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Palavras da Tribo
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As primeiras, as segundas e todas as palavras Quinta-feira, Setembro 30, 2004
"Into My Arms", Nick Cave and The Bad Seeds I don't believe in an interventionist God But I know, darling, that you do But if I did I would kneel down and ask Him Not to intervene when it came to you Not to touch a hair on your head To leave you as you are And if He felt He had to direct you Then direct you into my arms Into my arms, O Lord Into my arms, O Lord Into my arms, O Lord Into my arms And I don't believe in the existence of angels But looking at you I wonder if that's true But if I did I would summon them together And ask them to watch over you To each burn a candle for you To make bright and clear your path And to walk, like Christ, in grace and love And guide you into my arms Into my arms, O Lord Into my arms, O Lord Into my arms, O Lord Into my arms And I believe in Love And I know that you do too And I believe in some kind of path That we can walk down, me and you So keep your candlew burning And make her journey bright and pure That she will keep returning Always and evermore Into my arms, O Lord Into my arms, O Lord Into my arms, O Lord Into my arms Canções de amor como esta dão-me cabo da vida. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:54 AM - Comments: Quarta-feira, Setembro 29, 2004 vida doméstica I anda devagarinho, meu anjo doce, dizia ela para o gato. anda cá para o colo da dona, continuava. ele saltou confiante. ela levou-o para a cozinha coçando-lhe muito ao de leve a nuca. pô-lo em cima da bancada entre a loiça suja. e agora, o que vamos fazer? dizia-lhe ela, sem querer saber a resposta. pegou na loiça suja, abriu com um pé e, depois, com o joelho redondo a porta do armário de baixo. dois caixotes se perfilavam em postura ecológica. ora, pensou ela, loiça suja de ontem para um, e trás. loiça suja de anteontem para o outro, crash. já está, sorriu, abraçou-se ao gato e beijou-lhe ternamente a orelha esquerda. já arrumámos a cozinha. vamos ver o telejornal. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:51 PM - Comments: Terça-feira, Setembro 28, 2004
há sempre coisas para fazer. ouvir ou tocar música, à la richard Jeffcoat. estar sentada a ouvir os outros, num vestido às flores. habitar espaços usados, fazer limpeza no chão de outras casas. há sempre uma criança cansada no chão. ou se não há, está o pensamento das mães nela. esta é a nossa tribo, a pensar no que fazer. inspirado em Lucien Freud miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:09 PM - Comments: ele era um homem como outro qualquer. tinha um sobretudo usado, colete e camisa sem gravata. óculos redondos de tartaruga, ou assim se convencionou chamar aos óculos castanhos de pele manchada e de plástico grosso. estava de pé junto à janela, mas não a olhava. olhava para mim, descontraído. passei os olhos por ele, de cima a baixo. parei numa das mãos. tinha a mão fechada em avante, tensa, hostil. não me apresentei. saí porta fora e deixei a porta aberta. impossível descrever " interior in paddington" de lucien freud. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:51 AM - Comments: ... e de repente toda aquela vontade voltara, de ter alguém a viver dentro dela. é uma vontade física, é todo o nosso corpo a pedir, como se a palavra "mãe" estivesse impressa em cada célula, em cada particula de si. mp (esta imagem extraordinária chegou-me via e-mail) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:40 AM - Comments: Segunda-feira, Setembro 27, 2004 o que é mais triste:a pessoa que nunca ri ou a que deixou de rir? e o mais inaceitável: perder a alegria ou a tristeza? todos os grandes ventos provocam grandes mudanças. e nós ficamos lentamente à espera do nosso lugar nessa mudança. para a mp ib
postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:55 PM - Comments: Domingo, Setembro 26, 2004
às vezes sentia-se como uma cabeça com milhões de linhas dentro. linhas entrelaçadas das quais não se vislumbrava nem o fim nem o começo. não admirava que não conseguisse decidir nada. e nessas linhas enroladinhas e infinitas despontavam formas e cores. ameias de minúsculos castelos, rebordos de um coração vermelho.era coisa estranha aquela cabeça toda desenhada. inspirado em "cérebros escritos" de alexandra mesquita miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:29 PM - Comments: A mulher entrou na carruagem e, sem pedir licença, começou a arrumar malas de aspecto coçado e sacos de plástico na grade sobre a cabeça dele. Usava óculos de lentes grossas. Atrás delas barricavam-se dois pontinhos muito azuis. Intuiu neles a capacidade de crescerem desmedidamente se ela os deixasse à solta. As orelhas, afiadas na extremidade, atravessavam-lhe o cabelo oleoso, colado ao crânio. O medo fê-lo esboçar um sorriso. O compartimento tinha sido invadido por bagagens. Havia também dois objectos não emalados: um triciclo e um "passe-vite" metálico. Ele ficara apenas com lugar para os sapatos, a que um engraxador da estação dera brilho. A mulher, de idade indefinida, pôs-se de cócoras e saltou, com os dois pés ao mesmo tempo, para cima do banco em frente. Tratava de acomodar os sacos sobre a outra grade. Empurrava uns contra os outros. Espalmava-os com violência. Quando deu por terminado o trabalho, pôs as mãos nas coxas e, lançando o tronco ligeiramente para a frente, assobiou. Entraram três rapazes altos, que a enlaçaram pela cintura, brindando-a com marradinhas no rosto. Ronronavam. O passageiro começava a sentir-se desconfortável quando as luzes se apagaram. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:17 PM - Comments:
este é o baloiço certinho, antes do oops. ambos do Rui Moreira. ib postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:34 AM - Comments: Sábado, Setembro 25, 2004
olhava-me de manhã ao espelho. sentia-me estranhamente feminino com o cetim vermelho a enlaçar-me a cintura. as unhas um bocado compridas que esquecera de tirar depois do espectáculo. tinham-me aplaudido e subi à cena cinco vezes, tantas quantas sonhei que te beijava. joão postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:36 AM - Comments:
oooops. ib postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:40 AM - Comments: Sexta-feira, Setembro 24, 2004
Frau in der Morgensonne Caspar David Friedrich, 1810 Aqueles, como eu, inimigos das manhãs, reconciliam-se assim com elas. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:11 AM - Comments: na casa de banho havia um espelho enorme. se nos levantássemos da sanita e torcêssemos o tronco para a esquerda iríamos ser surpreendidos com a nossa imagem, grande, descomposta (pois, entretanto não tivéramos tempo de baixar a saia). e não conseguíamos nunca deixar de olhar, de medir, de entender a beleza ou a desproporção do nosso corpo.a sorte era que ninguém nunca iria olhar o nosso corpo com tamanha impiedade. disso tinha ela a certeza. as roupas existiam, graças a deus pelas roupas. no verão iria à praia e aí seria pior. teria de ficar doente. arranjar qualquer maleita. ou trabalhar durante as férias. teria então uma bela e meritória justificação e arranjaria dinheiro para os comprimidos. o cabelo curto, muito curto revela as feições muito finas.teria de engrossar o pescoço, tornar os maxilares mais salientes, perder o jeito arredondado. gostava das mãos. essas, sim, fortes e quadradas de unhas espessas, que serviam para abrir as latas de coca cola com um emocionate clic másculo. ontem tinha ganho mais uma vez aos matraquilhos. entre