|
Palavras da Tribo
|
![]() |
As primeiras, as segundas e todas as palavras Sexta-feira, Fevereiro 27, 2004 a voz, outrora suave, metalizou-se. a prosódia era idêntica. os outros, a generosidade, o encontro segundo os apóstolos. todos ouviram querendo acreditar. querendo disfarçar a desconfiança de verem uma boa pessoa perder o jeito. ergueram-se e foram para casa. dormiram mal, intimamente defraudados. na escuridão repetiram: não volta a acontecer. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:57 PM - Comments: Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004 sentia as pedras da calçada firmes e insuspeitas. brancas e meticulosamente quadradas. sentiu-se feliz ao ver tufos de erva que quebravam a placidez do calcário. dos pés vinha-lhe segurança. subia-lhe um certeza qualquer. sou feliz. corrigiu-se, sou um bocadinho feliz. olhou para os pés cobertos de pele castanha. dissera-lhe que seríamos tanto mais felizes quanto mais próximos da terra. no rés-do-chão. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:16 PM - Comments:
Maria Pia, fotografia postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:22 AM - Comments: D tinha uma outra vida, um outro país. Uma vida cheia de compromissos, de trabalhos para entregar, de contas para pagar, de deveres sociais, de prazos. Uma vida onde não sobrava um dia sequer para ir até à praia, no mar negro. Abandonara o mar quando entrara para o serviço militar. Dois duros anos. E depois veio a ocupação laboral, primeiro como marinheiro num navio de pesca, depois como electricista e, por fim, como marmorista. D chegou a Portugal vinte dias depois de um incêndio ter destruído a fábrica de mármore que montara sozinho em 1982. Cada uma das máquinas que a compunham fora inventada por si. D é um criador. Um artista, como gosta de repetir. Em Portugal não arranjou trabalho, mas arranjou tempo, aquele que perdera quando perdera o mar. D diz-me que finalmente conquistou o tempo. Agora tem tempo para conversar, para aprender uma nova língua, para passear. D apaixonou-se pela grande cidade. Pelas praias depois do Tejo. D diz-me que é feliz. E repete para que eu acredite. E eu quero acreditar. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:20 AM - Comments: Quarta-feira, Fevereiro 25, 2004 tirei uma peça de roupa. não senti frio. continuei e tirei mais uma peça. nada de especial. tirei mais uma, fui tirando e ao ficar nua tirei também a pele. agora já sentia dor. continuei e da carne, músculos, nervos e sangue que iam ficando no chão pouca coisa aprendi. tocaram à porta. eras tu, já sabia. vesti-me rapidamente. não te podia mostrar o que estava dentro de mim. entraste, disseste olá maquinalmente e abriste a televisão. reparei, aterrorizada, que no chão da sala tinha ficado a minha pele. corri a escondê-la mas cheguei tarde. tu pegaste nela, cheiraste-a, não a reconheceste. disseste: que porcaria é esta no meio da sala? levaste-a para a cozinha e deitaste-a no lixo.corri para o caixote vesti a minha pele amarrotada velozmente e voltei para a sala. queres comer alguma coisa? perguntei pretensamente calma. que sim, que querias comer o que houvesse. enquanto comias fui para a cozinha e acariciei a minha pele. estava melhor. nunca mais a irias tocar. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:10 PM - Comments:
queria tanto colocar no blog um dos rostos luminosos de Teresa Calém, mas o mais que consigo é este X vermelho de interdição. para quando um desenho da Teresa nas palavras da tribo? mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:44 AM - Comments: Terça-feira, Fevereiro 24, 2004 De Isabelle Eberhardt, a mulher que no princípio do séc. passado trocou a França pela Algéria, e se disfarçava de homem para poder sobreviver sozinha no Sahara algerino, uma página do seu diário: "Marselha, Maio de 1901 ... Como são miseráveis os que, irremediavelmente atolados nas baixas coisas materiais dia-a-dia, gastam as breves horas da vida em vãs e ineptas recriminações contra todos e contra tudo, e ficam cegos perante a inefável beleza das coisas e diante do esplendor triste da humanidade dolorosa. Feliz aquele para o qual nem tudo se passa estúpida e cruelmente ao acaso, a quem todos os tesouros da terra são familiares, e para quem nem tudo acaba tontamente na sombra da sepultura! Há seres desafortunados que vêem o mundo sob as cores mais sombrias e que, da inesgotável Beleza, que é a própria essência do Universo e da Vida, nada conhecem. É a