Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Sábado, Maio 07, 2005


A. Kiarostami

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:59 PM - Comments:


Lá em baixo

Lá em baixo ainda anda gente
apesar de ser tão noite
há quem tema a madrugada
e no escuro se afoite
há quem durma tão cansado
nem um beijo os estremece
de manhã acordarão
para o que não lhes apetece
e há quem imite os lobos
embora imitando gente
há quem lute e ao lutar
veja o mundo a andar para a frente
E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro
Lá em baixo ainda anda gente
apesar de ser tão tarde
há quem cresça no escuro
e do dia se resguarde
há quem corra sem ter braços
para os braços que os aceitam
e seus braços juntos crescem
e entrelaçados se deitam
e a manhã traz outros braços
também juntos de outra forma
de quem luta e ao lutar
a si mesmo se transforma
Lá em baixo ainda há quem passe
e um sonho que anda à solta
vem bater à minha porta
diz a senha da revolta
vou plantá-lo e pô-lo ao sol
até que se recomponha
é um sonho que acordado
vale bem quem ele sonha
lá em baixo, até já disse
que é que tem a ver comigo
e no entanto sobressalto
se me batem ao postigo
Lá em baixo ainda anda gente
e uma cara conhecida
vai abrindo no escuro
uma luz como uma ferida
como a luz que corre atrás
da corrida de um cometa
e vejo vales e valados
no sopé de uma valeta
lá em baixo ainda anda gente
e uma cara conhecida
vai ateando noite fora
um incêndio na avenida"
És tu Maria, eu sei, já sei, és tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro
Sérgio Godinho


postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:42 PM - Comments:


"Dança para mim.
Estão juntos há cerca de três meses e, por isso, uma noite ele diz, no quarto, 'Dança para mim, anda', e põe a tocar um CD, o arranjo de Artie Shaw de "The Man I Love", com Roy Eldrige no trompete. Dança para mim, diz, soltando os braços que a apertam com força e apontando para o chão aos pés da cama. E, sem se fazer rogada, ela levanta-se de onde esteve a inalar aquele cheiro, o cheiro de Coleman nu (...)
- ... Não estás a fechar as portas. Ainda conservas das fantasias do amor. Sabes uma coisa? Preciso realmente de um tipo mais velho do que tu. Que tenha perdido todas essas tretas de merda do amor. És novo de mais para mim, Coleman. Olha para ti. Não passas de um rapazinho apaixonado pela professora de piano. Estás a prender-te a mim, Coleman, e és demasiado novo para uma mulher do meu género. Eu preciso de um homem muito mais velho. Creio que preciso de um homem com 100 anos, pelo menos. Não tens nenhum amigo de cadeira de rodas que possas apresentar-me? As cadeiras de rodas agradam-me: posso dançar e empurrar. Talvez tenhas um irmão mais velho. Repara em ti, Coleman. A olhar-me com esses olhos de colegial. Por favor, telefona ao teu amigo mais velho, peço-te. Eu continuo a dançar, basta que lhe ligues. Quero falar com ele (...)
- Queres saber como me sinto? - perguntou a Coleman.
- Quero.
- Sinto-me muito bem.
- Nesse caso, quem pode sair vivo disto?
- Estou contigo a esse respeito. Tens razão, Coleman. Isto vai conduzir a uma tragédia. Nisto aos 71 anos? Excitado por isto aos 71 anos? Acho melhor voltarmos ao trivial.
- Continua a dançar - diz ele, e prime um botão do Sony da mesa-de-cabeceira e a faixa "The Man I Love" arranca de novo.
- Não. Não. Suplico-te. Preciso de pensar na minha carreira de mulher da limpeza.
...
- Eu vejo-te, Coleman. Eu vejo-te. Queres saber o que vejo?
- Com certeza.
- Queres saber se vejo um velho, não queres? Tens medo de que veja um velho e fuja. Tens medo de me perder se eu vir todas as diferenças entre ti e um homem jovem, se vir todas as coisas que se tornaram frouxas e as que desapareceram. Por seres demasiado velho. Mas sabes o que eu vejo?
- O que vês?
- Vejo um miúdo. Vejo-te ficar apaixonado como um miúdo. E não deves, não deves fazer isso. Queres saber o que mais vejo?
- Sim, agora vejo... agora vejo um velho. Vejo um velho a morrer.
- Conta-me.
- Perdeste tudo.
- Vês isso?
- Vejo. Tudo, menos eu a dançar. Queres saber o que eu vejo?
- O que vês?
- Não merecias essa mão, Coleman. É isso que eu vejo. Vejo que estás furioso. E é assim que vais acabar. Como um velho furioso. E não devia ser assim. É isso que eu vejo: a tua fúria. vejo a cólera e a tua vergonha. Sei que, como velho, compreendes o que o tempo é. Só compreendemos isso perto do fim. Mas agora tu compreendes. E é assustador. Porque não podes recomeçar..."
Philip Roth, A Mancha Humana
IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:35 PM - Comments:


Sexta-feira, Maio 06, 2005

Os Cohen

Tenho ascendência judia dos dois costados. De ambos o mesmo nome. Cohen. Tenho o talmude nos genes. Mas ainda não o decifrei. Alguns vieram de Tânger. O que ajuda a perceber a origem da cor da minha tez. David, o mais antigo nas fotografias, ainda pequeno fora abandonado por seus pais em Marselha. Ilegítimo de pai inglês e de morgadinha do norte. Já acamado, quisera o pai conhecê-lo. Mas ao secretário disse Não. Viúvo, David deixa-se morrer sentado numa cadeira seis meses a repetir "Quero ir ter contigo" Maria Júlia. Pedro, filho de David, casou com uma senhora alemã de quem teve uma filha. Ambas morreram antes que a morte as quisesse levar. Pedro sobreviveu a hitler mas não à sífilis. Era um aventureiro. Irmã de Pedro, Maria Augusta, para os netos mãemãe, deu à luz o meu avô paterno, Álvaro, a quem o coração abandona na Brasileira ao Chiado. Não os conheci. Não me levaram pela mão à Brasileira e muito menos à Sinagoga. A mim... resta-me ler a Rua da Judiaria.

mp (um dia depois do Dia de Lembrança dos Mártires e Heróis do Holocausto)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:34 AM - Comments:


Quinta-feira, Maio 05, 2005



anda cá, disse-me, e eu fui com ele. descemos a rua. prefiro não dizer o nome da rua. tinha uma grande bossa. como um dormedário. do cimo dessa bossa viam-se os cabos dos eléctricos contra um rio azul clarinho. e via-se um homem de costas que apontava para o rio. o homem estava em cima de um bloco de cimento.
é um militar que conduz as tropas ao naufrágio, pensei, mas não lhe disse nada. raramente digo alguma coisa. não gosto de perder palavras. preciso delas para mim.
ele pegou-me na mão. apertou-ma, como se eu tivesse intenção de libertar-me. atravessamos a correr uma estrada. o motorista do autocarro carregou na buzina e gritou-nos pela janela: parece que são malucos. não sabem andar na cidade. voltem para o júlio de matos. foi o que ele disse. não sei quem é o júlio de matos, nem se gostaria que eu voltasse. ele ainda apertava a minha mão. largou-a quando disse: olha e eu olhei para as tábuas equilibradas em dois vês de metal, um em cada ponta. em cima delas havia flores. não rosas nem cravos nem malmequeres. outras. antúrios, disse ele, esticando o queixo. pensei em candeeiros com lâmpadas desmesuradas. o abat jour consumido. o que ele dizia era mentira. os antúrios são amarelos. frágeis. chapelinhos de meninas. não brilham. desmaiam. quase não existem e o que quase não existe não é encarnado. olhei para ele. foi a última vez.
emília

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:21 PM - Comments:


Quarta-feira, Maio 04, 2005

"A FORÇA EJACULADORA DO OLHO"
Robert Bresson





mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:10 PM - Comments:


You Are Welcome To Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny
IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:15 AM - Comments:


Terça-feira, Maio 03, 2005

disse-lhes para não me chamarem assim. que me metia impressão, que não era eu. eles insistiam em dizer-me a doutora desculpe, há-de desculpar, por aqui doutora, a doutora quer um cafézinho. é assim que ficamos presos a um tempo da nossa vida, que nem foi o melhor ou o mais importante das nossas vidas. como se só importasse o que fomos, nesses anos de incerteza e cabulice, ou de brio e boas notas. ficamos presos a momentos da nossa vida, como insectos em vitrines de museus, com pioneses nas asas e um nome em latim por baixo.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:31 PM - Comments:



arquivo