a vozearia, a sua voz em mudança era a mais grave. joão postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:59 AM - Comments: Quinta-feira, Setembro 23, 2004 depois dos "irmãos karamazov" o que ler? o problema das obras excepcionais é que nos deixam sem tolerância para textos superficiais. Comecei a "bela do senhor" de Albert Cohen.um don juan judeu. belo. empolgante.pertubador. ib postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:57 AM - Comments: Quarta-feira, Setembro 22, 2004 Na Tapada Nacional de Mafra há árvores reduzidas à raiz pelo fogo a preparar-se, lentamente, para uma segunda vida. Outras, calcinadas, apresentam afloramentos verdes, absolutamente improváveis. Ali surgiu também uma planta misteriosa. Não sabem os engenheiros florestais e os biólgos como chamar-lhe. Imaginam que a semente esteve à espera do fogo para levantar-se. Neste mundo vegetal esconde-se poesia, não vos parece? IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:53 PM - Comments: Terça-feira, Setembro 21, 2004 "I was born twice: first, as a baby girl, on a remarkably smogless Detroit day in January of 1960; and then again, as a teenage boy, in an emergency room near Petoskey, Michigan, in August of 1974. Specialized readers may have come across me in Dr. Peter Luce's study, "Gender identity in 5-alpha-reductase Pseudohermaphrodites, published in the Journal of Pediatric Endocrinology in 1975. Or maybe you've seen my photograph in chapter sixteen of the now sadly outdated Genetics and Heredity. That's me on page 578, standing naked beside a height chart with a black box covering my eyes." "Middlesex" de Jeffrey Eugenides miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:35 PM - Comments: olhava para as suas pernas. os pêlos cresciam diariamente. um comprimido por dia bastava para fazer efeito. na aula de ballet o collant rosa deixava ver à transparência uma mancha cinzenta escura. e os pêlos fortes cortavam a lycra e espreitavam triunfantes para a fila de meninas estreitadas junto à barra. plier, arabesque. o mundo artificioso do bailado deixava-a indiferente. os músculos esticavam e rangiam ao estiramento. grand-jeté-en-arrière. era saltar para trás de pernas alongadas e braços em arquinho. como nos santos populares. as meninas de corpos diferentes tentavam ser harmoniosas. ela não.queria ser forte e mandar. bater nos outros, jogar e atirar mais alto e mais longe do que aquelas miúdas de vozes finas. sem relevância, fracas.os corpos dos rapazes exalavam poder. eram ruidosos e desejavam coisas. não se submetiam como as raparigas que nem os cabelos deixavam à solta. era tudo preso, escondido, acomodado.as saias justas, as fitas e ganchos a arrepanharem os cabelos, as pulseiras e fios que faziam comichão e se tinham de mudar vezes sem fim. e tudo isto era para dar prazer. prazer! fazer coisas para os outros olharem, pôr coisas coloridas em cima e chatear as que não têm coisas iguais. não compreendia. um dia seria diferente. joão postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:44 PM - Comments: saudades de uma linguagem forte e bela. palavras de indignação para serem gritadas e não caladas pela conveniência. palavras de palco. Goneril- "By day and night, he wrongs me; every hour He flashes into one gross crime or other, That sets us all at odds: I'll not endure it: His knights grow riotous, and himself upbraids us On every trifle. when he returns from hunting I will not speak with him; say I am sick: If you come slack of former services, You shall do well; the fault of it I'll answer." "King Lear", Shakespeare ib postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:01 AM - Comments: Domingo, Setembro 19, 2004 Sobre o silêncio "Assim dizendo, Penélope desceu do alto aposento. No coração muito hesitava se haveria