mais deserdada dos deserdados deste mundo, uma exilada sem lar e sem pátria, uma órfã despojada de tudo, quem escreve estas linhas. E elas são sinceras e verdadeiras. Muitas vezes, nas horas de prosperidade que se foram, achei a vida aborrecida e feia. Mas desde que passei a possuir apenas o meu espírito sempre desperto, desde que a minha alma foi temperada pela dor, sinto, com uma sinceridade absoluta, o mistério inefável que se derrama em todas as coisas... O pastor beduíno, iletrado e inconsciente, que louva Deus frente aos horizontes esplêndidos do deserto ao nascer do Sol, e que continua a louvar Deus diante da morte, é muito superior ao pseudo-intelectual que acumula palavras sobre palavras para denegrir um mundo cujo sentido não compreende, e para insultar a Dor, essa bela, essa sublime e benfazeja educadora das almas... Outrora, quando materialmente «nada me faltava», mas tudo me faltava intelectual e moralmente, acabrunhava-me e expandia-me estupidamente em imprecações contra a Vida que não conhecia. É só agora, no despojamento de que me orgulho, que a declaro bela e digna de ser vivida. Há três coisas capazes de nos abrirem os olhos para a fulgurante aurora da verdade: a Dor, a Fé, o Amor - todo o amor." (Isabelle Eberhardt "Escritos no Deserto", Relógio D´Agua) mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:06 PM - Comments: Sábado, Fevereiro 21, 2004 A fuga terminou quando, ainda a esgaravatar para alcançar o lugar recôndito dos cachorrinhos, sentiu o sol menos inclemente nas costas. Viu-se sob a sombra da mãe, encostada à vara que costumava usar para retesar o estendal. Deu logo pelo pau, a servir de apoio à anca parideira, e percebeu porque o tinha trazido. Não falaram. Bastou um olhar dela, lá de cima, de onde estava, a empurrar uma nuvem pequenina com o carrapito, para a abertura da toca dos cachorrinhos. O rapaz quase conseguia vê-los, em desejado novelo, ao fundo. A mãe encontrara-o espojado à entrada, de barriga contra a terra, sem cuidar da limpeza dos calções que o haviam feito estrear de manhã, de propósito para o retrato. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:10 PM - Comments: Sexta-feira, Fevereiro 20, 2004 regressaste depois de 15 dias. foi difícil reconhecer-te, os cantos da boca descaídos e sem cor como um cheque amarrotado. a propósito pagaste o colégio dos miúdos? que não. que a vida não tinha sentido. subir as escadas de casa era penoso. fingir trabalhar era insuportável. devia existir uma baixa de dor, disse ele e leu nos meus olhos a insustentabilidade de prosseguir. somos opostos. e a oponibilidade conduz à nulidade do contrato. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:45 AM - Comments: Quinta-feira, Fevereiro 19, 2004 Primeiro atirou a televisão pela janela. O aparelho estilhaçou-se na calçada. O facto de acumular a função de despertador salvou o rádio de sorte idêntica. Deixou-o estar em cima da mesa de cabeceira. Mas jurou que não o ligaria à hora certa, nem à meia. Por causa dos noticiários. Decidiu, igualmente, manter-se afastada dos cafés que tinham um lugar empoleirado para a televisão. Aos quiosques de venda de jornais, era fácil evitá-los: atravessava a rua ou virava a cara para o outro lado. Assobiaria. Agora, espreguiçando-se na cama, percebia por que razão lhe doíam os músculos da cara. Assobiara ou talvez tivesse gargalhado durante o sono. Lembrou-se: tinha sonhado não saber de nada. O bem-estar durou até olhar para o despertador, o mesmo que, em má hora, salvara da destruição. Merda. Tinha de correr para o jornal. As notícias esperavam-na. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:59 PM - Comments: não desligues já, dizia ele passada meia hora. eu que ainda não aderi ao pacote dos minutos infinitos da nova era limito-me a ser comedida.a minha voz é agradável, a dele diferente da pessoa a que pertence. gosto da voz dele, mas mesmo assim desligo. não gosto das vozes que aproveitam pacotes de minutos. dantes o tempo dividia-se em horas, minutos e segundos. não em pacotes. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:48 AM - Comments: Quarta-feira, Fevereiro 18, 2004 o livro "la poésie negro-americaine" edições Marabout. Literatura de negros na américa parecia uma categoria forçada e artificiosa. o encanto da leitura foi avassalador. a primeira poetisa, uma escrava negra no século XVIII. Os seus "donos" repararam na excepcional aptidão para as letras e educaram-na. Alguns anos passados a sua fragilidade física recomendava uma mudança de ares, uma viagem marítima. os donos enviaram-na a Inglaterra. Antes da partida deram-lhe a liberdade. vêem como a literatura liberta? regressa livre e doente. morre pobre e novamente em situação de quase escravatura. vêem como a literatura não dá dinheiro nem liberta da morte? miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:45 PM - Comments: Estava escrito. Tinha-a escrito. A data. Tinha escrito a data. Aquela mania dos diários. Escrevia tudo. Não só escrevia o que se tinha passado ou o que pensara, mas também aquilo que havia de passar-se no futuro. O que tinha de passar-se. No caderno 32 encontrava-se a descrição do que viria. O futuro, tal como constava no caderno 32, tinha data: era naquele dia. A data era a daquele dia. Mas os factos não coincidiam. Leu outra vez. Sim, estava escrito. Só que não acontecera. Reconhecia: desleixara-se ou então as prioridades alterararam-se. Leu de novo - estava escrito - e - olhou em volta - não estava feito. Tremia. Continuou a ler até encontrar as duas letras que mais receava: um "esse" e um "é". "Se". "Se... então". Cabia-lhe, pelo menos, concretizar o que seguia o "então". Levantou-se. Abandonou o canto onde estava agachado, com o caderno 32 sobre as coxas, e saiu de casa, a caminho da estação de comboios. Qualquer uma. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:12 AM - Comments: Terça-feira, Fevereiro 17, 2004 festejemos a liberdade. a partir de hoje só se pode fumar nos hospitais e nas prisões, anunciava o ministro de um país avançado. doente, encarcerado mas livre de fumar. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:52 PM - Comments: Segunda-feira, Fevereiro 16, 2004 sempre detestei línguas, dizia-me ela enquanto entrava resolutamente no avião. para que serve falar sete línguas como eu? é a maior a probabilidade de dizermos banalidades em todas elas e de espalharmos a nossa ignorância e pequenez pelos cantos da terra. estava zangada a minha amiga recém-imposta pela proximidade física. continuava apesar da minha reticência: o polaco é uma língua estúpida e sem sentido (pensava talvez no marido). uma língua eslava com alfabeto latino! onde já se tinha visto, prosseguia ela raivosa. tive de fingir um sono de soporífero para escapar à poliglota infeliz. miss portugal na europa postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:02 PM - Comments: Sexta-feira, Fevereiro 13, 2004 o perfume que lhe dei era forte demais. pegava-se às narinas e arrepelava como se quisesse ir dentro, mais dentro que nenhum outro. era caro o perfume demasiado perfumado. fora talvez feito de mil essências corrompidas e esmagadas naquele frasco sem arestas. desculpa ter-te dado o perfume. desculpa ter pensado que gostava de ti. desculpa ter achado que não fazia diferença esse desamor. e hoje ante os bacocos corações valentinos espalhados pelas ruas sinto vergonha de não te amar. como se a paixão devesse ser banalizada. para levarmos uma vida higiénica. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:41 PM - Comments:
Domingo fui à escola, levava uma mochila no dorso e o lanche para o intervalo. Quando o mestre me deu autorização, sentei-me. Não estive sempre atenta, assoei-me, chorei, ri. Brinquei no recreio, quando chegou a hora. Tinha duas amigas e um amigo, para além do ricardo e da madalena que estavam lá mais para trás! Nunca ouvi o mestre gritar, elevar o tom da voz, mesmo quando fizemos uma ou outra asneira, ou deixámos cair qualquer coisa no chão. Os ovos para a massa dos crepes! Enquanto os mais velhos aprendem, nós, os mais novos, estamos calados, à escuta, ou falamos muito baixinho para não atrapalhar. Já experimentaram falar baixinho? É muito engraçado, parecemos pássaros a chilrear! Porque estava a nevar, o mestre levou-nos a andar de trenó. Que emoção!!! Quando ele ganha velocidade! E atirar bolas de neve uns aos outros! o pior é que acaba sempre alguém a chorar! Uma menina, normalmente. O Jojo está a aprender os números, ele não para de contar, ele bem que tenta, mas a seguir a um número vem sempre outro e mais outro! será isso o infinito? Quando a luz do cinema se acendeu, eu cheguei a casa. mp (não percam o documentário "Ser e Ter", de Nicolas Philibert, um verdadeiro regresso a uma escola que todos gostaríamos de ter sido a nossa) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:13 AM - Comments: é preciso lugares onde os homens tudo possam. Ruy Belo descobriu um desses lugares na "Orla Marítima": "O tempo das suaves raparigas é junto ao mar ao longo da avenida ao sol dos solitários dias de dezembro Tudo ali pára como nas fotografias É a tarde de agosto, o rio a música o teu rosto alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar És tu surges de branco pela rua antigamente noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher, (...) Deus anda à beira de água calça arregaçada, (...)" da mp para o universosdesfeitos que hoje nos lembrou do Belo postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:45 AM - Comments: Quinta-feira, Fevereiro 12, 2004
