Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Sexta-feira, Julho 30, 2004

na mousse, novo espaço/galeria/loja/sei-lá-o-quê da rua das flores vi bancos de cozinha re-criados por artistas e autores. o mário cesariny tinha lá o seu banco. de pernas para o ar tinha dentro uma estátua em bronze, uma espécie de homem a que ele deu o nome de fernando pessoa. as mulheres artistas colavam, pregavam, cosiam os materiais. eram notadas. os estilistas vestiam as pernas dos bancos de botões, cristais e malha de seda. um performer tinha-se gravado em video, tal qual uma pequena helena almeida, rodando o corpo sobre o banco, vestindo-se, despindo-se, mostrando-se sem rosto. havia uma oliveira lá no meio. se calhar não era bem isso. mas para mim as árvores são sempre oliveiras. as oliveiras de moura.
ib

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uma amiga partiu para cabo verde a sua terra de sangue, a sua não-terra de vida. foi despedir-se do seu pai velho, baptizar um sobrinho, rezar uma missa pela sua mãe morta, num sábado em que o padre está de visita ao seu sítio. leva relógios baratos e coloridos e na carteira a fotografia dos meus filhos. vai por um mês e chorámos as duas, prometemos falar-nos sempre, pôr os meninos ao telefone para contar coisas à nina. gosto de ser chorona. choro mais vezes agora. sou mais feliz.
miss portugal

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o mestre

A figura do mestre é algo que sempre me fascinou. Professores todos tivemos, mas alguém que não ensine mas faça e nos deixe olhar fazendo. Alguém que coloque a nu o seu caminho. Alguém cuja vida seja toda ela um exemplo, não por ser exemplar, mas por estar à vista, por nos ser dada, isso é muito mais difícil de encontrar. Numa visita guiada a uma colecção de arte de um museu da cidade, dei de caras com um quadro de José Ribera. Era uma tela pequena, maioritariamente escura, perdida numa envolvente de pequenas obras cujas magnificentes molduras tentavam distrair-nos do seu olhar. Era um retrato de Arquimedes. Uma luz intensa trazia à superfície a sua fronte, como se tudo o que aquele homem possuísse estivesse aí guardado, o seu tesouro. Numa outra tela, encontro-o andrajoso, de pena e papel na mão, sorrindo-nos como que testemunhando a felicidade que era a sua. A luz intensa já não incide apenas sobre a cabeça mas também sobre o peito. Sob a pobreza das vestes, a riqueza da tez. E o sorriso a entregar-nos o coração. Um mestre no seu tempo.

mp (a propósito de umas palavras da ib)

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Quinta-feira, Julho 29, 2004

diz o tomzé, o controverso e excêntrico, culto e pacífico tomzé, e eu bebo as suas palavras: " O trabalho espiritual talvez seja um trabalho ainda mais importante que a música... Mas isso são coisas mais profundas, coisas que, queira Deus, eu tenha vida para progredir mais e conseguir morrer numa morte pacífica e bem trabalhada". A tribo vai ao tomzé.Vai dançar e pular à maneira da tribo. e como é isso, perguntam? Não tem maneira, é de qualquer maneira, mesmo.
ib

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Ela está deitada sobre a cama com um bloco na mesa ao lado e um lápis dentro da gaveta.
Hoje ainda não se lembrara de escrever por isso não procurara o bloco e o lápis.
Há uma preparação, um silêncio onde é preciso chegar para que surja, vindo do nada, o impulso da escrita. Nesse silêncio ela esquece tudo para o vazio.
E, de repente. A passagem.
Ela está à procura do bloco. Do lápis. Coloca o bloco sobre o baixo ventre e desata a escrevinhar. Ideias soltas que se encadeiam sem razão aparente:

Alguém desenhara um castelo num bloco para ela morar
Alguém murara-lhe as palavras

Admirava-se com os sérios e os palhaços
Provocavam-lhe comoção
Chamava-lhes os apaixonados dos sorrisos
Uns poupando-os, outros esbanjando-os

Um sorriso é a terminação da boca para o céu
Fecha-se o parêntese curvo

Quando rio fecho-o
Quando choro abro-o, entornando a liquidez do céu

Ela queria colocar um gravador na sua janela para guardar as falas do bairro
O que ela queria (mesmo) era aprender as falas das gentes para escrever Teatro

Muitas falas juntas são pluriteatro
Uma fala única é monoteatro
Aqueles dois são biteatro

É tudo uma questão de prefixar o texto

Ela pensava que era preferível uma janela para o mundo do que o mundo à janela

Romeu e Julieta morreram e ainda morrem do mesmo veneno
Nesta história só se safou a personagem da varanda

- Já não tens idade para brincar com os vocábulos
É uma forma como qualquer outra de distracção, diziam-lhe
Mas ela não ligava

a miúda

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Aonde te escondeste,
Amado, e me deixaste soluçando?
Como o cervo correste,
Ferida me deixando;
Tinhas partido, quando saí clamando.


Pastores, os que subirdes
Além pelas malhadas ao outeiro,
Se por a sorte vós virdes
Aquele em quem mais quero,
Dizei-lhe que agonizo enquanto espero.

