Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Sábado, Janeiro 07, 2006



Jesus Gonna Be Here
(Tom Waits)

...
I got to keep my eyes open
So I can see my Lord
I'm gonna watch the horizon
For a brand new Ford

I can hear him rolling on down the lane
I said Hollywood be thy name
Jesus gonna be
Gonna be here soon

Well I've been faithful
And I've been so good
Except for drinking
But he new that I would
I'm gonna leave this place better
Than the way I found it was
And Jesus gonna be here
Be here soon

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"Joachim caminhava a seu lado a seu lado, com a cabeça baixa. Tinha os olhos fixos no solo, como se contemplasse a terra. Era muito esquisito: ali andava ele, correcto e asseado, saudando os transeuntes com a sua maneira cavalheiresca, cuidava do exterior e da sua bienséance como sempre - e pertencia à terra. Meu Deus, todos nós lhe pertenceremos mais cedo ou mais tarde; mais amargo e incompreensível para um Hans Castorp que sabe e caminha ao lado dele, do que para o próprio homem da terra, cujo saber reticente e discreto é, em suma, de uma natureza muito académica, e dele não tem, no fundo, mais do que uma realidade muito enfraquecida e parece dizer-lhe menos respeito a ele do que aos outros; com efeito, a nossa morte é um assunto para os sobreviventes, mais do que para nós mesmos. Quer a conheçamos, quer não, conserva pleno valor para a alma aquela sentença de um sábio espirituoso que disse: enquanto existimos não existe morte, e quando ela existe nós já deixámos de existir; por conseguinte, entre nós e a morte não há nenhuma relação real; é uma coisa que para nós não tem interesse de modo algum e que, quando muito, diz respeito ao Mundo e à Natureza." Thomas Mann, "A Montanha Mágica"

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Sexta-feira, Janeiro 06, 2006

Eternidade

Quero encontrar a eternidade
Por aí nas esquinas
das paredes maciças
E ando para cima
E depois para baixo
A olhar para as fachadas
dos prédios pombalinos
A darem o braço entre eles
Procuro-a nas juntas
Nas fissuras abertas
das pedras calcárias
E ela não me aparece
Não quero partir
E deixar para aqui
tanta coisa
Que não vivi
Quero sentir
e amar
Para sempre
E não quero encontrar
A hora,
o minuto,
o segundo
O instante
do meu último sopro
Quero respirar
Sempre
Quero sentir na pele
Os arrepios
que me fazem doer o coração
Quero viver
com esta dor de alma
E amá-la
È minha
e não de mais ninguém
A esperança vive comigo
A esperança
de não ter medo
De não pensar
E viver
Viver muito
Viver bem
Amar.

cristina r.

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"Amo as horas sombrias do meu ser
em que os meus sentidos se aprofundam;
nelas encontrei,como em velhas cartas,
o meu dia a dia já vivido,
ultrapassado e vasto como numa lenda.

Elas me ensinam que possuo espaço
p'ra uma intemporal Segunda vida.
E por vezes sou como a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
cumpre o sonho que a criança de outrora
(abraçada por suas cálidas raízes)
perdeu em tristezas e canções."

Rainer Maria Rilke, (1875-1926)

miss portugal

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Quinta-feira, Janeiro 05, 2006

A Madona da Serpente

Está na Villa Borghese entre outros do mesmo autor e outros dos quais não tenho memória.
Quando entrei não a vi logo.
Primeiro deparo-me com o Baco doente. Pequeno com um vidro à frente, não conseguia ver bem. Bastante acima do meu metro e meio.
Os reflexos do vidro começaram a fazer-me sentir uma maçada.
Movimento-me dentro da sala e descubro é a sala dos Caravaggios.
Quando viro as costas para Baco, depois de várias tentativas para sentir a sua doença, dou de caras com a Madona da Serpente.
A última da parede à direita quando se entra na sala, encostada à aresta. Grande, alta a tela. Maior do que imaginei.
Dirijo-me a ela. Acima do meu olhar, mas consigo-a ver muito bem. A virgem olha para baixo e é escura. Toda a pintura é escura, castanha e quente. Ferve de amor e de desejo.
Senti um movimento na espinha,
senti a barriga a contrair,
senti o coração a dilatar,
senti a pele a arrepiar.
E olho, olho até ficar cansada. Ela também olha para mim, mas não me vê. Pressente-me.
Sinto as lágrimas. Sinto-as nos olhos. A aquecerem-me.
Nada é como se espera, como se idealiza. É preciso ver. Viajar no tempo e imaginar que a mãe, a virgem e cristo podiam ter aquelas expressões, tão próximas de nós.
Pensei nas aulas, na quantidade de vezes que mostrei esta imagem. Imagem encaixilhada.
Agora ali à minha frente, tão grande e forte. Sentem-se as pregas na cara de Santa Ana, escuras com um leve tom de amarelo.
O colo desnudado da Virgem, branco e roliço devido à sua postura subtilmente inclinada. Um colo apetitoso.
A luz que lhe toca o peito deixa sobressair o seu vestido escarlate. Como se lhe percorresse o corpo e a tornasse a mulher mais bela do mundo.
Foi um sentir diferente de todos os sentires. Ali fiquei a olhar. Depois fui-me para outras salas.
Antes de sair do espaço que albergava a colecção, voltei lá para mais uma vez poder olhá-la, uma vez mais. Não sabia que fazer. Se ficar mais tempo a admirá-la se de relance levá-la ma memória. Depois decidi-me, era olhá-la de relance que queria, para ser a última imagem que traria na memória, imagem essa que se esbateria com o verde dos jardins e a luz amarela do entardecer.

cristina r.

