Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Terça-feira, Junho 29, 2004

santão é bicho mitológico, eterno farejante de ossaturas poderosas. metade peixe, outra canina é. santão é mestre de agiotagem, tem talentos de bailante e ajustes por cumprir com o destino. são os bichos mais perigosos, esses inventados pelos rancores que nos puxam pró passado. sempre que ecoam ambições antigas, esguiam-se pela calada e, bem no meio do redil, exibem sua indefectível vaidade. ó infame fariseu, adulador perverso das decrépitas artes, põe-te a milhas desta porta que agente não te quer à mesa. santão venenoso, malabarista de virtudes, teus intentos, por mais que te malhes, sabemos bem quais são: o peso dos teus bolsos fala por ti. os teus olhos só a barriga os guia. santão, o mestre contorcionista, com espinha bem treinada pelo tilintar compassado dos nababos. curva-te, curva-te mais, curva-te ainda mais e mais, que é essa a tua única mestria. ó santão danado, sumário de ideias e ideais, salta-valados de incumbências. diz-me cá, diz-me lá, para que foste eleito? para pôr em movimento o movimento do ex-movimento no fundo do fundo tão ao fundo que é este país? santão, aõ, ão, ão, aõ, vai-te ao osso. mas antes, terás de passar por cima de nós. terás de romper-nos as canelas de ferro e partir esses dentes tratados ao preço da miséria dos outros. santão bicho, santão homem, santão bicéfalo: apontamos-te as miras da memória. é bom que o saibas, ó ignóbil, pois ainda que te disfarces na fineza das palavras, sabemos bem que por detrás dessa melodia tão doce para os ouvidos das gentes humildes está somente uma ruidosa pauta de conveniências, interesses obscuros e pandilhas self-service. mando-te com este ponto final à tromba, santão malvado. desejando-te, muito sinceramente, urtigas cruas pró jantar.
(h)

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recordo-me dos brinquedos favoritos da minha infância. na escola, ou em casa, fazíamos 5 saquinhos de restos de tecido, cheios de arroz ou massa miúda. e jogávamos com eles como com pedrinhas. as combinações e a sequência dos jogos eram variadas. o grau de dificuldade aumentava com cada jogo. durava horas e era delicioso. lembro-me de estar na praia e levar comigo os saquinhos. para aproveitar os minutos debaixo do toldo e atirá-los ao ar. sozinha ou acompanhada. a jogar ou simplesmente a treinar. e enquanto os rapazes se esforçavam suando com as bolas, as meninas urdiam as suas fantasias domésticas em roda dos saquinhos. havia os bons e os melhores. inventavam-se truques para vencer e disfarçava-se a derrota com uma corrida até ao mar.como hoje.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:31 AM - Comments:


Segunda-feira, Junho 28, 2004

do seu apartamento em Bruxelas avistava-se a sala de estar de um andar, que lhe estava fronteiro. Não conseguindo libertar-se da tentação de ver, espreitar, sentir-se intrusa, olha intensamente para dois homens sentados a uma mesa de jantar, com os antebraços pousados sobre a toalha branca. Olhavam-se fixamente em posição de esfinge. Um tinha os braços mais abertos, com maior amplitude. Não se tocavam, mas dentro dos braços desse homem cabiam os braços do outro homem. não se moviam. no entanto, a mesa estava posta à espera que algo começasse. ou terminasse.
Desviou os olhos da janela. pensou, com alguma melancolia, que uma cidade não é verdadeiramente nossa até se ter amado nela.só as memórias de um amor nos fazem pertencer a um lugar.
miss portugal, textos do baú

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:36 PM - Comments:



Sophie Calle, "the coffee cup"

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Domingo, Junho 27, 2004

Ontem adiara, mas hoje tinha mesmo de ir lá. Pedia ao Pedro para dar banho ao bebé. Ela despachava-se em cinco minutos. Tirou o telemóvel da mala, deixada no lugar do morto. "Olá querido. Estou um bocadinho atrasada. Sim... aquele trabalho de que te falei... bom, ainda não consegui acabá-lo. Podes dar banho ao bebé? Até já. Beijo." Desligou. Virou à direita, depois à esquerda. Era ali. Estacionou o carro. Saiu. Desceu as escadas rapidamente e caminhou ao longo do túnel. Depois de ter experimentado várias, verificara ser aquela a estação de Metropolitano menos frequentada da rede. Olhou para um lado e para o outro. Um homem dormia dobrado sobre a barriga saliente. No mesmo banco sentava-se um rapaz com auscultadores nos ouvidos e o aparelho de CD no colo. Não havia no cais lugar melhor. Maria do Carmo virou-se para a parede e, sem se preocupar com o barulho que produzia, começou a chorar com a testa encostada ao braço. Cinco minutos. Dez. No máximo. IR

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prefiro a leitura vagarosa não submetida à pressão das estatísticas (o português lê em média um livro por ano). não podemos sentir a obrigação de ler, que não seja sustentada pela necessidade real. seria bom lermos um livro importante em cada época da vida, para que nos marcasse e para que, quando o folheássemos sentissemos a vida que passou. mas, como no amor, são necessários muitos desencontros para se viver um encontro transformador. para se encontrar um livro que se nos cola é preciso procurá-lo, ou de novo como no amor, estar disponível para o encontrar. ter a humildade dos fracos para se deixar deslumbrar. não se desiludir com a pequena literatura. ler o que importa. num dia quente e opressivo de junho.
ib

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:25 AM - Comments:


mais uma dica para a outra:
o espírito religioso não é sentimento. às vezes pode haver consolo e conforto ao "sentirmos" a fé, mas a sensação não é fé. este consolo é um mero efeito secundário, que pode ou não acontecer. numa homilia de um domingo distante no tempo ouvi que a fé não é acreditar que se faz milagres. pois até o demónio, que tentou Cristo, sabia que ele fazia milagres. a fé é acreditar que se pode mudar o coração dos homens e sabê-lo como se fosse algo de tão concreto, como uma pedra ou uma cadeira.