S.João da Cruz, in Poesias Completas

O Bill T. Jones e o João da Cruz teriam dançado juntos, se no tempo tivessem coincidido. Ambos perdidos de amor.
miss portugal

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Quarta-feira, Julho 28, 2004

o bill T. Jones esteve cá. dançou em cima do seu corpo de 57 anos, falou por dentro da sua voz de negro americano, com os blues e a dor da escravidão a segurarem-lhe o tom, e contou uma história descoberta, onde não havia segredos, mas amor e memória. porque é que nós todos chorámos ou segurámos as lágrimas no final? porque precisamos destas pessoas fortes. precisamos deste lindo e excitante negro seropositivo, que passeava pelo campus universitário de mãos dadas com um homem de vestido.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:34 AM - Comments:


Terça-feira, Julho 27, 2004

Há muito tempo que não a via escrever uma história de amor.
Há muito tempo que não escrevia porque julgava que só conseguia escrever histórias de amor. E já tinha escrito todas as que sabia.
Deixara o amor suspenso num enredo inacabado. Imobilizara-o. Fixara-lhe uma condição suspensiva. Comprara-lhe uma casa a crédito. Pagava-lhe a renda todos os meses em sonos pânicos. Hipotecara-se por um prazo de 30 anos para felicidade da agência. Custara-lhe caro.

a miúda

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Segunda-feira, Julho 26, 2004

Merci, ma chère Marie! Dói menos não acreditar no céu quando a Terra dá frutos como tu.
Um beijinho do pc

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Sexta-feira, Julho 23, 2004

tentando consolar o pc (e todos nós), um Homem e uma Guitarra






tentando consolar o pc (e todos nós), uma "chanson" que é uma morada

Dessin dans le ciel
(Serge Reggiani)

Si vous voulez savoir où je suis
Comment me trouver, où j'habite
C'est pas compliqué
J'ai qu'à vous faire un dessin
Vous n'pouvez pas vous tromper

Quand vous entrez dans la galaxie
Vous prenez tout droit entre Vénus et Mars
Vous évitez Saturne, vous contournez Pluton
Vous laissez la Lune à votre droite
Vous n'pouvez pas vous tromper
Quand vous verrez tourner dans les grands
Terrains vagues d'espace
Des spoutniks, des machins
Des trucs satellisés
Des orbites abandonnées
La fourrière d'en haut
La ferraille du ciel
C'est déjà la banlieue
La banlieue de la planète
Où je passe le temps
Vous continuez tout droit
Là, vous verrez tourner une boule
Pleine de plaies, pleine de bosses
C'est la terre, j'y habite
Vous n'pouvez pas vous tromper

Vous vous laissez glisser le long du Groënland
Qui fait froid dans l'dos
Attention! Ça dérape...
Vous prenez à gauche par la mer du Nord
Et puis à droite par la Manche
Et là, vous verrez un machin
Qui ressemble à la tête d'un bonhomme
En forme d'hexagone
Avec un très grand nez
Un nez qui n'en finit plus
Un nez qui respire la mer
Un nez, un nez en forme de Finistère
C'est la France, j'y habite
Vous ne pourrez pas vous tromper

Vous continuez tout droit
Jusqu'à un fleuve blond
Qui s'appelle la Loire
Les yeux couleur de sable
Vous le prenez à gauche
Et puis à droite, et puis tout droit
Et quand vous êtes là
Quand vous êtes là
Demandez la maison
Tout l'monde nous connaît
Vous n'pouvez pas vous tromper

Elle a les yeux comme ceci
Et les cheveux comme cela
Il y a sa bouche qui est là
Et son sourire juste au coin
Elle est toujours là où je suis
Je suis toujours là où elle est
Elle est la lampe, elle est l'horloge
Mon feu de braise, mon lieu-dit
Elle est ma maison, mon logis
Et de toute façon quand vous aurez vu son sourire
Vous ne pourrez pas vous tromper

Parce que... Parce ce que...
Parce que... C'est là!


mp (parce que... C´est là!)

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Se eu acreditasse no céu...
...podia consolar-me com a imagem de um dueto entre Carlos Paredes e Serge Reggiani, desaparecidos esta madrugada. Mas não acredito. E por isso, este é um dia ainda mais triste.
pc

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Quinta-feira, Julho 22, 2004

Desconfio que a primeira vez que alguém falou de felicidade tenha sido com o intuito de referir a distância que separa a realidade do estilo. A felicidade, todos o sabemos, é por demais evidente, é aquilo que todos anseiam e ninguém alcança. Podemos falar de um equilíbrio consumado que nos aproxime de um qualquer estado idealizado de felicidade; mas duvido que possamos afirmar com honestidade e lucidez a consumação dessa felicidade. Antes demais porque isso implicaria um egoísmo excessivo, um solipsismo desmesurado, ou não fosse condição essencial da felicidade de um homem pelo menos o bem-estar dos outros homens à sua volta. Ora, a realidade apresenta-se-nos diariamente sob a forma de um permanente colapso, de um desmoronamento incessante, aqui e ali desinchados pela magnanimidade de alguns gestos mais criativos e, porventura, caritativos. Por que falava eu então de estilo? Porque a não ser loucura, alheamento ¿ não direi alienação, palavra que me é cara como método expressivo -, a felicidade só poderá ser entendida como estilo, ou seja, como uma composição vazia, modal, pragmática, sem dúvida, da vida e de todas as suas variantes. Distante da realidade, o estilo é consequência da desesperança, uma forma de (re)construir a dor, retirando-lhe, tanto quanto possível, toda a sua gravidade. A felicidade, a fazer algum sentido, só pode estar aí, nesse lugar indefinido e indefinível, que percorre a distância entre o estilo e a realidade.
(h)