de interrogar o marido amado à distância, ou se haveria de o beijar na cabeça e nas mãos. Depois de entrar e transpor a soleira de pedra, sentou-se defronte de Ulisses, à luz da lareira, junto à parede do lado oposto. Ele estava sentado junto à alta coluna; olhava para o chão, à espera de ver se lhe falaria a excelsa mulher quando lhe pusesse os olhos. Mas ela ficou sentada em silêncio, dominada pelo espanto. Umas vezes olhava para ele directamente, para o rosto; outras vezes não sabia se era ele, tais os farrapos que vestia." in Odisseia, canto XXIII, Homero IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:01 AM - Comments: Sábado, Setembro 18, 2004 Flectiu uma perna, esticou atrás a outra e pousou só as pontinhas dos dedos das mãos no chão, ali onde riscara, com giz branco, uma linha com pequenos zigues e pouco acentuados zagues. "Partida, lagarta, fugi...," disse baixinho e, ainda não acabara de pronunciar "...da", deitou a correr rampa abaixo. O Jorge não teve tempo, nem daquela nem das outras vezes, para pensar em questínculas acerca de palavras alheias entre si tratadas como se fossem sinónimos. Elas não existiam quando se preparava para lançar o corpo pela rampa a toda a velocidade. Parecia desafiar o vento, que corria para cima, mas os dois entendiam-se às mil maravilhas. O vento fazia-lhe cócegas na garganta. Entrava-lhe pelo corpo dentro. Elevava-o. Misturavam-se duas forças da natureza: a que era ele quando corria e a do ar a deslocar-se. Nada eram as palavras em face da volúpia da rampa, o mais divertido entre todos os brinquedos do Jorge, que não tinha, nem precisava de muitos. Invadiu-o a pena quando o declive terminou. Queria que fosse infinito. Mas sempre surgia aquele momento em que o corpo recuperava o peso. O peso duplicou, triplicou, quadriplicou quando o Jorge começou a subir a rampa, animado apenas pela perspectiva de voltar a descê-la. Já lá em cima chamou-o a mãe. "P´ra casa rapaz, senão é um cassério." Tal como o miúdo a ouvia, "cassério" era uma palavra única. Descobriu muito mais tarde, subitamente, que a mãe considerava a eventual desobediência dele um "caso sério". Mas nunca deixou de dizer "partida, lagarta, fugida" quando corria. Baixinho. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:52 PM - Comments: Sexta-feira, Setembro 17, 2004
Se o mundo não fosse assim como era????? No Teatro Taborda, lá prá Costa do Castelo, mais uma peça de José Maria Vieira Mendes, desta vez a partir de vários contos de Damon Runyon. Em palco, Miguel Borges, Américo Silva e Vítor Correia interpretam mais de três personagens. Todas as interpretações são excelentes, mas Américo Silva excede-os. Os papeis de Pinks e Jackie O´Heart assentam-lhe que nem uma luva. Brilhante! Não percam! Aqui fica uma pequena parte do diálogo entre Pinks (Américo Silva) e Johnny Brannigan (Miguel Borges), ambos "de férias" em Miami: "... Pinks: Não aguentava mais o inverno em Nova Yorque. Disse que se eu não a trouxesse para cá que se lhe apagavam os holofotes ali mesmo e insistiu e insistiu e eu acabei por acreditar. Johnny: E comé que coordenaste o bagulho pra fazer as 1300 milhas? Pinks: Não houve bagulho. Viemos a pé. Quer dizer, eu vim à sola e ela sentada, comigo a empurrar a cadeira. Sai mais barato. Johnny: Empurraste a cadeira 1300 milhas? Pinks, tu tás-me a folgar? Isso é pior do que ires daqui à Póvoa do Varzim a empurrar um amendoim com o nariz. Pinks: Onde é que é a Póvoa do Varzim? Johnny: Não interessa. Longe. Pinks: Mas foi fácil. A cadeira tem rodas, as rodas são redondas e além disso de borracha. E é sempre a descer. E depois Sua Majestade não pesa mais do que um balde de pipocas, pequenina e magrinha como ela está. Parece uma sombra, coitadinha. Levámos dezasseis dias. E até podia ter sido mais rápido só que à Rainha