miss portugal, textos do baú

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:18 AM - Comments:




Ontem vi o Homem
por detrás do irmão
por detrás do filho
por detrás do amigo
por detrás do artista

Vi o Homem inteiro no seu Lugar

Dentro e fora

Em comunhão com todos os elementos

Nu

uni

verso

Potência máxima

Liberdade total

Ele abandonara-nos para se nos dar
e a sua expressão era a felicidade que há na entrega

A aproximação total do rosto
a revelação da Natureza


mp (podem dizer que sou suspeita mas eu não me importo, na Lisboa 20 estreou ontem uma exposição imperdível de Andrea Martha e António Poppe)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:17 AM - Comments:


Sexta-feira, Junho 25, 2004

Vou ser sincera, fartei-me de pensar-dizer mal do euro2004 pelos milhões que se gastaram e gastam com este desporto, agora rei, em detrimento de tantas outras coisas. Logo após a primeira (e por enquanto única!) derrota fartei-me de pensar-dizer mal da equipa, que são todos estrelas, egoístas e egocêntricas, boas para ovos de frigideira; fartei-me de dizer mal da nossa maneira de ser português, sempre descrentes das nossas coisas, sempre mal-dizentes e derrotistas, mas agora dou os dois braços a torcer atrás das costas, dou não, já dei, com a ajuda do meu "mestre" de yoga torci-os e deitei-me sobre a torção. Doeu até dizer chega, mas já me sinto mais aliviada e com as contas pagas. É lindo sair à janela, numa noite como a de ontem e, de repente, mesmo ali à nossa frente ver a cidade toda como uma só família, uma só cor, uma só vontade, gritar VIVA PORTUGAL!! Perceber que afinal ainda temos bandeira, ainda temos hino, ainda gostamos de dizer alto e bom som que SOMOS PORTUGUESES. Afinal o euro2004 serviu para alguma coisa, os ovos afinal não são estrelados, mas mexidos e nós somos o que somos, mas bem melhores do que nos imaginamos. Claro que o dinheiro para as tais outras coisas continua a faltar, mas há um bocadinho mais de esperança, quero crer.

mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:00 PM - Comments:


servem estes versos para convencer a mulher séria da necessidade dos poemas de amor.

O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.
....................

....................
vem ver-me antes que eu morra de amor - o sangue
arrefece dentro do meu corpo e as rosas desbotam
nas minhas mãos. Da minha cama ouço a tempestade
nos continentes; e já quis partir, deixar que o vento
levasse a minha mala por aí; fiz planos de correr mundo
para te esquecer - mas nunca abria a porta.

......................



Mãe, eu quero ir-me embora - a vida não é nada
daquilo que disseste, quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram -
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Maria do Rosário Pedreira in " O canto do vento nos ciprestes"

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:48 PM - Comments:


Eras um número auspicioso
decimal, par e inteiro
Até que te fraccionaste e tornaste ímpar

mp



Sérgio Taborda

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Quarta-feira, Junho 23, 2004

Si recordaras, amor mío, qué es lo que te aguarda tras las
seguras paredes de la espera.
Si recordaras cómo, y qué cruelmente! el deseo atendido
oculta su puñalada de decepción.
Si recordaras que, una vez que la pasión estalla, el secreto
deja de ser escudo y huída,
no me insistirías para que te mostrara, para que te ofreciera, para que te otorgue.

Sino que te resignarías a sobrevivir dentro de mí en el dúctil
territorio de los sueños, donde todos los modos de
ternura que puedas inventar son permitidos, toda
tempestad música y ningún temor es irrevocable.

Ana Rossetti in Punto Umbrío

Ler poemas de amor em castelhano. depois de conversas tontas sobre aljubarrota, uma boa opção em dias de euro.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:24 AM - Comments:




AULAS DE YOGA
NA LIVRARIA ETERNO RETORNO

Com a professora Conceição Camelo

Horário:
5ªs feiras das 19:30 às 20:30
Sábados das 13:00 às 14:00

Preços:
2 aulas - 45 euros mensais
1 aula - 30 euros mensais

(mais informações ligue para o 967060057)

mp (eu conheço a Conceição desde que comecei a fazer yoga e asseguro que é uma excelente professora)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:22 AM - Comments:


Terça-feira, Junho 22, 2004

Quanto a deus, estamos conversados. É um triste petulante. Daqueles tipos frustrados com a vida que passam o tempo todo a dizer mal de tudo e de todos; daqueles deprimidos com estilo que se forçam a não apreciar nada do que seja popular; daqueles miseráveis que vivem com as costas carregadas de ambições nunca cumpridas; daqueles danados que hão-de morrer a olhar o próprio umbigo; daqueles incompetentes que esgrimem argumentos como quem iça bandeiras; daqueles tristes condenados a uma eterna solidão. Quanto a deus, estamos conversados. Não se trata de acreditar nele ou deixar de acreditar. Sabemos muito bem que só acreditamos realmente naquilo que é uma utopia. Caso contrário não era preciso acreditarmos. Também não se trata de saber se existe ou não existe. Sabemos todo que existe enquanto ideia, conceito, ou coisa que o valha. Se existir de facto, há sempre essa remota possibilidade, deixá-lo existir. Que seja então ele a nos julgar a todos no fim. Não um padreco qualquer, um bispo, uma treta de batina. O deus das religiões é demasiado humano, é tão humano que se deixa representar pelos homens, pela pútridas bocas de alguns homens. Se calhar não é deus, é apenas a forma como alguns o vêem. Não interessa. Quanto a deus, estamos conversados. Não preciso dele, não sinto a sua falta. Estou bem assim. Amo demais a vida para precisar de olhar para outra coisa que não seja a própria natureza. Quero lá saber de deus. Deus separa-nos, não me interessa. Quando estou aflito? Bem, quando estou aflito tento desenvencilhar-me. Não é deus que me vai salvar, pois não? Se tivéssemos todos mais fé em nós próprios... Mas quem sou eu para estar para aqui a dar sermões? Quanto a deus, estamos mesmo conversados. O que me irrita é quando o querem impor. E aquela ideia medíocre de que ele é uma necessidade, um amparo, um consolo. Bardamerda. Qual consolo, qual quê! Consolo é um céu estrelado, uma taça de morangos, um alperce, ameixas frescas, um cacho de uvas, um copo de vinho... Isso é que é consolo. E com tanto consolo aí à mão também te digo uma coisa... deixa-me que te a diga... não entendo como há tanta gente tão mal humorada, como há tanta gente deprimida, como há tanta gente triste, como há tanta gente cabisbaixa. Não entendo de todo. Afinal, resta-nos alguma coisa que não seja sermos felizes? Contentemo-nos com o que somos porque, em boa verdade, jamais seremos grande coisa. A morte há-de vir, mas até que ela chegue não me há-de privar de viver, de existir com vida. Isso sim, é importante. O resto são tretas. Por isso é que eu digo que quanto a deus, estamos conversados. Estamos condenados a ser felizes. Terá isso que ser um drama? Tanta gente tão ambiciosa, tanta tese, tanto doutoramento, tanto futuro, tanta carreira, tanta morte ambulante, tanta beleza. Livres, livres, livres. Livres de sermos o que quisermos. Livres até de querermos não ser ou de sermos nada. Livres. E pronto. Basta. Não deixemos que deus nos separe mais, porque ele separa-nos. Separa-nos da terra, da vida, da alegria... separa-nos, vê bem, do amor. Talvez não seja ele quem nos separe. Condescendo nisso. Talvez seja, como há pouco dizia, a ignomínia de alguns homens que se julgam deuses. Por isso, o melhor é mesmo ficarmos conversados quanto a deus.
(h)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:30 PM - Comments:


A noite tinha uma fenda e quietas salamandras de marfim
As raparigas americanas
levavam moedas e crianças no ventre
e os rapazes desmaiavam na cruz do espreguiçar-se.

São eles.
São eles os que bebem whisky de prata junto aos vulcões
e engolem pedacinhos de coração nas geladas montanhas do urso.
........

Federico García Llorca in "Poeta em Nova Iorque", (1929-30)
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:30 AM - Comments:


Segunda-feira, Junho 21, 2004



A Lisboa 20 Arte Contemporânea vai inaugurar uma exposição de trabalhos de Andrea Martha e António Poppe, " Nu Uni Verso ", no dia 26 de Junho , Sábado, às 16 horas.



mp (as imagens que coloquei em cima são de trabalhos de António Poppe que poderão ver na exposição. A Galeria fica em campo de Ourique, na Rua Tenente Ferreira Durão 18-B, Lisboa)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:16 AM - Comments:


Sexta-feira, Junho 18, 2004

Tal como a macieira entre as árvores da floresta
é o meu amado entre os jovens.
Anseio sentar-me à sua sombra,
que o seu fruto é doce na minha boca.
Leve-me para a sala do banquete,
e se erga diante de mim a sua bandeira de amor.
Sustentem-me com bolos de passas,
fortaleçam-me com maçãs,
porque eu desfaleço de amor.
Por baixo da minha cabeça
ele põe a mão esquerda
e abraça-me a sua mão direita.

Cântico dos cânticos

Parece não haver nada de novo desde esses tempos.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:04 PM - Comments:



João Queiroz

... na derradeira folha, a presença dominante de um espectro de árvore sob um céu morto de azul urgia-nos a conectar a relação total com a natureza quebrada:

Fazer pontes sobre o alcatrão de um lado ao outro do verde

Comer a maça pendente na árvore não num prato branco de enxoval
Como pássaros

Caminhar descalço calejando a sola dos pés a dedilhar

Nunca usar a terra para arranhar o céu

Saber pela toupeira o húmus da palavra que nos escapa

mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:28 AM - Comments:


Quarta-feira, Junho 16, 2004

para se ser poeta é preciso nome para isso. pensei, pensei e dei com um belo e inequívoco nome de poeta. xavier de ourém. não, há melhor. mmmmm. inês alaúde. ainda não é desta. hhhhhmmmmm. catarina inverno. nahhhh. ester mendes. está melhor.
quem me ajuda?
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:42 PM - Comments:


Domingo é o espaço
onde todos cabem
sem lhes ser preciso
fazer vénia ao sol

Acontece então
um homem sentir
a água escorrer
dentro do pescoço
e fazer-lhe um nó
como de gravata

que lhe vai bem
nesse fato inútil
vestido à pressa
para ler o jornal
para matar a fêmea
que o recusou

E se lhe afeiçoa
o fato depois da vingança
e o faz igual
a alguém que dança
.........


"Os corpos vestidos" Luiza Neto Jorge


parece simples escrever assim, não?
ib

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:28 PM - Comments:


pare ele a mãe era uma forma circular. rubicunda, estampada de flores roxas e carmesim. não se amarrotava, a mãe, quando ele a agarrava e os seus braços não chegavam para a cercar. a mãe era macia como malha de seda, cheirava um bocadinho a antigo, aquela mãe-senhora. a mãe era uma casa e um sol grande com dentes espaçados a sorrir do lado esquerdo da folha branca. a mãe queixava-se às vezes da cabeça. chorava incompreensivelmente. as mães só choram com as cebolas, pensava ele. são fortes e falam ao telefone. mentem sem razão: a televisão avariou, o café já não tem gelados, a loja hoje não abre. fora das mães há muito pouca coisa.
ib

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:18 PM - Comments:


paisagens

São outras as paisagens quando alguém
as vê pelas janelas do seu próprio coração ou quando
com esse coração
a própria estrela está comprometida.