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Quarta-feira, Julho 21, 2004

tinha vergonha de ter quarenta anos e de querer mais filhos. desejava-os na sua barriga um pouco mole, mas ainda útil. aquela mania da utilidade dos filhos. o seu corpo seria tanto mais amado quanto mais filhos tivesse. amado por dentro, alargando com os volumes amorosos dos filhos. amor que se multiplicava dia e noite, sábados, domingos e pontes. vergonha de não ser plenamente feliz com um homem, com um homem só. o seu homem por muito que a entrasse não existia dentro dela. era dela só de passagem. não a conhecia, não a tinha ouvido por dentro, não a tinha acompanhado, cheirado e sentido nos dias e noites de alguma felicidade, de alguma incerteza. nunca pensara tanto num homem como nos filhos. vergonha de desejá-los em cascata pela rua, um dois três quatro, até perder de vista. tinha pintado o cabelo, parecia mais nova. entretinha-se com um desejo de filhos. ao almoço evitava as saladas, pelos filhos. pensava como poderia sair de casa com várias mãos a colarem-se ao vestido. pensava que iria estar derreada. esgotada. gasta de filhos. trocava-lhes os nomes e lavava-lhes as caras, para que ficasse bem claro que eram dela. ela que nunca usava vestidos, ela que nem homem tinha.
miss portugal

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Terça-feira, Julho 20, 2004

talvez por ter o estômago cheio e a correspondente certeza de não ser leve, nem literal nem metaforicamente, procurei aliviar -me buscando nas palavras de alguém, um consolo. conhecem a sensação de que alguém algures no tempo terá escrito aquilo que nós, neste momento do nosso presente inelutável, precisamos de ler? remoí, em simultâneo a comida e a memória, olhando algo distraída para os livros em casa. visualizei mesmo um outro lugar, a biblioteca borgesiana, procurando, sempre procurando, e com a ideia a formar-se no meu pensamento encontrei o paliativo para o meu peso. Em "as seis propostas para o próximo milénio", este nosso vulgarissimo milénio, esbarrei no capítulo sobre a leveza. Afirma Calvino, que o seu trabalho foi " na maioria das vezes uma subtracção de peso; tentei tirar peso ora às figuras humanas, ora aos corpos celestes, ora às cidades; sobretudo tentei tirar peso à estrutura do conto e à linguagem". isentimo-lo ir ao encontro do vento, do movimento, do sopro que alguns seres encerram. diz ainda: "que a privação sofrida se transforma em leveza e permite voar no reino em que todas as necessidades serão magicamente supridas". escapismo? não. leveza.
miss portugal

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Segunda-feira, Julho 19, 2004

Descobri Alda Merini, mais uma poetisa arrancada temporariamente à loucura. viveu tempos humanos e desumanos. fala-nos da sua poesia assim:
A minha poesia tem para mim a importância da própria vida, é a minha palavra interior, a minha vida. Fui sempre uma autora dinâmica e não alguém que lança os dados do conceito sobre a mesa das metáforas. Gosto de escrever porque gosto de viver. ......
A carga originária da poesia é ancestral, é pura, é um canto sem hesitações."
Belas palavras para quem sofreu vinte anos de silêncio poético salpicado por internamentos em hospitais psiquiátricos.Escreve:
Como uma larga cascata
nós permanecemos
anjos iguais aos que
num dia de alvorada
ganharam asas.

Alda Merini, in "Terra Santa" , 1996
ib

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Sexta-feira, Julho 16, 2004

no quarteto este rosto esconde um segredo



que só eles conhecem



BARAN (2001)
de Majid Majidi
com Hossein Abedini (Latif) e Zahra Bahrami (Baran)

mp



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Quinta-feira, Julho 15, 2004



OBRAS NA FACHADA
de Lúcia Sigalho
SENSURROUND - COMPANHIA DE TEATRO

CASA d´OS DIAS DA ÁGUA
de 14 a 31 de Julho, 24 horas sobre 24 horas

Com: Joana Furtado, Marta Furtado, Afonso de Melo, André Amálio, Felix Lozano, Victor Gonçalves,
Luzes: Daniel Worm D¿Assumpção . Assistência de Encenação: Annick Feit

"Nas janelas, nas varandas, nas paredes ou no telhado. Do interior para o exterior ou ao contrário. Obras na Fachada: todos os dias, todo o dia, a todas as horas.
Nesta peça vamos trabalhar na linha da fachada, num espaço o mais pequeno e o mais difícil de definir possível. Tomámos como ponto de partida uma tensão entre a vontade irresistível de fugir daqui e uma necessidade absoluta de ficar, a dicotomia e as contradições entre espaço público e espaço privado, utilizando a fachada como interface, linha de fronteira entre o território Casa e o território Rua.
Ao longo de 18 dias consecutivos e ininterruptos desenvolver-se-ão Obras na Fachada: uma forma de sentir a Rua, de intervir na Rua e de reagir à Rua, sempre a partir da Casa.
A peça é constituída por diferentes intervenções na fachada feitas por actores e músicos ao longo das 24 horas do dia. O trabalho vai-se modificano ao longo do tempo."