às vezes dava-lhe para xingar as boleias e largava-me a meio. Chamava-os à pedra, exigia comodidade no transporte. Ainda se pegou ao penso com uns quantos, daqueles a quem tanto faz rebentar-nos os miolos como olhar para nós. Mas a verdade é que eles se faziam pequenos e encolhiam as unhas e acredita que já há muito que não me sentia tão seguro na estrada. Johnny: Eu bem posso puxar pela terrina e fritar o coco a tentar compreender onde é que arranjas tanta tolerância, mas acho que nunca vou chegar a conclusão alguma. Andas na demanda de um lugar no céu ou isso é mesmo genuíno? Pinks: Genuíno? Genuíno? Eu... Eu... O meu amor é ó mais genuíno... eu... tu tás a duvidar?.... eu...! Aquela espinha linda... mulher linda... eu dava tudo ... O meu amor, Johnny Brannigan... Todos os dias eu... Johnny: Serena-te, Pinks. Pinks: Qual serena, tu não recolhes nada, tu não tás a ver bem, qual serena! O meu amor não tem proporção, porque não há medida, é infinito vezes mil, é ir daqui até Nova Yorque e voltar e ir outra vez e voltar outra vez e ir e voltar vidas inteiras sem parar, não pára, tá sempre a pinchar... Johnny: A pinchar? Pinks: ... Põe-se à frente de tudo, tira-me a fome quando não há nada para comer, conforta-me o sono, afaga-me o pêlo, abre-me os olhos... Johnny: Tó ruça, Pinks! Pinks: ... A Rainha pra mim é tudo, Johnny, tudo e mais tudo e mais tudo, Johnny!! Johnny: Com um discurso desses um tipo até se torna credível. Pinks: É assim, Johnny, é assim! (Mais calmo) Pois é. Pois é. É o amor." (in "T1 e Se o mundo não fosse assim", de José Maria Vieira Mendes, Livrinhos de Teatro) mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:23 AM - Comments: Quinta-feira, Setembro 16, 2004 descia a rua da misericórdia protegendo-se do sol com um chapéu à Jane Austen. Uma bela capeline preta de tecido lustroso, agarrando a nuca num enorme laço de pontas caídas. era japonesa e apressava-se numa vertigem de passinhos sincopados e sonoros. a sua figura era bela e estranha. o cabelo negro estava apanhado. um homem seguia-a de rosto caído. uma japonesa nunca está só. procurei uns versos que explicassem esta figura. encontrei-os. apanhei o cabelo em rabo de cavalo agora a minha solidão vê-se melhor vê-se tão bem como a minha face e a minha face é desassombrada as sombras não são minhas. adélia lopes miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:50 AM - Comments: Terça-feira, Setembro 14, 2004 O instrutor de yôga aconselha um sorriso. Mesmo que forçado, um sorriso opera maravilhas na nossa vida, diz. Eu tento seguir-lhe o exemplo e vou lá bem ao fundo das vísceras buscar o meu último sorriso. Se me estivesse a ver a um espelho, penso. - , tenho quase a certeza que desataria a rir. Mas por que não há aqui um espelho agora? Não seria preciso forçar nada. Às vezes, mais do que forçar um sorriso, vermo-nos ao espelho pode operar maravilhas na nossa vida. (h) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:19 PM - Comments: Segunda-feira, Setembro 13, 2004 ![]() ![]()
Com um intervalo de 20 anos, vi dois filmes do cineasta canadiano Denys Arcand com o mesmo grupo de actores principais, "O Declínio do Império Americano" e, recentemente, "As invasões Bárbaras". Um grupo de amigos, homens e mulheres, quase todos professores universitários, fala abertamente das suas vidas, trabalho, família, sexo, .... No primeiro filme andavam todos na casa dos 30, 40 anos, no segundo já passam todos dos 50. São filmes em que o diálogo é rei porque pouco mais se passa. E para não cair num registo enfadonho e de lugares comuns é preciso muita mestria na escrita do argumento, que Denys mostra ter. Em "Invasão dos Bárbaros" temos ainda a ajudar a figura enigmática e terna da jovem actriz canadiana Marie-Josée Croze, que recebeu em Cannes o prémio de "interpretação