Luís Miguel Nava

Magnífico poeta. Fico aliviada quando sabendo que viveu (e morreu) em Bruxelas vejo que essa cidade e a máquina europeia não o conseguiram destruir.E eu, que por lá ando, por vezes, e que não sou poeta sinto-me agradecida e feliz.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:09 PM - Comments:


estive de férias e não quis regressar de mãos a abanar. lá por onde andei encontrei estas engenhocas que nos poderão dar imenso jeito. presentes tribais! da mp



máquina Para aumentar o amor

... é grande como uma casa de 5 andares... trabalha com uma fantasia do amor...mexe-se com fios... puxa-se um fio que depois puxa outro fio... sente-se que não está presa... ela é mágica... ela é grande mas sabe o que sente... as duas pessoas entram... e vêm as luzes que transmitem o amor... consegue aproximar as pessoas... é aberta.




máquina Para as lides domésticas

... tem só 10 cm e faz as limpezas todas... está na parede e quando vê a casa desarrumada ou suja salta para o chão e trabalha.




máquina Mini-escritora

... serve para fazer os trabalhos de casa... anda por todo o lado com um pé no chão, paredes e tecto... tem uma boca, 2 narizes, 4 olhos e 4 mãos (com lápis, borracha, afia e uma caneta)... no peito 2 luzes de correcto e errado (para quando não sabe a resposta)... funciona lá dentro com alguns cérebros de minhoca e 10000 parafusos... só trabalha se colocarmos um papel à frente e carregarmos no on.




máquina Barco Voador

... é um cesto para 5 pessoas que é um salão para voar... uns fios comandam o gás para o balão.

(trabalhos realizados numa oficina de Philip Cabau "Uma engenhoca esquisita", no Centro de Pedagogia do CCB)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:43 AM - Comments:


Terça-feira, Junho 15, 2004

gosto de rapazes castanhos de calções beiges na praia, recostados na areia, curvando-se sem pose. Envernizados pelo sol, olhos semicerrados, piscando-os enigmaticamente na minha direcção. Olhos castanho cheios de mar azul. Olhos ondulantes, que enjoam quem os fita avidamente. Corpos demasiado jovens que me confundem. corpos demasiado conscientes de si. Corpos confiantes, sem passado, rindo estrepitosamente. Aqui, além, por todo o lado, mulheres de bikinis emancipados, ocupam as sombras artificiais manchando a areia em círculos negros e trémulos. Calções beiges a escorrer água atiram-se concentrados sobre o feltro verde e amarelo da toalha, onde repousa "a bola". Os olhos cheios de mar sacodem-se e percorrem com seriedade as linhas desportivas, deixando fora de jogo, a sandes e o sumo.
Uma névoa fria cai sobre todos. Toda a areia se acinzenta e encolhe. entreolham-se as gentes tentando perceber porquê. "Isto passa" sentencia alguém. e logo a praia se espreguiça num rumor de descontracção.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:56 AM - Comments:


Segunda-feira, Junho 14, 2004

«Na Cólera tudo é de diferentes formas e está separado, mas no Amor todas as coisas se unem e se desejam umas às outras.»
Empédocles

A cólera visitou-nos a meio da primavera. Esculpiu-nos a vontade, trabalhou-nos o coração como alguns artistas trabalham a pedra. Logo após a primeira noite ao calor do fogo descoberto, a cólera suprimiu a corrente que nos ligava e separou-nos para sempre. A cólera condenou-nos aos esquemas, às estruturas de borracha, a uma vida de sombra. Quando finalmente cairmos de novo em nós, vislumbraremos a mancha da cólera estendida sobre todos os actos que nos desuniram. Mas ela não é causa, não é motivo. Ela não é intenção nem finalidade. Ela é o que nasce de não nos contentarmos com o real e de nos querermos sempre mais além do que a nossa natureza o permite. Como uma poça de óleo espalhada no asfalto, ela é o que nos mete os pés a derrapar para as margens; como a geada num tapete de mármore, ela é o que nos faz patinar até ao choque final, brutal, corpo com corpo. Até ao sangue. Longe daquilo que algum dia nos terá unido, pode a cólera reinar. E, convenhamos, tem reinado mais do que seria desejável. Porque tem sido táctica de morte. Porque tem sido estratégia de poder. Porque tem-se passeado pelo palco da vida como uma metáfora da morte, bem mais real que a própria morte. Porque tem-se metamorfoseado de astúcia nas bocas dos especialistas. Porque tem sido jogo ao serviço da acuidade económica. Porque, à maneira dos muros que circunscrevem os povos, ela tem traçado a geografia dos ideais sem identidade. Desmoronando o amor, a cumplicidade, a solidariedade, aquilo que nos une, com o talento transbordante dos arautos da miséria. Impõe-se que chamemos à forca a moral da cólera. Essa que amplia o ódio por dentro da fé, transformando os homens em lobos disfarçados de santos; essa que dispõe dos indivíduos, na vida quotidiana, como se eles fossem instrumentos, utensílios ao serviço duma obra que jamais desfrutarão; essa que sujeita a vontade a ideologias afundadas no cínico pântano dos interesses financeiros. A cólera condenou-nos a uma imensa solidão. Estejamos nós desatentos e ela poderá levar-nos, definitivamente, a uma eterna servidão.
(h)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:53 PM - Comments:


a leitura geralmente precede a escrita. E o impulso para a escrita é quase sempre provocado pela leitura. O amor pela leitura é o que nos faz sonhar sermos escritores. E após nos tornarmos escritores, ler os livros dos outros - e reler os nossos livros favoritos - constitui uma distracção irresistível à escrita. Distracção. Consolação. Tormento. E também inspiração.
Susan Sontag, quem mais poderia ser? E você porque escreve?
ib

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:33 PM - Comments:


Quinta-feira, Junho 10, 2004

Em Memória

«Ninguém fala disso, mas faz exactamente 9 anos que mataram Alcindo Monteiro no Bairro alto.»
Lembrado aqui.
(h)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:55 PM - Comments:


Quarta-feira, Junho 09, 2004

Escrever sem levantar os pulsos da mesa. Passear devagarinho os dedos pelo teclado. Não falar. Se me interpelarem aceno com a cabeça. Se me pedirem que seja preciso, que me explique, falo baixinho, com espaço entre as sílabas. Ou então soletro. E não me obriguem a levantar-me. Deixem-me estar sentado, com os pés cruzados atrás. Não atendo os telefones. Que toquem à vontade. Deixarei de os ouvir não tarda nada. Imobilidade. Nada acontece. A mudança? Ilusão. O movimento? Frenesim mecânico. Agora sigo para dentro de mim e fico lá muito quieto. Mais próximo da verdade. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:05 AM - Comments:



O lápis na mão faz peso mas mesmo assim o rapaz escreve com velocidade.