mp (ontem estava a ouvir na RPL a Lúcia Sigalho a falar deste projecto e fiquei com uma enorme vontade de passar por lá um dia destes, deitar-me nas espreguiçadeiras que estão na rua para quem quiser ficar a apreciar as obras mais demoradamente. Por volta das 17:00 umas senhoras "vizinhas" vão até lá contar-nos histórias do Bairro enquanto tomam o seu chá. Ouvi-las ou deixar-se dormir com quem dorme à janela são algumas das propostas da tarde que tentarei não perder, tentando gozar um pouco dessa bem-fazeja quietude que se nos oferece interrompendo o buliço da grande cidade)

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Quarta-feira, Julho 14, 2004

Teatro - 'Emanuel Kant' no Festival Internacional de Almada
QUANDO O CINEMA É BOM, PREFIRO O TEATRO
Revelou-se algo decepcionante o espectáculo mais esperado da presente edição do Festival Internacional de Teatro de Almada. Falamos de 'Emmanuel Kant', uma peça de Thomas Bernhard revista por esse mito do teatro europeu chamado Roger Planchon.
O espectáculo, que teve duas representações no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, deve muito à estética cinematográfica que tanto inspira o criador francês.
Tanto o belíssimo cenário - em formato cinemascópio - como o desenho de luz, nos dão a sensação de estarmos a ver um filme, onde, durante cerca de duas horas e meia, assistimos a um desfile de personagens e respectivas idiossincrasias.
A peça não tem história. Com o seu olho atento ao pequeno defeito humano, Thomas Bernhard cria uma série de retratos de gente com propensão para o ridículo, todos reunidos num barco com destino à América.
POUCO PARA OFERECER
Misturando deliberadamente diversos momentos históricos, apresenta-nos o filósofo Emmanuel Kant (interpretado pelo próprio Roger Planchon) como um velho libidinoso com mau feitio, obce- cado pelo seu papagaio Friedrich e que vai aos Estados Unidos fazer uma operação às cataratas. Durante o percurso, tece comentários sobre Marx e o socialismo, sobre poluição, sobre o fim do Mundo.
No entanto, para além de alguns momentos de humor - conseguido graças a essas incongruências e aos disparates das personagens - é pouco aquilo que o espectáculo tem para nos oferecer.
É que, ao contrário do cinema, onde a câmara segue os actores e a montagem realça o que de melhor eles deram aos respectivos papéis, no teatro o olhar do espectador é livre.
Portanto, quem ficou mais perto do palco do Grande Auditório do CCB pôde apreciar a qualidade das interpretações do elenco. Quem ficou mais longe, teve de contentar-se com a contemplação do belo cenário, porque cá atrás só se ouvia o registo grandiloquente dos actores e os seus gestos afectados.
'Emmanuel Kant' seria um espectáculo mais adequado a um espaço íntimo. De qualquer forma, permanece a dúvida: será que não proporciona mais prazer a quem faz do que a quem vê?
Ana Maria Ribeiro

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"I looked for a way to simplify the thought processes"


Jonathan Borofsky
Counting From 1 To 3227146
Hand Written On 8 1/2" x 11" Sheets Of Paper With Pen Or Pencil
1969 / 1976

Entre 1969 e 1976 Jonathan Borofsky contou de 1 a 3227146 e registou a lápis esses números em folhas de papel quadriculadas. o resultado desse trabalho é a pilha de folhas que vemos em cima. Segundo Borofsky: "I had just left graduate school and moved to New York City [in 1966]. I was digesting the New York scene. There was Pop Art and Minimal Art. Both seemed very beautiful to me. Yet each had a weakness or flaw. I was a young artist, searching for his own uniqueness. I ended up in my studio a lot, thinking a lot, writing thoughts down. Less making of things and more thinking about things. I looked for a way to simplify the thought processes. I began to do little 1, 2, 3; 1, 2, 3, 4; 1, 2, 3, 4, 5 writing of number sequences on paper almost as a way to pass the time and not have to think so deeply."

mp (a partir dos 8 anos comecei a ficar, de noite, com os meus três irmãos mais novos. lembro-me de ter muito medo de estar sozinha e de contar ininterruptamente em alto, deitada na minha cama, de luzes acesas, até os meus pais chegarem ou ser vencida pelo sono. contava para ajudar a passar o tempo e simplificar o medo, sem saber que em NY, na mesma altura, alguém fazia disso um modo de arte.)