feminina, jovem esperança" pelo seu papel neste último filme. Nathalie (Marie-Josée Croze) diz a certa altura a Sébastian, um jovem "yupie" a trabalhar na "city" londrina que volta ao Canadá para ver o pai que está a morrer com um câncro: "Oh! Jeune homme parfait. Carrière parfaite. Fiancée parfaite. Mois je suis imparfaite. Defectuese. Inadéquate. C´est dommage... Très dommage". Numa outra cena, uma freira que visita os doentes no hospital e que fica amiga do pai de Sébastien, Rémy, diz-lhe: "Vous savez ce qui va vous arriver vous en enfer? On va vous enfermer dans une pièce avec toutes les femmes que vous avez séduites et vous allez être forcé de les écouter pendant l´éternité." mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:13 AM - Comments: "Existe um único tipo de palavras, aquelas que são articuladas pelo corpo", de Pavel Florensky (1882-1937), matemático e filósofo russo. Consegue o nosso corpo abrigar as nossas palavras? Eu preciso do corpo dos poetas. E dos que amo. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:37 AM - Comments: Domingo, Setembro 12, 2004 ela disse-me: "estava enleada num aperto. queria respirar e não conseguia.não tinha dinheiro. entrei no grupo onde me conheciam de outros tempos e vi-me dez anos atrás. ri-me desmesudaramente. menti o suficiente. ninguém me ouviu. pedi para me contarem o que se passara. riram-se e disseram meias verdades. todos mais tristes. eu anunciei: agora vivo aqui. riram-se. ninguém se importou. saí sem pagar. fui para a estação onde o sol se atrevia por entre as janelas quebradas. esperei o comboio das sete como antigamente. o sol empinou-se no céu. mais alto não podia estar. saí da estação e deixei atrás de mim um pacote de batatas fritas vazio. o azul e dourado cintilavam ao sol do meio dia. voltei para a vila. desta vez a espiral do tempo não funcionou. estava no mesmo sítio dez anos depois. não conseguia respirar. não tinha medo." Li-lhe Philip Larkin: "Time is the first thing I have understood: time is the echo of an axe Within a wood." Ela riu-se. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:55 AM - Comments: Sexta-feira, Setembro 10, 2004 "Matthieu - (...) A nossa sociedade produz muito poucos sábios. Cria comités de ética constituídos por grandes pensadores. Na sociedade tibetana, onde vivo, seria impensável incluir em tais comités pessoas que não possuíssem qualidades indiscutíveis sob todos os pontos de vista. Não poderia imaginar-se que mestres espirituais sobressaíssem nos ensinamentos da espiritualidade mas fossem egoístas, coléricos, vaidosos ou maus pais de família. A ninguém viria a ideia de os consultar. (...) Thuan - Que entende o budismo por conhecimento perfeito? Matthieu - O fim de toda a ilusão, associado a uma compaixão sem limites. (...)" (in "O Infinito na Palma da Mão, Budismo Ciência e Salvação", uma recolha das conversas entre o monge budista de origem francesa, Matthieu Ricard e o astrofísico vietnamita a viver actualmente nos EUA, Trinh Xuan Thuan) mp (a ib, que não me vê há mais de um mês, perguntou-me o que andei a ler, eu respondi-lhe que quase nada de romances. Aqui vai ib, um excerto das minhas leituras recentes que recomendo vivamente!) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:59 AM - Comments: todos os países têm uma cor, que não a cor da sua bandeira. ao regressar de um país ocre e azul safira vi lisboa, palmela, setubal brancos. portugal é um país branco, onde as casas se esforçam por se manterem brancas. é preciosa esta sensação de estranheza que se tem pegada ao olhar quando se regressa. são momentos de descoberta, de nos voltarmos a enamorar por uma realidade. trazer o olhar lavado, esperançoso. o olhar sem lágrimas de desilusão. um olhar da criação do mundo. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:22 AM - Comments: Quinta-feira, Setembro 09, 2004