As maças furiosas desejavam encontrar uma árvore para irem amadurecer e começar a ficarem vermelhas.

A árvore furiosa deixa cair fruta.

As orelhas têm inocência quando não ouvem o que não devem.

Uma mão dança em cima de um livro.
Não é o livro que fica colado aos olhos,
são os olhos que ficam colados ao livro.
Não são as mãos que escrevem, são os lápis que escrevem.

O medo faz com que uma pessoa não veja cor.

A lua é cabelo de olhos
O lapis é cabelo de olhos
A lua é lápis e é uma árvore
O cabelo é um olhos de árvore
O desenho e um cabelo de olhos da árvore

Eu e a minha irmã gostamos muito de dançar.

Eu costumo mergulhar quando vem uma onda na minha direcção.

Uma vez eu vi um pobre que pegou e colocou a minha mão no seu coração.
No meu sonho vi um espírito cheio de luz que desaparecia quando me ouvia, falar.
A palavra qualquer faz-me sentir cheia de luz.
Às vezes estou tão farta que até me apetece ir viver para as nuvens.
Se eu fosse mágica punha todas as cores a girar.

Com uma página, podemos ler muita coisa.


mp (textos escritos por um grupo de jovens, com idades entre os 10 e os 15 anos, na oficina "Da imagem à palavra, da palavra à imagem", de António Poppe, inserida num programa de oficinas concebido e orientado por Marcelo Costa, com o apoio do Ar.Co, para o Centro de Pedagogia e Animação do CCB, em Abril de 2002)


postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:04 AM - Comments:


Terça-feira, Junho 08, 2004

"MEU SONHO É TOCAR NA RODOVIÁRIA E NOS BORDÉIS"




(Tom Zé é lindo!!! olhem que maravilha as respostas que ele dá ao pessoal)


Se não há esperança de mudar alguma coisa, para que fazer letras políticas?
Tento manter o ser humano vivo na sua parte cerebral. Isso é mais engajado do que a aparência das minhas letras. A minha teimosia, minha empedernida obsessão de inventar sempre uma coisa ligeiramente diferente, no que resulta? Estou com 64 anos e, todos os anos, canto para os calouros. A sociedade precisa de várias coisas. A primeira é a sobrevivência, o alimento. Precisa que as pessoas façam sexo para nascer crianças. Depois precisa de roupa. Lá, muito remotamente, precisa de um pouco de rebeldia. A sociedade não vive sem rebeldia. É uma necessidade mínima, mas existe. Eu atendo a sociedade nessa necessidade de rebeldia. E quem mais precisa de rebeldia? São as pessoas de 15 a 25 anos. Outra coisa curiosa: por que é que os jovens dos Estados Unidos vêm me procurar? O Sean Lennon, o pessoal do Tortoise (banda de Chicago)... Por que essas bandas vêm me procurar? Por causa da rebeldia e porque, de certo modo, eles estão procurando contato com um avô remoto que eu represento. Represento o avô celta deles, a civilização moçárabe, que foi o povo mais culto da humanidade, do século 7 até o 16. Portugal e Espanha, de onde eu advenho, foram educados pelo povo árabe, pelas influências celtas e pelas influências judaicas. Quando eu nasci, numa espécie de armadilha histórica, não nasci neste século nem no Ocidente, nasci em algum lugar do mundo que não é este, que era o Irará da minha infância, onde estava presente a cultura moçárabe, a cultura celta, a canção árabe. () povo do nordeste da Bahia até hoje dança a chegança, uma dança para a expulsão dos árabes. Eu nasci num povo que ficou isolado naquela região do nordeste da Bahia. Ali deixou de ser alfabetizado, ali deixou de comer proteínas. Passamos quatro séculos sem comer proteína. Quando se recebe proteína, o cérebro começa a funcionar e se recorda de que gosta de atividade, de comparar, de observar, de anotar. Tudo isso sem saber mais o alfabeto. Um povo culto escreve seus livros, bota na biblioteca e vai ver televisão! Mas nós, nordestinos, analfabetos, não podíamos botar nossos livros na estante. Então, tínhamos de viver a cultura, de dançar cultura, de falar cultura e de transmitir cultura oralmente, como a Bíblia durante séculos, como a Odisséia, de Homero.

De que forma você, um filho da classe média, se inseria nesse universo mítico?
Na paisagem miserável das catingas, havia segredos esotéricos codificados. Eu nasci nesse mundo. Antes de entrar no Ocidente, onde entrei por meio do alfabeto. eu tinha um mundo com uma concepção geral, redonda, no qual tudo era atendido no ser humano: a necessidade de cultura, a necessidade de trabalho, a necessidade de diversão. Tinha minha língua, minha visão de universo. E um dia passei a ter a segunda, no dia em que aprendi a ler. Depois de alfabetizado, a professora me mandou ler um texto que dizia assim: 'João levantou‑se". O que já me admirou, aquelas palavras podiam indicar que uma pessoa fez isso. Que coisa mágica era aquela? 'Pediu à professora para ir para casa. A professora deu permissão, e ele saiu andando..." Nossa Senhora! Esses sinais aqui estão dizendo que a pessoa caminhou, eu estou vendo a pessoa andar aqui nessas letras! Como é possível isso? É claro que fiquei assombrado, eu, que era um observador: Pensava: ¿Será que todo o mundo aqui está vendo o que eu estou vendo aqui nesses riscos? Não é possível que esses riscos digam tudo isso!". E foi assim que eu entrei no mundo ocidental, foi nesse dia. Fui para casa e passei a tarde pensando: "Será que isso é mentira?". Duvidei durante muito tempo de que era possível todo o mundo ter a mesma interpretação daqueles sinais que eu tive.