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uma confissão

Amo as palavras de Herberto Helder. Aterradoras, tremendas, ferozes, assombradas, violentas, furibundas, tenebrosas, velozes, furiosas. Passam por mim como um furacão. Arrancam-me do chão, revolvem-me o vestido, despenteiam-me os cabelos. Aferrolham-me os olhos para depois me darem a imensidão das imagens tremendamente puras da furibunda concepção. Elas são a língua retratobliquamente livre. A canção dos frutos. Se ele me deixasse comia(lhe) a poesia toda.

mp (com palavras de HH na boca)

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Terça-feira, Julho 13, 2004


Maria Amidu, photocopy text. "...a moment caught in three dimension(s)", 1999

para a ib a ir e o (h), pelas palavras-presentes

Ando a tentar escrever-lhes, queria muito dizer-lhes como gosto delas, dele, como através das palavras as pessoas também se apresentam, apertam as mãos, dão grandes abraços e beijos. Na ausência do corpo, o que se sente e o que se pensa tomam-lhe o lugar. Injectam-se por debaixo da pele e a pele é o que se vê. Palavras. Vejo nas vossas as marcas de nascença, os sinais, as veias, as rugas, os poros receptivos à passagem de fluidos. Vejo o coração, quando ele desponta na ternura de uma sílaba. Vejo a raiva assanhada num ditongo. Vejo o medo numa frase que hesita no seu termo e a conquista numa rima bonita. Vejo isto tudo não só com os olhos, mas com o corpo. O tal que desaparece na folha mas que é emissor e receptor. Tudo nele começa e acaba para uma vez mais recomeçar, numa resposta. Correspondemo-nos assegurando a passagem de um testemunho invisível, que nem mesmo o corpo, as palavras ... Queremo-lo etéreo para não quebrar. Para circular entre nós sempre. Preenchendo o vazio que há entre os dedos.

mp

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Segunda-feira, Julho 12, 2004

"Procedemos de uma só origem - a mãe - e provimos da mesma embocadura; mas, seja qual for a pessoa, ela procurará elevar-se do abismo em direcção ao seu destino. Sabemos entender-nos mutuamente, mas somente cada qual tem capacidade para interpretar a sua própria vida."

Eu gosto de ler estas coisas do Herman Hesse. Levam-me a pensar em ter Tempo e Pachorra para parar um pouco e pensar no único que eu sou, no que ando cá a fazer, no que já deveria ter feito. Levam-me a não dar demasiada importância ao que pensam de mim. E depois perco-me um pouco na noção de abismo e destino, traço objectivos e defino planos, estabeleço metas para que possa cumprir prazos. E penso no importante que é conhecer-me a mim mesmo, saber onde estive, onde vou, marcar presença.

Mas depressa me canso de brincar com estas coisas: deixo-as espalhadas pelo chão do quarto e lá vou eu brincar para a rua.

Artur Anjos

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Um presente para mp

No dia dos teus anos
sonhei estar à altura
da tua voz
Tentei perceber o movimento das pedras
sobre as águas
e o porquê das amoras silvestres
entre os espinhos
Compus uma melodia em Em
A tua voz é definitivamente
uma voz que dança
em Em
Assim a suponho
assim a sonho
por detrás deste lençol de palavras
que nos separa
Qualquer dia
prometo-te
deixarei o lençol a enxugar
num estendal cá de casa
e partirei ao teu encontro
Quero que um dia ouças pela minha voz
quanto prazer me tem dado
poder sonhar a tua
(h)

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para te deixares surpreender tens de calar o eu que ensurdece, disse-o de mim para mim.

mp

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Sexta-feira, Julho 09, 2004

Decepção. Não foi Sampaio, em quem votei, que me convenceu finalmente de que o cargo de presidente da república não é meramente simbólico. Tinha hoje a possibilidade de afirmar, porque a situação o exigia, que o poder que lhe foi conferido é real. Mas não, preferiu manter-nos na eterna ilusão de que há interesses particulares que não poderão escapar ao crivo de um poder autónomo, independente e esclarecido. Afirmar que a sua decisão deve ser saudada pela imparcialidade que demonstrou não passa de mera retórica. Não há imparcialidade onde não há decisão. Sampaio, afinal, não decidiu nada. Limitou-se a agir em concordância com o amorfismo do cargo que ocupa. Tanto tempo para isto. Para quê?

Deprimente. Vamos ter um primeiro ministro estúpido, que nunca deu provas de nada na vida. Um carreirista político empenhado. Ex-comentador desportivo, ex-concorrente em programas de televisão, ex-presidente de um clube desportivo, ex, ex, ex. Um inútil, demagogo até à medula, absolutamente indigno. Inculto, supremamente inculto. Santana não vai mandar nada, vai ser mandado, vai limitar-se a andar a reboque de outras vozes mais peçonhentas, maquiavélicas, viperinas. Santana vai limitar-se a dar a cara, a apelar ao coração dos portugueses e das portuguesas. O outro, esse é que ditará o caminho. E o outro são muitos, com especial representação no Paulo-hoje-diz-uma-coisa-amanhã-outra-Portas. Mas eles são quase todos assim. Agente que se amanhe.

Revolta. Votar não serve para nada neste país. Confiamos cargos em indivíduos que se põem a andar quando bem lhes apetece. O lucro chama, eles fazem umas festas de consolo ao compromisso e apressam passo na direcção do lucro. Em democracia, o sufrágio popular deveria ser o ¿grande ditador¿ das nossas razões. Mas isto não é uma democracia. Isto é uma conluiocracia. Amanhã, como todos os sábados, vou comprar o jornal, registar o boletim do totoloto, beber uma cerveja numa esplanada qualquer. Amanhã, como sempre, passarei por cima das páginas de actualidade nos jornais. A mim, o que me salva, há muito, são os cardápios. Ó pORTUGAL: questão que eu tenho comigo mesmo, golpe até ao osso, fome sem entretém, perdigueiro marrado e sem narizs, sem perdizes, rocim engraxado, meu remorso, meu remorso de todos nós.
(h)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:30 PM - Comments:




o teatro de rua é uma espécie em extinção, mas em Sintra gostam de manter as tradições.