Moonrise (Two Men on the Shore) Friedrich, Caspar David. Sepia and pencil. 24.5x34.5 cm mp (para o (h) um quadro deste pintor que nos enfeitiça! o que eu queria mesmo era o quadro de uma manhã de nevoeiro, mas não consegui passá-lo para aqui, ficamo-nos com este manto lunar!) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:16 AM - Comments: Terça-feira, Setembro 07, 2004 Ontem, quando fui deixar a minha filha à avó antes de ir para o trabalho, a natureza brindou-nos com um nevoeiro do qual já sentia, confesso, algumas saudades. Um longo manto de nevoeiro a cair sobre nós dois, sobre mim e sobre a minha filha. Olhei para o relógio: 8:20. Dei graças à natureza por nos cobrir com aquele nevoeiro e não com um outro que, sendo mais metafórico, não deixa de ser mais cruelmente real. (h) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:59 AM - Comments: Sábado, Setembro 04, 2004 hoje sem palavras para o inominável. postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:19 PM - Comments:
Ao contrário de "Dois Irmãos", a peça "Made in China", em cena no Teatro Taborda, não me agradou nem um pouco. Há muito tempo que não sentia tanta vontade de abandonar uma sala de espectáculos, desta vez não a principal, que é belíssima. Houve quem chamasse a "Made in China" um exercício de reivenção de linguagem. A mim soou-me a mera articulação de asneiras, cujo pano de fundo é uma série de estereótipos sobre a vida dos marginais, viciados em filmes de artes marciais. Além disso, não consigo rir-me só porque um actor/personagem grita "caralhos me fodam". Onde é que está a piada? Deve ser alguma incapacidade pessoal. Qualquer coisa relacionada com a moral repressiva da classe operária que desgraçadamente me orientou a educação. De resto, admito: não percebi nada do que diziam os actores nos dez primeiros minutos da peça. Virei-me para o lado e perguntei mesmo em voz baixa, com a boca atrás do leque que nos entregaram, por causa do calor na sala: "Mas do que é que eles estão a falar?" Não sabia ao que ia. Não me queixo de ter faltado o elemento surpresa. Fui a convite. Não paguei bilhete. De outro modo estaria a lamentar o dinheiro gasto. Afinal, ando a contar cêntimos. Esta vida material... IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:08 PM - Comments: Sexta-feira, Setembro 03, 2004 Não é decente sublinhar os amigos. Não é decente apontar-lhes um lápis e começar a marcar as partes de que intensamente gostamos: o nariz, os ombros, as mãos ou que seja. Que me perdoem os livros. É que queria decorar frases, parágrafos, páginas inteiras de alguns. Queria que fizessem parte de mim. Que me acompanhassem ao supermercado. Ao café da esquina. Que não me deixassem nunca. Quando leio tenho medo de não absorver pedaços adorados. Releio. Tento alinhar as palavras com calma. Copio-as. Colo a cópia, feita com letra bonita, na parede. Sei que é um acto infantil. Compreendo que o medo de esquecer é absurdo. Como, sob a pena de nada fazer além disso, me resigno a não copiar tudo o que amo nos livros, uso o lápis e sublinho-os, às vezes com leveza, outras quase a rasgar a folha. Espero que eles não me levem a mal. Ontem à noite fiz o lápis deslizar suavemente sob uma frase de "Mendigos e Altivos", de Albert Cossery. Decorei-a. Era assim: "O valor verdadeiro de cada ser correspondia, para Ieguene, à quantidade de alegria capaz de albergar." "O valor verdadeiro de cada ser correspondia, para Ieguene, à quantidade de alegria capaz de albergar." "O valor verdadeiro de cada ser correspondia, para Ieguene, à quantidade de alegria capaz de albergar." A ver se consigo absorvê-la. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:21 PM - Comments:
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