Acredita que o Nordeste da sua época não era Ocidente?
Nisso eu não preciso acreditar. Leia O Homem, a segunda parte de Os Sertões, de Euclydes da Cunha, abra qualquer página de Guimarães Rosa, de qualquer conto dele, que você vê que o Nordeste - e por acaso também os Gerais, onde Rosa viveu, teve a mesma experiência de trabalhar na loja do pai que eu também tive -era outro mundo. Foi na loja do meu pai que aprendi a falar a língua que se fala nos livros dele. Na universidade, uma amiga minha, leda Machado, me disse: "Tom Zé, você anda dizendo que lê Guimarães Rosa? Mentira sua! Você não lê uma palavra daquele livro, aquilo é coisa de intelectual". Fiquei mudo e fui para casa me perguntando: "Quer dizer que a língua da minha infância, do balcão da loja, é a língua de intelectual?". É claro que isso me dá uma certa riqueza interior da qual tenho muito orgulho.

Essa sua imagem do sertão medieval lembra muito a idéia dos armoriais (movimento cultural liderado por Ariano Suassuna que busca as raízes medievais da cultura do sertão nordestino).
Mas eu sou um apóstata herege e agnóstico, e os armoriais são praticamente presbíteros religiosos e tratam isso como se fosse o sagrado. Eu uso a armorialidade para desrespeitar o mundo moderno, não uso para tentar conservar o mundo armorial. Sou como um louco desvairado que pega uma bomba e sai borrifando todo o mundo de protema. Eu sou um Dom Quixote borrifando a humanidade de proteína.

Você lê muito?
Meus tios queriam fazer os Estados Unidos falir. Por isso, me proibiam, quando criança, de tomar Coca‑Cola e de ler quadrinhos. Era para tomar o refrigerante de lá da Bahia, guaraná Fratelli Vita, para não mandar o dinheiro para os Estados Unidos. E, quanto aos quadrinhos, eles diziam que, quando se vê desenhado, não se treina a imaginação. Isso está provado que é uma tese errada, mas criou o hábito da leitura de livros, que não é um hábito ruim também. Sempre vivi perto de livros. Isso me ajuda a compor. Música não me inspira, me inspiram outras linguagens O Mikhail Bakhtin descobriu uma coisa que ele chamava de dialogia ou polifonia, que depois a crítica de arte, escritora e psicanalista Julia Kristeva, nos anos 60, chamou de intertextualidade, que é a possibilidade de um conjunto de signos que formam uma linguagem, verbal ou não-verbal, ser traduzido em outro conjunto de signos. Isso em semiótica se chama tradução intersemiótica. Eu gosto de trazer uma coisa que foi trabalhada num outro campo de signo para a música.

Você passou a beber Coca-Cola depois que saiu da casa de seus tios?
Eu me lembro do dia em que tomei a primeira Coca-Cola. Foi numa festa em Irará, era uma novidade; vinham aqueles engradados, não se sabe de onde, e serviam Coca-Cola a 20 reais, cruzeiros ou o que seja, quente. Eu tomei duas.

Com essa educação antiamericana, como você entrou em contato com o rock'n'roll, que é uma influência clara, principalmente nas músicas do início de sua carreira?
Um dia, em 1956, matei a aula e entrei no cinema Excelsior, na praça da Sé, em Salvador. Começou um filme, que eu não sei qual é o nome, no qual Bill Haley abria cantando Rock Around the Clock. Nossa!, eu chorei naquela cadeira, estremeci, era uma coisa igual à Fonte da Nação, que eu vi em Irará quando era criança. Aquele espetáculo das pessoas todas lavando roupas ali embaixo. Um gramado extenso do lado direito, onde todas as roupas da cidade estavam estendidas, todas aquelas cores. Os aguadeiros iam lá pegar água. Era água de beber e cozinhar. E as lavadeiras da cidade lavavam roupa ali embaixo. Quando eu vi essa loucura, fiquei ali alumbrado. Aquela luminosidade do Nordeste, que deixa tudo ser visto com grande clareza. E aquilo tinha som - "Meu divino São José..." -, aquelas mulheres com aquela voz muito aguda -'A mulher do cego morreu..." -, e os homens todos cantando junto, aquelas vozes muito fanhosas. A primeira vez que ouvi Rock around the Clock pode se comparar a isso. Essas inaugurações...

Com o avanço do tempo, a gente ainda passa por essas inaugurações?
Ah, passa.

(Leiam o resto da entrevista aqui)

mpouvindonojardimdapolítica

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Segunda-feira, Junho 07, 2004

