaram a desenhar-se como letras invisíveis, que se descobrem num papel em chamas. o fundo dos seus sonhos, essa matéria entre a água e o solo movediço, começava lentamente a ganhar firmeza, a lançar âncora, a adquirir espessura e cheiro. nada lhe parecia tão concreto como essa intuição com corpo, essa respiração que se sobrepunha à sua e se deitava sobre ele, como o céu sobre a terra. os próximos dias poderiam, ou não, ser a plenitude. ela saberia estar presente, com as suas pernas longas e finas, saberia encontrá-lo. era tão certo como um sonho, como a água no copo de vidro branco grosseiro sobre a mesa. sentia repulsa em falar com ela sobre os detalhes. parecia-lhe desnecessário repetir hábitos, pedir factura no restaurante, deixá-la passar na sua frente pela porta giratória, vendo-a ao longe deformada pelo vidro. era uma passagem obrigatória pelos seus locais cobertos de tristeza. ela era a sua sentinela. onde ela estava brilhava o metal da baioneta. ela poderia matá-lo, se quisesse.

alberto

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:04 AM - Comments:


Quarta-feira, Outubro 04, 2006




Velázquez, "Rapariga", 1618


miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:24 PM - Comments:


ontem sonhei com ela, sobre ela e depois dela. havia nela uma sentida urgência em me ter e eu, entre sonhos, concordei. poderíamos encontrarmo-nos um dia, atrevi-me eu, no sonho, a dizer-lhe. poderia ser como antigamente, sem medo do que aconteceria depois. como se nunca tivesse acontecido a partida e sem qualquer tipo de dor. um encontro com anestesia, sugeri ainda. nessa tarde depois do sonho, muito depois, quando já não sentia nada, nem dor nem prazer, liguei-lhe. ninguém respondeu. então voltei a dizer-lhe com o mesmo tom de desafio, vamos partir os dois para o mar. ela seguiu-me com aquele ar decidido, que ela enfia quando entra nos meus sonhos. fomos então de carro para a praia e estava um mar cinzento com ondas em elipse, que nunca rebentavam. eu estava com ela no barco, que era nosso há muito tempo, quando alguém me disse: vai haver uma tempestade. como se eu não soubesse. eu respondi a esse outro homem que me avisou: agora não posso sair, não tenho tempo.voltei-me para ela, mas ela não olhou para mim. estava a ler e todo o seu corpo abanava com a ondulação.

alberto

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:04 PM - Comments:


Domingo, Outubro 01, 2006

"Formamos grupos porque a obediência permite realizar tudo aquilo que há muito não somos capazes de fazer por iniciativa própria."
Robert Musil, "O homem sem qualidades"

miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:29 PM - Comments:


queria dizer-lhe uma coisa concreta, sem rodeios que a confundissem. mas as coisas não eram concretas, nem se concretizavam, por um mero exercício de vontade. o próprio aspecto do mundo, as ruas, as árvores, os bancos nas praças, os automóveis de várias cores, não eram de facto bem sólidos, à maneira do que eram ,digamos, as suas impressões desses mesmos objectos. cada um deles vestia uma roupa algo bizarra, que parecia ter sido costurada só para si. daí a sensação de viver num mundo que não era bem igual ao dos outros. um ar que não teria a mesma composição, nem o mesmo brilho do que o ar que outros respiravam. daí não ter a certeza de nada. como podia então falar-lhe de acções concretas. como podia falar-lhe de estarem juntos. alguma coisa na maneira dela se sentar sobre as cadeiras e de sobrar nelas, lhe dizia que talvez não vivessem no mesmo mundo.

alberto

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:37 PM - Comments:



arquivo