Sergio Taborda postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:29 AM - Comments: Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004 íamos começar a oficina de escrita e ele pediu-me para lhe ensinar português aprender a língua era o mais importante, disse-me. queria também aprender letras, vários tipos de letras. encantava-lhe a caligrafia antiga. os arabescos das maiúsculas. pediu-me se lhe arranjava uma tradução para português do poema "If" de Rudyard Kipling. Gostava muito deste poema, embora nunca o tivesse lido em búlgaro, a sua língua natal. encontrei uma versão em inglês na internet e estivemos juntos a traduzí-la, e enquanto o fazia este poema ia ganhando uma nova luz, na presença de D o primeiro verso passava a fazer todo o sentido. porque era para D e com D que Kipling falava: "If you can keep your head when all about you Are losing theirs and blaming it on you, If you can trust yourself when all men doubt you But make allowance for their doubting too, If you can wait and not be tired by waiting, Or being lied about, don't deal in lies, Or being hated, don't give way to hating, And yet don't look too good, nor talk too wise ..." Hoje, D trazia um poema escrito a caneta preta no punho da sua camisa. alguém o ajudara a escrever em português no albergue onde pernoita. impressionou-me aquela imagem. uma espécie de tatuagem numa segunda pele. porque escolhera ele o punho da sua camisa em vez do pequeno bloco preto que lhe dei. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:54 PM - Comments: andava despreocupada da vida cuidando que o inverno se tinha desvanecido. a luz, ou o sol enganador do filme, abria rostos. as pessoas entreolham-se de tanta roupa em cima. a mim convém-me o calor, a pele castanha (suada, manchada) as pernas sem meias, a promessa do mar do sal. e todas as outras promessas que não são para aqui chamadas. tenho fé nos dias longos e calorosamente abertos à descoberta. apesar de a mim as coisas boas me acontecerem no inverno. entre o o natal e o carnaval. fico à espera. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:23 PM - Comments: o que nos custa mais perder: a carteira, a face, o jogo? para que serve a perda? que fim insondável persegue a providência ao fazermos perder coisas, sentimentos. leveza, talvez. consegue-se leveza à força? há por aí alguém que saiba? mmmmm ib, com dúvidas postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:14 PM - Comments: Terça-feira, Fevereiro 10, 2004 estamos um pouco perdidos. nós os que sabemos tudo. nós os que ensinamos. dizemos coisas e as respostas chegam-nos incoerentes. falam de uma outra realidade que não a nossa lógica de segurança. pedimos para descreverem um lugar e falam-nos de escuridão, do preto que não é bem preto, do branco do passado e da vida cinzenta. falamos para heróis. o herói salvador de crianças da fragata Dom Fernando e Glória ardida no mar da palha. falamos para heróis, nós os que não sabemos nada. estamos perdidos e repensamos as palavras. olham-nos com sorrisos os heróis das ruas.somos nós os salvados. ib postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:20 PM - Comments: Segunda-feira, Fevereiro 09, 2004
Madalena Parreira postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:19 PM - Comments: Domingo, Fevereiro 08, 2004 "A secura interior, a surpreendente mistura de sensibilidade aos pormenores e despreocupação perante o conjunto, a extraordinária solidão do homem num deserto de pormenores, a sua inquietação, a sua maldade, a singular indiferença do seu coração, a sua cupidez, a sua frialdade e a sua violência, tudo isso características do nosso tempo, não podem ser outra coisa, se dermos ouvidos a estes censores, senão consequências das perdas causadas à nossa alma por um pensamento aguçado pela lógica." em "O Homem Sem Qualidades", Robert Musil IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:12 PM - Comments: Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004
