|
Palavras da Tribo
|
![]() |
As primeiras, as segundas e todas as palavras Segunda-feira, Setembro 29, 2003 Caranguejola , Mário de Sá Carneiro "... Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras, Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou. Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras. Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou." postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:15 PM - Comments: continuo a rever. "Fala com Ela". passou há pouco tempo na televisão. o bailado de Pina Bausch. quando alguém afasta as cadeiras para que outrem não esbarre nelas. talvez seja isso o que fazemos diariamente. desviar cadeiras cuidando da inteireza do corpo de outro. ou atirarmo-nos contra elas como se lá não estivessem, contando que alguém as leve. engano-me. o que fazemos é executar ambos os gestos. ora desviar cadeiras, ora fazer fé que as tirem do nosso caminho. aquela-que-conta-as-cenas-dos-filmes postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:53 PM - Comments: Sexta-feira, Setembro 26, 2003 A PARTIR DE 3ª FEIRA QUE VÉM (DIA 30/09) O LIVRE CURSO DA POESIA por António Poppe na Livraria Eterno Retorno http://www.atxilipu.com/poppe/
postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:46 AM - Comments: Quinta-feira, Setembro 25, 2003 será maniqueísmo. será maniqueísta o tema do zé mário branco que põe de um lado a mariazinha e do outro a marta. a mariazinha a caminho da marta. "mariazinha fui em marta me tornei vou daquilo que fui p'ra aquilo que serei." pois será o que será, mas dei por mim a cantar muito empaticamente "...justiça, igualdade não chegam aqui dentro de casa eu só te sirvo para a maré vaza mas eu já sinto a minha maré cheia a subir" até ao ponto de "...combater contra os donos de escravas..." para depois lembrar-me do que escreveu o Prado Coelho ok, ok, parem lá com as vaias, sobre as classes. concluía então o muy respeitável senhor "que las hay, las hay", embora sem resquício de vontade de luta, desde logo porque o indivíduo não assume a pertença. o libertário postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:26 PM - Comments: porque é que se diz de alguém que é levado da breca? o que é a breca? pego no dicionário. "1. contracção espasmódica, dolorosa, dos músculos, cãibra. 2. doença dos caprinos" (?!) deriva do latim perca- "perca", uma espécie de peixe, não é verdade? fiquei na mesma. porque é que se é levado da breca ou será pela perca? o que é que a breca-perca tem a ver com as calças? o maluquinho semântico postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:24 AM - Comments: "Isto não sou eu! Não sou eu! Amanhã, só amanhã, serei eu novamente! Amanhã..." in O Jovem Torless, Robert Musil postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:05 AM - Comments: Quarta-feira, Setembro 24, 2003 tenho um vaso, onde, em vez de flores, nasceu uma gata. ela deita-se na terra e assenta o queixo na parede do vaso, um daqueles rectangulares, compridos e pouco largos. fica ali a apanhar o sol da tarde, semicerrando-lhe os olhos, a criar remelas, a bocejar de vez em quando, a espreguiçar-se ainda mais de vez em quando, a lamber o nariz cor de laranja de quando em vez. embora eu escreva que nasceu no vaso em vez de uma planta, os problemas de identidade são completamente estranhos a esta gata. por isso não se retira se me aproximo de garrafa na mão, para deitar água num outro vaso - um dos normais, dos que não têm nada de especial, onde cresce... uma planta. a gata fica quieta. sabe que não vou regá-la. sabe que não é uma planta. por isso comporta-se como se fosse. também sabe fazer-se de mocho. à noite. sentada na parte de cima do guarda-fatos. a dar conta (também se diz dar fé. aproveito para perguntar porque é que "dar fé" significa coscuvilhar e não dá-la, de facto) de tudo. incluindo do sono daqueles a quem nunca passou pela cabeça fazerem-se de plantas ou de mochos. só fazer de gente e, às vezes, nem isso. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:14 PM - Comments: revi "Va Savoir", de Jacques Rivette, no cinema Ávila, que apelido de diagonal por causa da disposição da sala. tenho fresquinha na memória a cena do reencontro entre Camille e o seu ex., esqueci-lhe o nome. lembram-se de quando ele, sentado num banco de jardim, a ler o jornal, é interpelado por Camille e conduz os olhos de novo às páginas impressas, como se assim a mulher desaparecesse, ela que é tão alta, tão incapaz de eclipsar-se fisicamente? onde havia de esconder-se tanto corpo? e lembram-se de Ugo a mastigar apressadamente e depenicando o pão enquanto o referido ex. explica, com presunção, o inferno e diz que esteve lá? Ugo só interrompe o frenesim dos maxilares para perguntar muito justamente se é possível regressar do inferno. podia ficar aqui a tarde toda a falarescrever acerca do filme. mas não fico porque havia de assemelhar-me ao dito ex-, a alongar-se interminavelmente sobre Heidegger (O Ciumento) ou à procura da saída da rede que o aparou após o vodka-duelo com Ugo. na cena final atam-se as pontas. o tecido está pronto e é belo. a propósito, alguém quer uma fatia de bolo? aquela-que-conta-as-cenas-dos-filmes postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:52 AM - Comments: tom waits, também gosto de ti. não muito, mas um bocadinho. a pirada informática postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:55 AM - Comments: tlã tlim tlim tlim tlom tlom tchã tchã. as meninas sérias hão-de-me desculpar mas a vida é linda, os blogues também e principalmente, sim meus amigos, o verdadeiramente importante são os computadores que funcionam. é importante destrinçar o importante do supérfluo. e nesse afã de podar as ervas daninhas, meus irmãos, o meu computador vai ser preservado. eu gosto do meu computador. e ele gosta de mim. é o que se chama um amor correspondido. a pirada informática postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:52 AM - Comments: Terça-feira, Setembro 23, 2003 já cá estou lá lá lá láaaaa. já tenho o meu mastodonte informático. já sei blogar, já só falta sair do casulo e escrever. lá lá lá lá lá láááááá voçês nem vão querer saber as ganas de blogar de que fui acometida. Então porque não o fazes? pergunta alguém. há sempre alguém que só crê quando se bloga. pois neste momento não me apetece. também tenho os meus momentos. também me sinto melancólica às vezes. chego mesmo a pensar no Tom Waits, embora não o chegue a ouvir. também me crispo. também sofro, ora essa. também me fecho. e também amuo. oh, se amuo. faço mmmmmmmm quando amuo. sou muito onomatopaica. a novel reciclada postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:54 PM - Comments: Aloïse e o teatro do universo
"Aloïse Corbaz nasceu em Lausane em 1886 e nunca mostrou qualquer interesse pela arte pictórica antes de ser internada por esquizofernia em 1918. ... Termina com sucesso os seus estudos com a idade de 18 anos e, a partir daí, estuda numa escola de alta costura. Em 1911, depois de uma história de amor apaixonada ter sido interrompida pela sua irmã mais velha, Margueritte, parte para a Alemanha. Wulliam II´s, capelão, contrata-a como ama dos seus filhos em Potsdam. Aí ela desenvolve uma violenta paixão pelo Kaiser ele mesmo. O deflagrar da guerra em 1914 e o seu regresso à Suíça têm efeitos catastróficos na sua saúde mental. Passados quatro anos complicados, em 1918 é-lhe diagnosticada esquizofrenia e internada no "Cery Psychaitric Hostpital", perto de Lausane. No Hospital, ela começa a criar um elaborado sistema cosmogónico que, paradoxalmente, transforma o mundo para onde ela "se mudou" por causa da doença, num teatro metafísico, o "Teatro do Universo". Aqui, nem tempo, nem espaço, nem dimensão existem; as formas são metamorfoseadas e os assuntos tornam-se essencialmente instáveis. O mundo recreado por Aloïse é cósmico e sem substância, livre de contingências físicas, em oposição ao old natural world que ela conheceu antes da sua ¿morte¿, isto é, antes da sua doença. É um mundo sobrenatural, teatro do universo, repleto de actores imutáveis e estáticos, cujos desejos e sentimentos são expressos pelas pequenas figuras hieroglíficas que os circundam. Para além disso, a sua verdadeira essência é incerta. Eles podem ser eles mesmos e ao mesmo tempo representarem algo de outro. Uma mulher pode ser ela própria e ao mesmo tempo o seu ícone ... ou uma lanterna viva ... ou uma alegoria. Por volta de 1920, Aloïse começa a desenhar em segredo. Sendo que, de 1941 em diante, ela vive uma explosão de liberdade artística que a leva a cobrir rolos e rolos de enormes papeis com pinturas ofuscantes, dando vida ao seu teatro cosmogónico. Depois de 1953 o seu trabalho vai diminuindo de intensidade até à sua morte em 1964. Tinha