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"Hans Castorp, rubro e exausto pelo frio e pela multiplicidade de assuntos, além disso inseguro quanto à integibilidade ou ao atrevimento febril da sua própria linguagem, confessou com os lábios quase inertes, que sempre visionara a morte trajando uma golilha engomada à espanhola, ou pelo menos um uniforme um tanto menos solene, que incluía um colarinho alto, ao passo que a Vida usava um simples colarinho moderno... Mas ele mesmo, assustando-se diante dos devaneios ébrios e da inconveniência das suas palavras, apressou-se a afirmar que não era precisamente isso o que queria dizer. Queria, no entanto, saber se não existiam pessoas, certas criaturas humanas, que era impossível imaginar como mortas, justamente por serem demasiado vulgares. Isso significava que pareciam a tal ponto feitas para a vida que davam impressão de ser incapazes de morrer e indignas de receber a consagração da morte." Thomas Mann, "Montanha Mágica"IR

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Segunda-feira, Janeiro 02, 2006

ora bolas, para o Möet et Chandon, que é amargoso. eu apetecia-me era um Asti bem docinho para animar. basta de festinhas na cara. o que eu quero mesmo é rita lee: que tal nós dois numa banheira de espumaaaaa......el cuerpo caliente sem culpa nenhumaaaaa
hic
alzira

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Domingo, Janeiro 01, 2006

Eu cá não sou supersticioso, mas nunca passo o Ano Novo com os bolsos vazios, como doze uvas, à meia-noite, para ter dinheiro em cada um dos doze meses do ano, guardo em lugar seguro (debaixo do colchão) a rolha da garrafa de campanhe, que deve ter feito muito barulho ao soltar-se do gargalo, pois estrondo chama dinheiro, defumo a casa na véspera do novo ano, para tirar o azar do velho e chamar dinheiro, no primeiro dia do ano visto-me todo de amarelo, porque amarelo é a cor dele e chama-o, ao dinheiro, no Dia de Reis meto na carteira três grãos de romã, para, durante o ano, ter dinheiro. Quanto ao resto, não me ralo nem um pouco se tenho de passar debaixo de um escadote ou encarar um gato preto. Tretas! Joaquim

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"Bernardo de Clairvaux, por exemplo, ensinava uma hierarquia da perfeição muito diferente daquela com que sonha o senhor Lodovico. Querem conhecê-la? A categoria mais baixa achava-se no 'moinho'; a segunda no 'campo' e a terceira, a mais louvável, - tape os ouvidos, sr. Settembrini! - no 'leito de repouso'. O moinho é o símbolo da vida terrena, e parece-me bem escolhido como tal. O campo designa a alma do homem leigo, que é amanhada pelo sacerdote e pelo director espiritual. Essa categoria já é mais digna. No leito, porém... [...]
Ah, não senhor! Eu sou europeu, sou do Ocidente. A sua hierarquia é puramente oriental. O Oriente abomina toda a espécie de actividade. Lao-Tsé ensina que o ócio é mais proveitoso do que qualquer outra coisa existente entre o Céu e a Terra. Se todos os homens cessassem de agir, haveria na Terra a mais perfeita calma e serenidade. É essa a união de que o senhor fala.
- Não diga isso! E a mística ocidental? E o quietismo que conta com Fénelon entre os seus adeptos e ensina que toda a acção representa um erro. Já que a veleidade de ser activo ofende a Deus, o único que deve agir? Cito as Proposições de Molinos. Tenho a impressão de que a possibilidade espiritual de encontrar a salvação no repouso se acha difundida universalmente entre os homens.
Hans Castrop interveio nesse ponto. Com a coragem que confere a simplicidade, intrometeu-se na discussão, dizendo, enquanto os seus olhos fitavam o vazio:
- Contemplação, isolamento. Essas coisas têm o seu valor. Tudo isso soa razoável. Nós, aqui em cima, vivemos num isolamento bastante intenso, indiscutivelmente. A cinco mil pés de altura, achamo-nos deitados nos nossos cadeirões extraordinariamente cómodos; os nossos olhares abaixam-se sobre o Mundo e as criaturas, e então ocorre-nos toda a espécie de ideias. A dizer a verdade e pensando bem, a cama, ou melhor o cadeirão fez-me progredir imenso nos últimos dez meses e proporcionou-me mais ideias do que o moinho, na planície, no decurso de todos os anos passados. Isso é inegável."
"Montanha Mágica", Thomas Mann

Gosto de pensar que o sr. Settembrini, com a sua repulsa por tudo o que possa diminuir o humano, é cá dos meus, mas devo reconhecer que a argumentação do jesuíta enfermo sr. Naphta em favor do leito me soa excelente. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:51 PM - Comments:



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