Louise Bourjeois - Há uma mão invisível no coração do poema que me toca e me deixa tocá-la. A mão que escreve e ama. O tu que lê. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:26 AM - Comments: Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004
de Patrice Leconte acho que nunca me irei esquecer da parte em que o pai pergunta aos dois filhos o que querem ser quando forem grandes e Antoine, depois do irmão responder engenheiro, economista ou outra coisa do género, responde que quer ser marido de uma cabeleireira. Perante a franqueza do filho o pai dá-lhe uma valente estalada e manda-o de castigo para o quarto. Que maravilha, aos 7, 8 anos, querer-se ser marido de uma cabeleireira!! Anos mais tarde, Antoine (Jean Rochefort) encontra finalmente a sua cabeleireira, Mathilde (Anna Galiena). o que mais me atrai neste filme, e que me faz revê-lo de tempos a tempos, é a sua simplicidade. nada se passa e tudo se passa naquele salão de cabeleireiro onde poucos são os clientes. uma mulher, um vestido, uma tesoura, um espelho, um lavatório, um marido, ... porque é de facto necessário muito pouco para se mostrar o que se pretende mostrar. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:50 PM - Comments: Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004 J conta-nos que já foi chefe de cozinha, que se formou em Inglaterra; que os papeis que comprovam as suas habilitações ficaram destruídos numa lavagem de roupa, tinha-se esquecido deles nos bolsos de um casaco; que desistiu de dormir num albergue porque era muito deprimente; que está neste momento a dormir num canto que arranjou em Santa Apolónia. J foi arrumar carros para poder comprar o passe que lhe permite apanhar o autocarro para Marvila. J é sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Participa com uma enorme satisfação e empenho em todas as oficinas de artes plásticas (que graças a Deus são muitas e variadas). J diz-nos que nos irá fazer companhia durante todo o mês que por ali estivermos. Os desenhos de J têm palmeiras e casas, muitas casas, uma aldeia inteira dentro. Mesmo que só nos aparecesse um J durante todo este mês, esta iniciativa já teria valido a pena. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:45 PM - Comments: saio de casa com um saco de laranjas, o primeiro volume de D. Quixote e um guarda-chuva estropiado. quando o abro logo se me encharca o cabelo e as varetas partidas arrepelam-me. o guarda-chuva serve para desguardar-me dela. assim não posso acusá-lo de inutilidade. talvez não seja um guarda-chuva. lembro-me do elmo de D. Quixote. parecia uma bacia de barbeiro. não era. era um elmo. um elmo brilhante. Sancho Pança, porque insistes na descrença? porque não reconheces a existência e poder do terrível mágico? daquele que nos embruxa o quotidiano. aperto as laranjas de encontro ao peito. para que se mantenham laranjas. não vá o feiticeiro transformá-las em limões. porque as quero doces. porque as quero doces para os que virão. para aqueles que tomarão o caminho da antiga creche de Marvila. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:07 PM - Comments: Terça-feira, Fevereiro 03, 2004 MAR(A)VIL(H)A I numa antiga creche da misericórdia todos nos sentimos crianças outra vez. a cirandar pelo pátio, a rir, a fazer música, à escuta dos pássaros que ainda chilreiam, a fazer um intervalo para o sumo, o bolo e o chocolate. as casas de banho têm pias e lavatórios pequeninos que nos obrigam ainda mais a descer à terra. o sol finalmente apareceu e sabe bem encostarmo-nos ao muro que nos separa da estrada, a conversar, a passar o tempo lentamente. pela tarde chegou a Lydia e a Joana com os seus pigmentos coloridos para encher paredes de cor, projectando sombras tudo menos cinzentas. a velha creche é criança de novo. renasceu. e nós com ela. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:51 AM - Comments: Segunda-feira, Fevereiro 02, 2004 sentámo-nos tímidos. um pouco receosos do outro, do que iríamos encontrar. do corpo fugiam-nos risadas de pueril inibição. fomos cegos e deixámo-nos guiar. batemos palmas, batemos tambores. fizemos música no lixo. sentimos a nossa respiração. o outro já não nos assustava. acabámos mudados. olhámos para trás e ouvimos: felicidades para ti. era o outro que nos queria bem. obrigada. ib postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:12 PM - Comments:
|
![]() |