«E um olhar solarento quebrou o gelo, enquanto uma pomba branca esvoaça...
Ah! A propósito... A sombra dos anjos é o reflexo do amor entre os homens.
Beija o chão que podias pisar, e sente o ar que podias sentir para assim viveres a imortalidade que poderias ter se existisses.
Pudessem eles sentir dedos que se tocam e saberiam das viagens que só nós fazemos em delírios e espasmos humanos.
Eu e tu somos um anjo infinito.»

ando há tempos com curiosidade para ver os tapa-furos. talvez seja amanhã.
aa (o Anjos é pura coincidencia)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:41 PM - Comments:


era verão e tu preta. trazias uma faixa de verão à cintura. como se fosse uma saia. lembro-me tão bem de ti. lembro-me dos teus dedos dos pés. (a sério) lembro-me dos teus pés. estavam descalços. eu sei que os pés não falam, mas não esqueci o que me disseram os teus. que estavam descalços. que aqueles chinelos em que os enfiaras eram só uma brincadeira tua. que eles andavam sempre descalços. mesmo de botas. riram-se e fizeram com que eu me risse também. o tempo passou. (amanhã vou dizer-te que és tal e qual os teus pés, maria). IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:25 PM - Comments:


Há já um ano que pensava em como seria ser maria, ou ser como a maria ou se mariar, não sendo maria nem mariana. maria presente em todos os nossos nomes, sem nos largar nunca. nome que nos obriga à perfeição. a maria é livre e doce. torna interessante as coisas e as pessoas. ouvindo-as, dando-lhes voz. gosta de tanta coisa, que dá raiva. gosta de tanta gente, que comove. sabe muitas coisas e revela-as por dentro dos versos. dança descalça ou pelo menos anda como se o fizesse. pensa nos outros, imagina-lhes a vida, casa-os, inventa-lhes desejos.
todos as tribos têm uma maria. uns colocam-na no altar. a nossa está cá em baixo, lê livros, vai ao supermercado e ao cinema. não a trocamos por nada.
a maria faz anos amanhã.
parabéns, maria
ib

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Quinta-feira, Julho 08, 2004

[O nosso momento] ou [memórias de ti] ou ainda [ 8 de Julho ]


e tu aprendias que tinhas nascido, que respiravas, que te movias, que te sentias.
e não querias mais nada senão aninhar-te em mim, e eu agradecia-te alongando os meus braços sobre o teu tronco, abrindo o coração para que nele adormecesses, e elevando levemente os lábios para que o meu sorriso se juntasse ao teu sorriso.
e sempre que os nossos cheiros nos despertavam os corpos não desperdiçávamos o momento e eu possuía-te como nunca fui possuído.

como nunca: nem por ti.

e este não é o nosso choro: esta lágrima é a nossa forma de transbordar


Artur Anjos
(juntando-se à Tribo, timidamente)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:32 PM - Comments:


O cabelo dela
Lembro-me de quando a minha avó tirava os ganchos do cabelo, um a um, no sentido dos ponteiros do relógio a tiquetaquear pendurado na parede em frente. Do vagar e do cuidado que aplicava na extracção dos ganchos. Não fosse - pensava eu - o carrapito cair ao chão e partir-se em mil bocados.
Sentado na cadeira, não desviava os olhos do cabelo dela, enrolado muito enroladinho quase no cimo da cabeça. Não se via onde começava ou acabava. Era como os bichos de conta depois de se lhes tocar com o dedo.
Naquela altura, eu tocava muitas vezes nas coisas e nos animais, para ver se eram de mexer ou de ficar quietos. Mais do que tudo, as minhas mãos de menino eram de mexer e, por isso, nunca estavam limpas.
"Eu sei, eu sei, eu sei/ Que um homem aos cinquenta anos/ Tem sempre as mãos limpas/ Eu lavo as minhas duas ou três vezes ao dia/ Mas é somente quando as vejo sujas/ Que me lembro/ De quando era miúdo." Foi Tonino Guerra, co-argumentista de "Amarcord", quem o escreveu, mas é de mim que fala.
As mãos da minha avô tiravam do cabelo ganchos que me pareciam "us" de hastes muito loooooongas. Também faziam as vezes de pernas de gigantes, pata aqui, pata acolá, às vezes engatilhados em luta feroz sobre a mesa redonda da sala.
O cabelo dela só aceitava distender-se quando havia um montinho de "us" - ou talvez fossem gigantes derrotados - sobre a camilha, que escondia uma braseira. Num movimento lento, começava a soltar-se e depois, sem avisar, caía numa trança cinzenta, espessa na nuca, muito fina e encaracolada ao fundo.
A seguir eu aproximava os meus dedos e fazia-os desaparecer inteiros dentro da trança, una apenas na aparência. Não tardava muito... separava-se.
O cabelo deixava de assemelhar-se a um bicho de conta. Passava a ser três cobras estendidas ao sol, em ziguezague nas costas dela. Às vezes, eu pegava numa e agitava-a à frente do nariz, qual serpente às ordens de um flautista de turbante.
"Não achas que já chega, querido?", perguntava a minha avó, não sei quanto tempo depois - claro que o tempo não existia -, entregando-me, sem se virar, uma travessa preta de plástico. Havia bocadinhos de madrepérola incrustados na banda semicircular, de onde saía uma fiada de dentes em risada aberta.
Quando ela começava a tirar os ganchos do cabelo, o Chico Zé bem podia vir chamar-me para ir aos ninhos. Também os havia no cabelo. Ali havia o mundo.
Segurando a travessa, eu puxava os calcanhares para cima e ficava de pé na cadeira com assento de palhinha. Só assim era capaz de ir buscar o cabelo à testa da avó. Lá onde ele nascia.
Abandonava então o ambiente terrestre, dos bichos de conta, das cobras rateiras, das serpentes que nunca vira e dos ninhos. Fazia-me ao mar, manobrando o pente até à foz, ao nível da cintura, daquele rio prateado.
Na primeira viagem enfrentava dificuldades. O rio era largo e encarapelava se o vento soprava forte. O barco vacilava, encontrava resistência, mas eu, marinheiro tatuado, de mulher nua picotada no braço, mantinha a mão firme no leme. A minha avó não se queixava de eu a arrepelar.
Navegava no cabelo dela. Descia por ele e, a cada viagem, o rio, já conhecido, tornava-se dócil, brilhante e transparente. Se me debruçava da amurada, conseguia ver peixes vermelhos e anémonas.
Há muito tempo que não penteio a minha avó e, agora, ela não consegue dar conta do cabelo sozinha, porque não lhe desce o braço até à anca. Aos 80 anos, pela primeira vez, cortou-o. Quando a vi assim de cabelo rente, pensei que o carrapito caíra ao chão, estilhaçando-se. Creio ter baixado os olhos à procura de vestígios. Levantei-os de seguida. Não fosse alguém ter dado pelo temor de menino que me apertara o peito. Ainda não fiz 50 anos, mas tenho as mãos sempre limpas.
IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:16 PM - Comments:


Terça-feira, Julho 06, 2004

time for fixation VI



"Me entristeceu um pouco você não gostar do título "O Lustre". Exatamente pelo que você não gostou, pela pobreza dele, é que eu gosto. Nunca consegui mesmo convencer você de que eu sou pobre... Infelizmente, quanto mais pobre, com mais enfeites me enfeito. No dia em que eu conseguir uma forma tão pobre como eu o sou por dentro, em vez de carta, você receberá uma caixinha cheia de pó de Clarice."

mp (resposta de Clarice Lispector a Lúcio Cardoso, que não tinha gostado do título do seu novo livro "Lustre", por o achar "mansfieldiano" e um pouco pobre para pessoa tão rica como ela)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:54 PM - Comments:


Segunda-feira, Julho 05, 2004

Há muito que a esperança morreu dentro de mim. Há muito que celebrou a sua morte. Há muito que profanou a sua própria campa. Há muito que se revirou no caixão, ofendida consigo própria. Há muito que o relevante é saber se a esperança nos une ou nos duplica. Talvez nos reduza, talvez nos promova. Que sabemos nós da esperança? Quem pode saber alguma coisa sobre a esperança? Que homem pode arrogar-se no direito de ter esperança? Há uma tremenda grandiosidade na esperança, é certo, mas não nos regozijemos com isso. Porque isso só nos deixa mais intranquilos. E nós não gostamos de estar intranquilos. À esperança, prefiro a utopia. A esperança desarma-me, a utopia obriga-me a esforços que implicaram apenas o benefício das minhas forças. No entanto, tratar-se-á apenas de um problema de preferências? Julgo que não. Ninguém está verdadeiramente capacitado de preferir ou não preferir a esperança, já que esta triunfa por dentro do desespero que habita todos os corações. A esperança obriga-nos à coragem de uma inabalável condenação. Movidos pela vontade, temos de fazer do futuro um presente incessantemente renovável e dinâmico, recusando essa apatia da vontade em que a esperança nos mergulha. O que nos falta, o que sempre nos faltou, é vontade. Esperança, já tivemos demais.
(h)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:02 PM - Comments:


Domingo, Julho 04, 2004

time for fixation V

1.
Até hoje vivi mais das possibilidades do que das certezas, das esperanças mais do que das decisões. E agora decidir é irremediável e o tempo para mim se fez lugar de angústia mais do que redenção, invejo Moisés que tendo vivido o tempo da promessa, morreu antes de chegar à terra prometida.

2.
Pus o despertador a despertar de hora em hora. De hora em hora vejo a febre. Mantém-se estável. Amanhã levanto-me.
De três em três horas telefono a um amigo diferente. Normalmente ninguém me atende. Às vezes deixo mensagem. Deixo a promessa de ligar de novo. Gosto muito de prometer.

...