O baptismo não nos determina, mas condiciona-nos. Marca-nos a alma, estigmatiza-nos, empobrece-nos, porque nos inicia, pela vontade dos outros, num mundo que nos é alheio. O baptismo, seja ele qual for, separa-nos. Compromete-nos sem pano para dúvidas, engaja-nos, encaminha-nos para a servidão. O baptismo é uma estratégia que, a funcionar, consubstancia a ideia duma delimitação do espírito, corrompendo a natureza criativa do homem ao mesmo tempo que lhe penetra as forças do desejo para o subjugar à tirania dos axiomas farpados. O baptismo é uma forma não declarada de mecanização do pensamento, dos sentimentos, do ser. À maneira dos serviços municipalizados, o baptismo faz dos homens o lixo que se recolhe para a reciclagem; traça os contornos que os localizarão no mundo, promovendo a comunhão do servilismo, da obediência cega, da sujeição incondicional. É pelo batismo que se activam posturas, maneiras de ser e estar no mundo; é pelo baptismo que se monografam universos, traçando a geografia dos deveres fundamentais, dos pecados mortais. O baptismo separa-nos, ainda que pretenda revestir-se do contrário. Não é pelo baptismo que se unem os homens, porque nunca os homens se unirão sob o jugo de uma realidade que lhes é exterior, estranha e, por isso, ¿relativizável¿. Nunca os homens se unirão sob o tecto do medo, da angústia, da perpetração das condenações, das danações, das excomunhões. O baptismo obscurece a dimensão verdadeiramente humana dos indivíduos: a contradição ¿ usurpando-lhe todo e qualquer valor, reduzindo-a a um condenável absurdo, fazendo dela um alvo contra o qual todas as máximas ¿ensoberbadamente¿ autoritárias devem ser disparadas. O baptismo entorpece o que há de mais rico nos homens: a sua expansividade criativa ¿ procurando conflui-los para as lagoas apodrecidas da uniformidade.
(h)

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antes da revisão só um beijinho para a miss que ontem se encharcou ao meu lado a ver a II parte de "La Meglio Gioventù". eu, confesso, também chorei, mas a miss ainda hoje tem os olhos inchados. precisa dos nossos beijinhos.

mp

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por vezes há que parar. para que saia qualquer coisa. mesmo o gesto mais simples, escrever sobre um teclado, torna-se complicado. é como se as mãos suportassem o peso todo do corpo não permitindo a libertação dos dedos. uma quebra de corrente. . . . . . . . . . . . . . . levar o corpo à revisão dos 36 anos.

mp

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Quem cresceu ao som de Rita Lee já deu flagra sim!!!!

Flagra
No escurinho do cinema
Chupando drops de aniz
Longe de qualquer problema
Perto de um final feliz
Se a Deborah Kerr que o Gregory Peck
Não vou bancar o santinho
Minha garota é Mae West
Eu sou o Sheik Valentino
Mas de repente o filme pifou
E a turma toda logo vaiou
Acenderam as luzes, cruzes!
Que flagra!
Que flagra!
Que flagra!

(Roberto de Carvalho e Rita Lee)

mp (e não é que a senhora Lee vem aí!)

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Sexta-feira, Junho 04, 2004



mp (ontem eu e a miss portugal fomos ver a primeira parte de "A melhor Juventude", "La Meglio Gioventù" de Marco Tullio Giordana, não percam, estará no King, pelo menos por mais uma semana. O filme está dividido em duas partes de 3 horas cada uma. No King eles optaram por passar um dia cada parte, julgando que ninguém aguentaria vê-los de seguida, com um intervalo para um café. é pena, porque ter de esperar pelo dia seguinte custa muito mais.)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:51 AM - Comments:


Quinta-feira, Junho 03, 2004

A arrogância com que algumas bocas comem o ar, isso separa-nos. E a arrogância que cega certos olhos que teimam em não ver para lá da própria sombra. Isso separa-nos. Em algumas pessoas, a arrogância acompanha o crescimento do corpo. Mistura-se com os músculos, com os ossos, com o sangue, transforma-se na própria pele de todos os dias. A arrogância pode ter dentes de sabre, mas é bom que saibamos que quase sempre ela tem dentes de caniche. Gosta de brincar às escondidas com uma humildade de falsete e não raramente desflora as pequenas virtudes dos homens, militando nos meridianos da vaidade e nos anfiteatros da hipocrisia. A arrogância é a liturgia preferida dos débeis de espírito. Porque lhes proporciona uma falsa sensação de superioridade. No fundo, trata-se de uma defesa, de uma forma de proteger um lugar, de um desgovernado governo das frustrações basilares. A arrogância desfila por dentro dos ministérios do poder, é verdade. Mas também aprecia os fracos, gosta de se promover por dentro do vazio. É aí que ela ganha o rosto do ridículo, enquanto nos ministérios do poder ela guarnece-se de inumeráveis justificações. A arrogância separa-nos, segrega-nos, atira-nos para lados opostos, porque cresce por entre os homens como um escudo que os protege da sua natureza frágil. A arrogância separa-nos enquanto arquitectura do menosprezo e sabe autoreproduzir-se, como um vírus inexorável, por dentro do alimento das certezas. Aqui e ali, a arrogância aparece amiúde metamorfoseada de competência; lá ou acolá, ela reveste-se de soberba. Muito raramente não é representada pelos apóstolos do fanatismo, com seus ideais de ferro, intocáveis, com seus axiomas, sem vacilação, estabelecidos na distância que separa a realidade da verdade. Daí que não seja de admirar o carácter persuasivo da arrogância, a mestra da retórica. Muitas pessoas preferem embarcar no discurso da arrogância porque o confundem com força, com convicção, com verdade. Quando, em boa razão, um discurso da arrogância desmorona-se tão facilmente como um castelo de cartas ao vento. Bastará perceber para que lado sopra o vento.
(h)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:25 PM - Comments:


Escovou a carpete da sala. De cócoras. Com a pá de ferro numa mão e a escova de cerdas amarelas na outra. Às arrecuas. De vez em quando levantava a cabeça para olhar a carpete azul. Parecia-lhe um oceano absolutamente calmo. Nem um pêlo se levantava. Terminou o trabalho. A carpete ocupava quase todo o espaço da sala. Restava uma faixa de soalho. Ali, ela encostou-se à parede e fez a ponta de um pé tocar no calcanhar do outro. Abriu os braços, para facilitar o equilíbrio. Se quisesse chegar à porta teria de pisar a carpete. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:21 AM - Comments:


o fascinante mundo da bedê



Didier Comès

«Je voulais illustrer le problème de l'incommunicabilité, et plus précisément de la méfiance instinctive à l'égard des gens "différents", méfiance qui débouche souvent sur la violence. Personnellement, j'ai toujours éprouvé une forme de tendresse envers les êtres marginaux, quels qu'ils soient. Peut-être parce que moi aussi, je me range dans cette catégorie. Le seul fait d'aimer le jazz, dans un petit village aux moeurs assez rigoristes, passait, sinon pour une perversion, au moins pour une bizarrerie.»
Propos recueillis par Thierry Groensteen pour les cahiers de la bande dessinée n° 55.

