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Palavras da Tribo
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As primeiras, as segundas e todas as palavras Quarta-feira, Março 31, 2004 Nunca conhecera um homem pedra de carne e osso. Sempre imaginei Rodin um desses homens. "... alguém de muito forte, um ser de acção que, em vez de falar, fizesse, e fizesse sem parar...", nas palavras de Rilke para Lou. Mas houve outros, Giacometti, Chillida, ... Finalmente conheci esse homem. Fico-lhe a olhar as poderosas mãos, o volume dos braços, ombros, tronco. Fico a imaginar a quantidade de pedra bruta que já carregou às costas. Quando o vejo de frente, uma muralha ergue-se em direcção ao céu. Sentimo-nos totalmente seguros, como se tudo pudesse desabar e mesmo assim não morreríamos soterrados, alguém nos protegeria os flancos. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:55 PM - Comments: Terça-feira, Março 30, 2004
Helena Almeida É uma mulher linda. De vestido justo, da cintura para cima, de vestido largo, da cintura para baixo. Com uma mão segura uma ponta do vestido, como quem vai atravessar um ribeiro e não quer molhar a roupa. A barriga das pernas bem saliente marca-lhe o tempo que passou de pé. A leveza da figura vence todas as marcas. Quantos anos terá? Mais de setenta, responde-me o cabelo branco. Diria que o seu caminho é uma pista de descolagem em que a derradeira queda é para o alto. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:15 PM - Comments: ESTE POST É UM COMENTÁRIO postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:44 PM - Comments: arrumar a casa. arrumar a cabeça. começa-se pelos papéis que estão em cima. serão para o lixo ou para guardar? Em caso de dúvidas lê-se o que lá está escrito. E fica-se a ler. e pensa-se e escreve-se e não se arruma.arranjar uma cabeça arrumada para arrumar papéis. comprar papéis auto-arrumantes. alugar uma cabeça que pense, arrume, mas não leia. contratar uma cabeça que não pense, nem leia e que não saiba sequer arrumar. atirar aos céus os papéis e a cabeça. viver de cabeça no ar, como um peixe desejaria fazer e não pode. viver no ar, entre nuvens desarrumadas. desistir. continuar. ter dor de cabeça. mexer nos papéis. tocá-los um a um. deixá-los voltar a casa. caminharem para os respectivos lugares. certos do seu arrumo. contrariando a vida. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:36 AM - Comments: Segunda-feira, Março 29, 2004 Naquele tempo de dantes não havia limites para ser Se a gente falasse a partir de um córrego a gente pegava murmúrios. Não havia comportamento de estar. Urubus conversavam auroras. Pessoas viravam árvore, pedras viravam rouxinóis. Depois veio a ordem das coisas e as pedras têm que rolar seu destino de pedra para o resto dos tempos. Só as palavras não foram castigadas com a ordem natural das coisas. As palavras continuam com seus deslimites Manoel de Barros, o encantador de palavras mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:50 PM - Comments: o microfone era uma garrafa de plástico vazia. diga-me lá, minha senhora, o que é que faz? Como é difícil explicar a crianças de 5 anos a nossa vida. pior ainda, como torná-la interessante? depois de muitas palavras e acenos entusiásticos percebi que tinha contado uma história que em pouco se assemelhava à minha vida. mentira? talvez.o que importa. ficaram felizes. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:59 PM - Comments: com uma amiga que não via há muito. cujos encontros são suficientes para preencher a distância/ausência. é que há encontros que transformam. e para engolir as transformações é preciso tempo. não dá para estarmos sempre a arranhar a pele a ver se sangra. que cicatrize e depois se verá. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:55 PM - Comments: 3 Tenho culpas de estar só no meu próprio esquecimento. Abro a esmo um poema de Seamus Heaney: we are earthworms of the earth... Fecho o poema. Os poetas devem ler-se como quem chuta seixos na praia. Levanto-me para mais uma espera, mas não caio em mim. Em que outro lugar vimos caminhar aquelas delongas e fugidias cicatrizes? Quando saímos da cidade e fomos viver para o campo jurei nunca mais pensar nestes modos. Mas entretanto a barba cresceu, criou omichão e eu fiquei sem saber para que lado voltar os dedos: se para o grito, se para a fome. E no campo há tabernas com putas. Sempre houve. Por hoje pagarei apenas um último copo de aguardente. Depois sairei para a morte, we are earthworms of the earth... Atravessarei a ponte, como faço em todos os regressos, sem tentações de mergulhar. (h) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:06 AM - Comments: Sexta-feira, Março 26, 2004 Abriu os olhos. Eram três horas. Ontem também tinham sido três horas e anteontem e na noite antes daquela e na que a antecedera. Agora que pensava nisso, tinham sido três horas em todas as noites das últimas duas semanas. Olhou outra vez para os números verdes a piscar no rádio e levantou-se. Descalço, caminhou pelo corredor até à casa de banho. Sabia que estava a proceder bem, que assim ficaria em segurança. Não sentia angústia. Encolheu-se ao primeiro contacto com os ladrilhos, mas habituou-se depressa. Virou-se para a direita, encostado à banheira. Adormeceu de novo, tranquilo. Na noite antes de serem três da manhã estava demasiado bêbedo. Como havia de lembrar-se do que tinha dito a Lídia? Que a morte chegava entre as três e as seis e apanhava a gente na cama. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:55 PM - Comments: Quinta-feira, Março 25, 2004 Cada vez acredito mais que não se deve forçar nada. Há uma energia própria nas coisas que as leva de súbito a revelarem-se sem que tenhamos de intervir. Há uma leveza nesta revelação contra a qual o nosso esforço nada pode. Somos leves penas ao sabor de um Vento Maior. Deixemos que a dança aconteça. Deixemo-nos conduzir. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:42 PM - Comments: Há autores absolutamente imprescindíveis. Albert Cossery. Passei por ele tantas vezes na ler devagar, mas só ontem estiquei o braço para o agarrar. Passei a noite e o dia a lê-lo, por isso ainda estou meia embriagada. Ofereço-vos um trago: ... Mas como arrancar-se àquele homem adormecido? Como deixá-lo ali, sozinho contra a perigosa presença das coisas? Enquanto dormisse não podia abandoná-lo ao seu destino. Até no sono se sentia ligada a ele... Ele trazia consigo o calor de todos os dias quentes. Areia ardente. Ela debruçava-se por cima dele como sobre um deserto... Era a alegria, a suprema alegria da carne viva e livre... Ah! Poder dar-lhe tudo para que fosse feliz. ("A rapariga e o haxixe", de "Os Homens esquecidos de Deus", Albert Cossery) mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:28 PM - Comments: Quarta-feira, Março 24, 2004 para a Maria Zambrano, - Rasgo o peito, enfio fundo o dedo e descubro uma pequena clareira. Vou-te tentando explicar o caminho. Passo a passo para que não tropeces em nenhuma artéria. E pressinto que chegaste quando o doutor me diagnostica um aneurisma: "- É a primeira vez que vejo as cavidades de um coração tão dilatadas!". Explico-lhe que as expandi para caberes em mim e ele expulsa-me do consultório acusando-me de suicida. Que palavra tão feia para o amor! mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:48 AM - Comments: ![]()
Post Mortem II Soube hoje pela montanha mágica que este ano faz 100 anos que Maria Zambrano nasceu (22 de Abril de 1904). No cemitério de Velez-Málaga, pueblo onde nasceu e onde descança entre uma laranjeira e um limoeiro, está inscrita na sua lápide a legenda: Surge amica mia et veni. Uma frase que nos rompe caminho para a clareira no bosque. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:28 AM - Comments: Terça-feira, Março 23, 2004 Hai-kê? Almoçávamos e era domingo e disseste: "Domingo depois do almoço já é uma depressão" Nunca mais almoçámos ao domingo. pc-ao-PC postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:12 AM - Comments: NA MINHA FAMÍLIA NINGUÉM MORREU DE AMOR (a partir de alguns poemas de Wislawa Szymborska) 23:30. Levanto-me. Paro. Escuto a noite dentro do silencio da casa. Tenho a certeza que todos dormem e dirijo-me ao armário para me vestir de novo. Um vestido preto. Um casaco preto. Uns sapatos pretos. A mesma roupa todas as quintas-feiras. Era o meu dia, ou melhor, a minha noite. A minha hora dentro da noite de um dia. Antes de sair retiro de uma caixa de chapéus antiga o meu outro cabelo. Um cabelo negro como a roupa e liso como o de outras. Saio. O destino, uma casa de fados. Uma entre as muitas que habitam o bairro mais alto do sonho. Chama-se isso mesmo "A Casa do Teu Sonho". Entro na antecâmara. O porteiro cumprimenta-me: - Olá Rosa. - Olá K. Aquele não é o meu verdadeiro nome. K não é um verdadeiro porteiro. - A casa está cheia. Devias aceitar o convite do gerente para cantares mais vezes. - Não posso. Tu sabes que eu não posso. Tenho a minha outra vida que me tem o tempo. - Veio um grupo de japoneses de propósito para te ver. - Vêm por pura curiosidade, a vida é a única ocasião para a satisfazer. Cala-nos a voz do gerente a trespassar a cortina gasta de veludo escarlate - Rosa despacha-te é a tua vez de entrares. K tu és mesmo um porteiro inútil, o teu trabalho é fazer as pessoas entrarem na casa, não em ti. - Deseja-me boa sorte. - Boa sorte Rosa. Dirijo-me ao pequeno camarim. Não é realmente um camarim mas uma casa-de-banho com umas lâmpadas mais. Pinto-me. Há uns anos atrás não precisaria, mas aos quarenta e sete é a pele que nos pede ajuda. São os olhos. É a boca. Penteio-me e bebo de um trago uma malga de vinho para afogar o medo. A transformação estava completa. Podia entrar. Ao fundo já ouvia as palmas e, a atravessá-las, a voz do gerente a anunciar o meu nome. Rosa. "Rosa Enjeitada" era o fado que me esperava. Entro. Os meus acompanhantes, sempre os mesmos, piscam-me o olho ternamente. - À guitarra portuguesa .... à viola .... no contrabaixo ... Não distinguia o público, mas sentia-o, inalava-o. De todos os sentidos só o tacto e a visão me escapavam. Fiz a minha saudação com a cabeça. E as palmas. Sempre as palmas. A minha gratidão era imensa. Naqueles momentos sentia-me capaz de me apaixonar por cada um. De pertencer a cada um. De me entregar um a um. Era deles e eles sabiam-no e, ao baterem com uma mão na outra, eram meus naquela vibração. E a voz a querer sair. E a voz. A implorar-me para sair. E o silencio. O respeito pela voz. Era o momento da voz preencher o espaço de cada um num tempo fora do tempo de cada um. Uma voz que já não era só minha mas do encontro. E uma nuvem de enamoramento cobria-nos a todos. Músicos. Público. Só K ficava de fora. Porque nesse preciso momento abandonava a casa e ia-se sentar no café ao lado a fumar todos os cigarros que a hora permitia. Quando chegava ao último, o número era sempre igual, ele já sabia que podia voltar. Mas isto só o soube hoje. Hoje, quando o gerente me despediu escorraçando-me dali, da "Casa do Teu Sonho" e me atirou um pequeno caderno. Quando me vi dali para fora, daquela que tinha sido a minha casa por catorze anos, não verti uma lágrima. Enquanto rosa suporto sempre mais um espinho no meu caule estreito. Mas assim que abri o pequeno caderno azul. De imediato as lágrimas começaram a escorrer em espiral e foi um choro avassalador aquele que se me assomou. Era K que me falava. Dizia-me "estou perto demais para que tu sonhes comigo". "poderás reconhecer-me mas nunca eu te conhecerei". "mesmo que te barre o caminho. mesmo que te olhe fundo nos olhos. passas por mim à beira de um abismo mais fino que um cabelo". Onde estás agora K para me abrires a porta da tua noite? Hoje não cantei. Hoje não consegui cantar. As palavras daquele fado já não significam nada. Não quero ser mais Rosa mas M. M. M. E calei a voz dentro de mim. Onde estás agora K para me abrires a porta da tua noite? Olho para o café ao lado da casa e vejo-te. Vejo o teu olhar calado. Triste. Caído. A tua mão a levar à boca o cigarro. Em câmara lenta. Até que deitas o que dele resta no chão. Pisa-lo. E sais com as mãos enterradas nos bolsos do teu blusão preto. Não te diriges à casa. Viras para o lado oposto como que resolvido. Eu sigo-te os passos. Primeiro mais apressados. Depois mais lentos, mais lentos, até que te voltas para trás e o movimento é tão brusco que eu não tenho tempo de parar e a minha cara embate na tua, as nossas bocas tocam-se ao de leve e tu dizes o meu nome com um sorriso que eu nunca te conhecera. Um sorriso rasgado até aos últimos molares. A tua boca toda a sorrir, os teus olhos todos a sorrir. As tuas mãos enormes envolvendo as minhas como um abafo. E eu sei então que o nosso tempo chegara. No teu sorriso. Na nossa família ninguém morreu de amor...ouvira-o de minha avó. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:33 AM - Comments: Segunda-feira, Março 22, 2004 então por cá? perguntou ele a esconder a voz de falsete. é verdade, respondeu ela. não havia modo de refutar a realidade. já está melhor? continuou ele. sim, bastante melhor, disse ela fixando-o nos olhos. pode ficar em casa mais uma semana se quiser. estamos com pouco trabalho. aliás temos de falar sobre a falta de trabalho, não acha? ele persistente. como quiser, mal se ouvia ela. então até logo, sorriu ele. toma café? adiantou-se ela, com um minúsculo copinho de plástico a fumegar. não, sabe bem que não, ele altivo. vá lá, só hoje, insistia ela ousada. como? ele sem entender. para festejar o meu regresso, ela aproximando-se. não seja assim, ele a recuar. não faça isso. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:08 PM - Comments: porque todos os dias devem ser dias de poesia Sobre uma parede de rua onde estava escrito QUEM AMA SOFRE, LUÍS alguém escreveu, falta luz onde há medo o poema nas esquinas coxas dos dias o poema falta amor onde há sede o poema mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:16 AM - Comments: Palavras Palavras para mim Para ti Palavras de sorrir Palavras de lembrar Para voltares Quando quiseres As palavras vão dizer Que bom Os gestos abraçarão Beijarão E o amor vai amar. Zelim@ postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:04 AM - Comments: Domingo, Março 21, 2004
Christian Boltanski Monument Odessa, 1991 Mixed media post mortem (se há artista que não nos deixa a memória em paz ele é Boltanski. lembrar. lembrar. lembrar. nunca esquecer. nunca perder de vista. quando eu morrer, para além de querer ir de burro, gostaria de um monumento como os de Boltanski junto ao corpo, poderia ser uma pequena caixa com algumas fotografias e pequenos objectos pessoais como as que vi num cemitério em Singapura e que Boltanski fotografou) mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:29 PM - Comments: Sábado, Março 20, 2004 2. As pessoas olhavam-se como se tivessem os ossos a descoberto. Algumas putas, imiscuídas na multidão, serviam-se da distância para fazerem negócio. Havia quem exibisse um sorriso naquela montra de apetites travados. Um pintor na sobrevivência celebrava a vaidade da clientela numa caricatura esboçada a carvão. Polaróides de lugares já inexistentes, imagens de um tempo que nos escapou ao espanto como as enguias nas mãos. Peregrinações desalinhadas urbi et orbi. Negociei, sentado entre o passado e o futuro, um post scriptum para um postal que quereria conclusivo: ouvi dizer que Kafka andou por aqui. Os lábios colaram-se-me à chávena de café. Os dedos tremeram. Havia um grupo de turistas arruinando lembranças e um quarteto de cordas interpretando a solidão dos aglomerados. Podia ter sido bonito, não fosse a ideia insistente de ir para a pensão coçar as virilhas até me sangrarem as unhas. E deixar o post scriptum para depois. (h) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:58 PM - Comments: Sem querer fazer qualquer juízo de valor sobre a manifestação organizada hoje em Lisboa contra a guerra e o terrorismo, pergunto-me porque é que a temática dos sem-abrigo e de todos os mal amados da nossa sociedade não tem tanto sucesso? Isto porque o largo de Camões, depois da manifestação dispersar, ficou quase vazio, impossibilitando a organização de um cordão humano pelo qual passasse a chama da solidariedade para com a população de rua. Isto porque