24.
Nunca cumpras todas as promessas. É um modo muito triste de morrer.

(fragmento de um texto inacabado de Daniel Faria, "Terceiro Homem. Terceiro Dia", publicado na revista apeadeiro 04/05)
mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:57 PM - Comments:


Quando o jogo acabou, abri a janela para o bairro e as ruas tocavam um silêncio comovedor, abafando todos os ruídos... Saber estar em silêncio quando o momento o pede também é uma graça. Só que rapidamente esse tempo de graça desapareceu e as buzinadelas, o Portugal olé, a Gloria Gaynor... regressaram ao Bairro, intercalados agora por uns "volta para a tua terra" e muitos assobios. Os portugueses agarram-se à "festa" como cães a um ... Só descubro uma explicação, não querem abrir os olhos e olhar para a cadeira vazia do PM e muito menos para a cara do senhor que "talvez" se lhe siga. O problema é que quando a música parar alguém vai ter de se sentar! E nessa altura, no banco, já não teremos o olhar doce e apaziguador de Luís Filipe Scolari. Mas o de uma raposa matreira que há muito fareja o lugar. Mais uma vez está tudo escrito na fábula. O corvo para ficar com o queijo deita tudo a perder para a raposa [e ninguém deu por nada porque havia festa na floresta]. Existe ainda quem possa mudar o rumo da fábula, mas não lhe invejo a sorte, caso mesmo para dizer, coitado do J..., eu não quereria estar na sua pele num momento como este, em que a alternativa de eleições antecipadas é, a meu ver, igualmente má. Será que o Luís Filipe Scolari não aceitaria ser treinador do governo a par da selecção?

mp (este texto é escrito por quem não percebe nada de política mas hoje apeteceu-lhe "largar uns bitates". só tenho pena da política não retirar de mim o mais veloz apaixonamento, como a poesia. instalou-se um clima de quebra de confiança, de juizos de valor formados em informação muitas vezes enganosa. temos cada vez mais dificuldade em perceber as verdadeiras intenções de quem nos quer governar. o altruísmo, a filantropia, que deveriam ser a cara de todo o político, veêm-se cada vez menos, ao contrário das ambições pessoais e da vontade do poder pelo poder. eu só queria poder voltar a acreditar nos políticos como voltei a acreditar na selecção!)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:34 PM - Comments:


margarida gil, cineasta, recordava a amiga sophia. sophia detestava a boçalidade e a vulgaridade. dava um valor preciso e exacto a cada coisa, a cada palavra. era de uma utilidade absoluta. não desperdiçava o bem, não gastava as palavras. e para isso recolhia-se de noite, depois de cuidar dos seus cinco filhos, e ouvia essa beleza intrínseca que ela era. essa beleza de que precisamos mais do que nunca. essa beleza que nos encanta. essa beleza-canto. poesia.
ib

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:14 AM - Comments:


Sábado, Julho 03, 2004


Mulher cão, 1994, Paula Rego
IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:23 AM - Comments:


Sexta-feira, Julho 02, 2004


hoje o mar é uma essência líquida de Sophia

hoje a selva é uma essência espessa de Brando








postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:37 PM - Comments:








("LES AMANTS DU PONT-NEUF" de Leos Carax, com Denis Lavant (Alex Vaugan), Juliette Binoche (Michèle Stalans), Klaus-Michael Grüber (Hans))

mp






postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:43 PM - Comments:


Tão casta é a maneira que nós temos
de ficar embrulhados um no outro,
que já o deus em cima se diverte
a separar-nos só conceptualmente.
Este braço decerto te pertence
embora o sinta meu, e os lábios são
uma extensa fronteira onde combatem
armadas das nações as mais diversas.
Em torno dorme a roma deicida
incendiada sem saber porquê;
do obscuro vaticano o lança-mísseis
serve nos céus um colorido show
enquanto trato um membro mais dorido;
mas meu ou teu, não me pergunto, deixo
à sorte do combate que o decida.

António Franco Alexandre in "Duende", 2002
ib

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:05 PM - Comments:


"Então é só isto", pensou, mas virou-se para ele, recolheu o cabelo comprido em cima do ombro e, sorrindo, sussurrou - "foi lindo". Disse-o com os olhos fechados, querendo sublinhar o efeito, como num filme. Enfiou-lhe a língua dentro da boca para selar a mentira. Mal ele se levantou para ir à casa de banho, Joana saltou da cama e arrancou o lençol de cima. Nada. O de baixo estava limpo. Vestiu-se e atirou a mochila para as costas. Saiu sem fazer barulho. No quarteirão seguinte, meteu-se numa máquina de tirar fotografias tipo passe. Os flashes sucederam-se ao longo de duas horas. Joana pegou nas tiras que a máquina tinha deitado.
Quando chegou a casa viu que acontecera. Para dentro primeiro. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:32 AM - Comments:



Eu queria ser mulher pra me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas "banquettes" dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó-de-arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.
...................

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
e aguçá-los ao espelho, antes de me deitar-
Eu queria ser mulher para que me fossem bem estes enleios,
que a um homem francamente, não se podem desculpar.

.................


Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
eu queria ser mulher para me poder recusar...

Mário de Sá Carneiro, Paris - Fevereiro, 1916

miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:07 AM - Comments:


Quinta-feira, Julho 01, 2004

"WHAT WOULD HAPPEN IF ONE WOMAN TOLD THE TRUTH ABOUT HER LIFE?
- THE WORLD WOULD SPLIT OPEN"


Muriel Rukeyser

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:14 PM - Comments:



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