mp (o Boemius lembrou-me o Moebius e o Moebius lembrou-me o Comès. Quando li o primeiro álbum do Comès não descansei enquanto não encontrei todos os outros. fiquei fascinada pelas pranchas, pelas histórias e, principalmente, pela personagem "Silêncio")

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:46 AM - Comments:


uma das coisas maravilhosas da vida é descobrir o que ela nos guarda ao virar da esquina. Porque há sempre mais qualquer coisa que nos aguarda. Andar assim, despreocupada, pela cidade, com os braços soltos, sem destino, não esperando nada, não procurando nada e, de repente, esbarrar de frente contra uma voz, a voz do Milton, por exemplo, dizendo maria maria. Esse hino à mulher escrava do interior do Brasil. Essa voz, esse hino, chegando não sei de onde, ontem encheram-me o dia. Ouvi-os a tarde toda, levei-os comigo para todo lado nuns auscultadores portáteis e não sei do que gosto mais, se da voz a dizer a história, se da história, se do simples trautear lálárálá lá lá ei. maria maria, um simples nome de mulher, corpo negro de macios segredos, braços fortes trabalhando o dia, uma pessoa que aprendeu vivendo e nos deixou a verdadeira sabedoria, a dos humildes, dos sofridos, dos que têm o coração maior que o mundo. nasceu num leito qualquer de madeira, ainda nem andava e já suas mãos ganhavam os primeiros calos de trabalho precoce, infância sem brinquedos mas cheia de jogos aprendidos com as velhas que lavavam a roupa nas margens, infância que acabou cedo, pois já aos 14 anos, como é normal na região, ela estava casada. do casamento ela se lembra pouco ou não quer muito se lembrar, homem estranho aquele a lhe dar balas e doces em troca de cada filho. os filhos se amontoavam nos quatro cantos da casa. Solidária, solitária, gente que trabalhando em toda a hora do dia conserva em seu semblante toda a pura alegria, lálálá ria lá a láláiéréré ..... Ouvindo Milton relembrei parte do poema de Herberto Helder a todas as mulheres dos campos, os seres fundamentais que cantam de encontro aos sinistros muros de Deus. Mulheres árvore, fruto, baga, para quem o trabalho árduo não foi suficiente para matar a alegria. A verdadeira sabedoria dos humildes, dos sofridos. Gente que vai sofrendo e que quanto mais sofre mais sabe. E mais nos ensina a não perder esse semblante da pura alegria.

mp (os excertos do Milton foram tirados do álbum maria maria/ultimo trem, acabado de sair. Podem ouvir partes de algumas músicas aqui:

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:13 AM - Comments:


para o cão do (h) que de vez em quando tb fareja o blog, para que não fique com ciúmes do dono, sem nada que comer!

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:11 AM - Comments:


Quarta-feira, Junho 02, 2004

que mais pode um pai dizer a um filho

poema de um leitor deste blog quando ainda tinha 19 anos e já uma filha no colo:

"...
Escuta o que digo
e nunca me oiças:

         Imagina apenas
         que a nossa existência
         é o nosso abraço único

E
não permitas
que abandone o Sonho:

         Prescindir
         de mim
         no Teu encontro"


mp (obrigada Artur e já consegui respeitar o grafismo do poema, excelente esta aula de html, fazia-me falta para outros poemas! assim já posso alargar as minhas brincadeiras! e os braços deram imediatamente lugar ao colo, que é mt mais pai-mãe!)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:43 AM - Comments:




intervenção de Cristina Robalo numa montra das Caldas da Rainha durante o Caldas Late-Night


postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:37 AM - Comments:


Terça-feira, Junho 01, 2004

na sua frente dois catálogos. pintura cinza e negra. tons que não são cores, mas só tons. casas, janelas a abrir para as nuvens, portas entreabertas e uma sensação de conforto. ficou preocupada. sentir-se confortada numa casa de paredes cinzentas, onde as luzes se reflectem numa piscina de águas cor de cinza entre arbustos que há muito perderam o verde e são apenas sem cor? a pintura de valdemar santos tinha um sofá encostado a uma janela rasgada e cinzenta escura, de onde se descobriam nuvens claras entre um céu cinzento, que não de tempestade. um sofá onde apetecia estar sentado. ela entrou na pintura, não pediu licença para se sentar, cruzou as pernas e instalou-se. iriam ver como ficaria bem no quadro. a camisa cor de cereja manchou o sofá, espalhou-se pelo chão. ajeitou as pernas vestidas de linho cru. o branco das calças derramou-se pela janela. era escusado. tinha estragado a pintura.
lembrou-se então do segundo catálogo. fotografia de um céu azul escuro de borrasca cortado por uma árvore acesa por relâmpagos. os ramos incasdesciam, o tronco ardia no céu. virou a página e leu marta sicurella. essa agora. outra marta. hoje sentia-se marta. nada de misses, por favor. só marta.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:50 AM - Comments:


A partir de hoje ficámos com a intimidade do (h). Ficámos afectados, que é o mesmo que dizer infectados de afecto. E para lhe retribuirmos, o afecto, fomos procurar algumas coisas para lhe dar, presentes:

um desenho

Ana Hatherly


uma voz
http://www.magpictures.com/distribution/bukowski/


um poema
"...
E eu desejaria levantar-me levemente
sobre as paisagens que se enchem de chuva apaixonada.
Desejaria estar em cima, no meio da alegria,
e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse
a melancolia da minha inocência.
Tanto desejaria ser destruído
por um lento milagre interior
..." de Herberto Helder


uma promessa de voo ...

Helena Almeida


uma tribo



algo do que nos une

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:51 AM - Comments:



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