o Congresso da Cais, que decorreu ontem e hoje em Lisboa, sob o tema "Gostar de Si - O lugar do amor numa economia liberalizada", não conseguiu encher o auditório onde decorria, e o tema não podia ser tão actual e deveras importante. Há qualquer coisa de irónico no meio disto tudo, ou não há? mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:18 PM - Comments: Hoje à tarde, na festa da Cais, reencontrei o JM. Um dos participantes mais assíduos e entusiastas das oficinas da Cais em Marvila. Fiquei contente por revê-lo, fazia 3 semanas que as oficinas tinham terminado (temporariamente, felizmente) e que não o encontrava. Debaixo do braço trazia um bloco de desenho A4. Tinha estado toda a manhã a desenhar, o casario, uma cigana que pedia nas escadas da igreja da Encarnação. Disse-me que tinha descoberto no desenho uma forma de ocupar os seus dias. Seria bom que todos os que colocaram em causa a utilidade de oficinas de artes para pessoas de rua conhecessem o JM. Seria bom que lhe perguntassem porque é que ao em vez de comida, roupa ou medicamentos, gastara hoje o pouco dinheiro que tinha em material de desenho. Gostaria de ouvir a sua resposta. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:51 PM - Comments: Quarta-feira, Março 17, 2004
3º Congresso CAIS GOSTAR DE SI O lugar do Amor numa economia liberalizada Dias 19 e 20 de Março de 2004 Fundação Luso-Americana Rua do Sacramento à Lapa, 21 Lisboa 3ª Night Out CAIS, a festa da rua GOSTAR DE SI Dia 20 de Março de 2004 Praça Luís de Camões PROGRAMA: A partir das 17H00 Feira da Solidariedade Gastronomia, artesanato e animação de rua Pedido de ajuda: Durante a Night Out a Cais irá realizar um cordão humano, onde passará a chama da solidariedade com a população sem-abrigo e outros grupos excluídos, entre o Cais do Sodré e a Praça Luís de Camões, e será acesa uma fogueira, símbolo desta festa CAIS. Passem a mensagem. Quem estiver interessado em participar neste cordão, o ponto de encontro será às 18 horas, na Praça do Camões, dia 20 de Março, Sábado. postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:02 AM - Comments: Terça-feira, Março 16, 2004 1 Os olhos cruzaram-se numa obstinação de licores. Alguns gestos. Uma, duas, três palavras hesitantes. Meros pretextos para uma partilha adiada. Comunicámos por dentro dos líquidos, embriagados por uma ausência que sabíamos comum. Porventura um toque, um beijo. Mas um escrúpulo de aço impediu-nos a consumação da vontade. Talvez um abraço, o recolhimento negado pela atroz indiferença dos olhos. No segundo dia chegou com uma lua estampada nas retinas. Pegou num cigarro e despiu-se em silêncio. Havia uma boquilha de fumo a ligá-la ao mundo. Mulher: os lábios afirmando gestos. Eu queria ser a matriz da sua ternura, trocar-me pelo soalho e deixar-me pisar pelos seus pés. Aluguei-lhe o corpo por instantes. Traduzi-lhe as mãos, a pele, a carne. Despedimo-nos como se o futuro ali tivesse parado. Reencontrámo-nos hoje. Aqui. (h) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:57 PM - Comments: Segunda-feira, Março 15, 2004 como manifestar a indignação? como barafustar de uma maneira evidente e com pesadas consequências? refilarmos livra-nos do mal, repõe a justiça e defende a verdade? nem só de pão e água vive o homem mas de aguçadas questões morais. longas e penosas dúvidas a que a sociedade do conhecimento não dá resposta, pois não? ler os clássicos, como aconselharia uma grande, boa e culta amiga? se ao menos lá estivesse a resposta, alguma espécie de resposta. há sempre o xanax, diz-me outra amiga de farmacológicas tendências. pois é. e a indiferença. e o embrutecimento. miss portugal, sem respostas postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:40 PM - Comments:
sol quase de primavera seca as ondas na tarde de papel Zelim@ postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:52 AM - Comments: Domingo, Março 14, 2004 ando a convencer-me que não tenho nada. no pasa nada, à espanhola. e passo bastantes momentos do dia, gasto muitas energias neste esforço de persuasão. auto-convencimento. auto-ilusão. e de repente, ao atravessar o rio no ferry num dia duma bestialidade primaveril, muito calor, muito sol, os corpos felizes de sentirem o sol, as mangas arregaçadas de antebraços macilentos. de repente, a mentira descola-se, o véu de verosimilhança cai à água e encontro-me de caras comigo mesma. passa-se alguma coisa. estás mal. um mal fininho como chuva de outono, pesado como um nevoeiro no Pico. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:13 PM - Comments: ![]()
A propósito de "Close-up", de Abbas Kiarostami Quando o filme acabou e sai da sala sentia-me feliz, embora os meus olhos, ainda inchados e húmidos o desmentissem. Sentia-me feliz pelo cinema, por Sabzian, por mim. Porque é um filme que nos salva a todos. Salva o cinema porque o que nos mostra só tem a força que tem por ser sétima arte. Salva Sabzian porque sem a câmara e, por detrás dela, Kiarostami, todo aquele julgamento teria tido outro desfecho. Salva-me a mim porque eu já fui Sabzian em determinadas alturas da minha vida. Como nos diz Kiarostami: é um sentimento que conheço perfeitamente: frequentemente não me sinto contente com a minha personalidade e queria ser um outro que não sou. Lembrei-me de um filme de Jean Eustache que é uma conversa com a sua avó ("numéro zéro", se não me engano), lembrei-me de "O quarto de Vanda" de Pedro Costa. São filmes que lhe estão próximos. A propósito de "close-up", Kiarostami diz que depois do oxigénio, é do respeito e da dignidade que temos mais necessidade.e não é preciso dizer mais nada. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:29 PM - Comments: Sentava-se ao sol a fazer renda. A linha esticava-se desde o ombro, a correr de um alfinete ali pregado, até ao indicador, onde se enrolava. A agulha de bico torcido ia buscá-la vezes sem conta. Os óculos desciam-lhe pelo nariz, enquanto das incansáveis mãos dela brotavam hexágonos de renda. Havia um elemento demiúrgico naquela mulher encostada ao sol, em recolhimento. Avançava na criação quando pegava nos hexágonos e começava a cosê-los uns aos outros. Ao sétimo dia descansou, com a colcha dobrada sobre os joelhos. postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:53 AM - Comments: Sábado, Março 13, 2004 de manhã sou atacada por um choque de realidade. urgência de coisas a neccessitarem de concretização. concretizo-as. faço-as. cumpro-as. com pontualidade e um trejeito de bonomia e correspondente smile. quando não há luz as coisas indistintas revelam-se em toda a sua inutilidade e com elas o desconforto de um dia de nada. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:59 AM - Comments: Quinta-feira, Março 11, 2004 De "A Morte em Veneza", Thomas Mann "As observações e as vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que o que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo, o proibido." IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:45 AM - Comments: Quarta-feira, Março 10, 2004 não devias ter acreditado. não esperei que tomasses como certo o que digo. afinal, porque havia eu de ser excepção à regra da desconfiança? pensei no assunto e conclui que resolveste, sempre foste determinado, acreditar em mim. mas o que te disse, e só sei o que foi porque o escreveste depois, devia ter-se perdido antes de aproximar-se da tua orelha. lembro-me do teu olhar concentrado na minha boca enquanto falava. pensei que admiravas o recorte dos meus lábios. que gostavas da maneira como os movia. por isso continuei a abri-los e a fechá-los. não imaginei que tomavas nota das palavras. não as reconheci sequer quando as li. escritas por ti. não me importam as palavras. nem as frases que, umas atrás das outras, vão compondo. se ainda valesse a pena, dir-te-ia que falo porque tenho um aparelho vocal. mera consequência da evolução natural. se ainda valesse a pena, dir-te-ia: não leves a sério nada do que digo. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:48 AM - Comments: Terça-feira, Março 09, 2004 diziam-me que a neve é perigosa. tropeça-se no chão nevado. não é verdade. a neve é bela e limpa os corações. está a nevar. parece um filme mudo. a queda é silenciosa e leve. tão leve que desaparece ao toque. o chão cobre-se pouco a pouco de fios imperceptíveis que vão formando um único tom, uma beleza imprevista. a neve é algodão doce. apetece derrete-la nos lábios e comê-la enrolada em paus de madeira. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:56 PM - Comments: Segunda-feira, Março 08, 2004 pois entre clementinas, tangerinas e satsumas tenho andado entretida. Sendo que uma satsuma é um citrino híbrido. distraídos que andamos não reparamos que para além dos normais, dos habituais e dos ordinários temos ainda os híbridos. isto a propósito do trabalho de um intérprete e das minudências escanifobéticas que ouve e que passa para outra língua. e para quê? se fosse híbrido talvez soubesse. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:08 AM - Comments:
Rui Patacho Dias que são como crianças que nos perseguem que nos beliscam que nos fazem voltar a face do avesso que nos entornam os olhos no chão mostrando-lhes as nossas (im)purezas as que tentámos reter no Klinex que não foi suficiente São dias perigosos Ficamos desprotegidos e deixamos de conseguir proteger os outros Dias em que não encontramos o caminho que nos levará a casa do nosso amigo mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:01 AM - Comments: Sexta-feira, Março 05, 2004 anani ananão. ficas tu eu não. abriu-se a porta da sala de reuniões e a cantilena dissipou-se no ar comida pela seriedade do entrante. este pousou a pasta de cabedal preto, muito macio, muito caro e com muita marca sobre a mesa e começou. papagaio loiro de bico doirado. respondeu-lhe o primeiro: ó linda falua que lá vem lá vem. cumprimentaram-se e prometeram agendar outra reunião para breve. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:34 PM - Comments: Pode ser tudo uma questão de tonalidade O segredo do universo A chave Se falares suave e pau sa da men te Abres-me Se vociferares Trancam-se-me os poros da alma E eu deixo de reconhecer-te mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:36 AM - Comments: Quarta-feira, Março 03, 2004 D de Desfeitos Universos
Bill Viola, The crossing, 1996 Da terra vem a água e da água a alma o tempo é a maré que leva e traz o mar às praias onde eternamente somos Ruy Belo mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:35 AM - Comments: Terça-feira, Março 02, 2004
Louise Bourjeois postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:29 AM - Comments: 28 crianças reunidas em mesa redonda. A média de idades rondava os 9 anos. Uma delas fazia de senhor presidente e ia dando a palavra aos que a pediam, de mão no ar. Era a segunda vez que discutiam o mesmo tema. A diferença entre rapazes e raparigas. Haverá alguma, afinal? De todas as coisas que as mulheres conseguem fazer e os homens não, sobrou a concepção. O contrário já não era verdadeiro, todas as hipóteses levantadas foram rebatidas. Mulheres-bombeiras, mulheres-piloto, mulheres-soldado, mulheres-futebolistas, mulheres-polícia, já nem são casos raros. Os rapazes estavam indignados. Tem de haver alguma coisa que só nós conseguimos fazer!! Muito a medo, um dos rapazes levantou a mão e respondeu: e chichi de pé, qual de vocês consegue fazer sem se agachar? Gargalhada geral. Tudo se passava durante uma aula do liceu francês aberta à participação dos pais. Um "goûté-philo", em que quinzenalmente um tema é discutido e no final há um lanche colectivo. Como diz o meu filho, é bem melhor do que estar a fazer ditados, não acha mãe? E eu acho, acho bem melhor. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:18 AM - Comments: não há frio como em portugal. as casas, os auditórios, os corredores e as casas de banho. confiantes na sorte e no bom tempo vivemos enregelados de ideias. os dedos retorcidos como ferros ardidos, os lábios arroxeados de vivos-mortos. brrr. quando admitimos a nossa condição de friorento povo, fatalista e acomodado? miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:03 AM - Comments:
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