passado 46 anos da sua vida num hospital." - Jacqueline Porret-Forel (com tradução tribal para português a partir do site UBUWEB) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:24 AM - Comments: Segunda-feira, Setembro 22, 2003 em memória das histórias sobre táxis. onde estás rui david? ter-te-ás perdido nas terras remotas por onde anda o deputado móvel? entrei num táxi. quis baixar o vidro da janela porque fazia muito calor. o motorista passou-me a maçaneta para a mão. só foi preciso enroscá-la numa espécie de parafuso. não tardou muito, o vento batia-me na cara. vem-me agora à ideia o caso de outro taxista, que me despertou desejos homicidas. podia tentar estrangulá-lo por trás... contava anedotas atrás de anedotas. "e vocês sabem como é que se diz capital dos Estados Unidos em americano? Nova Iorque ou New YorK? Ah-ah-ah, apanhei-vos! Washington! Ah-ah-ah" arrrrrrhhhhhhhhh... IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:32 PM - Comments: vi um homem levar um livro. foi na Sá da Costa, no Chiado. não são prudentes naquela livraria. têm os livros junto da porta. naquela altura (não sei se ainda agora) não lhes tinham colado aquela banda ou-lá-o-que-é que apita à saída. eu estava no fundo da livraria. olhei para a porta e vi o rapaz pegar no livro. era um álbum de luxo. fê-lo desaparecer debaixo do blusão. sei que o vendeu algures. mas gosto de acreditar que não. convenci-me de que o levara porque sentira uma necessidade desmesurada de lê-lo. calei-me bem caladinho. no fundo no fundo penso que os livros não pertencem. que são como a terra. são de quem os lê. em alguns momentos consigo ter a certeza absoluta de que é assim. depois passa-me. o libertário postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:06 PM - Comments: pois é isabel, o tom ele é mais inverno, ou pelo menos é mais no inverno que aquela voz quente e cava me sabe bem, me aquece os ossos de palavras tristes mas que se impregnam como mel nos dedos. Durante um ano ele ajudou-me a trabalhar. Chegava de manhã ao escritório, um espaço partilhado, e para me abstrair de tudo colocava os auscultadores e ficava a ouvi-lo: I hope I don´t fall in love for you good night loving trail diamonds on my windshield better off without a wife on a foggy night new coat of paint looking for the heart of Saturday night Martha... Ele acompanhava-me enquanto escrevia, palavras "de juris" e não só. Não sei quantas vezes o ouvi até lhe ser infiel - levei-o para casa, coloquei-o na estante, troquei-o por outro. Mas hoje, enquanto o lia no blog, consegui ouvir perfeitamente a sua voz a cantarolar-me o texto, e fiquei feliz como quando olho para uma fotografia a preto e branco de há muitos anos e tudo aquilo que lá não está, os cheiros, as cores, os rumores das vozes regressam a pouco e pouco. E isto não é melancolia, é a nossa vida toda cá dentro, a fazer-nos cócegas. obrigada isabel pelo tom a preto e branco. postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:31 PM - Comments: Domingo, Setembro 21, 2003 a estas (palavras) roubei-as ao tom waits because i'm feeling the blues and autumn arrives tomorrow. embora o tom waits seja mais winter, não maria? devem ser três da manhã. está a chover lá fora. ele canta para o barman de ar cansado que limpa o balcão, o bêbado adormecido sobre o braço em aspa e a mulher que escorrega na cadeira pouco lhe importando deixar a roupa interior à mostra. esta canção integra o álbum closing time. "Well I hope that I don't fall in love with you 'Cause falling in love just makes me blue, Well the music plays and you display your heart for me to see, I had a beer and now I hear you calling out for me And I hope that I don't fall in love with you. Well the room is crowded, people everywhere And I wonder, should I offer you a chair? Well if you sit down with this old clown, take that frown and break it, Before the evening's gone away, I think that we could make it, And I hope that I don't fall in love with you. Well the night does funny things inside a man These old tom-cat feelings you don't understand, Well I turn around to look at you, you light a cigarette, I wish I had the guts to bum one, but we've never met, And I hope that I don't fall in love with you. I can see that you are lonesome just like me, and it being late, you'd like some some company, Well I turn around to look at you, and you look back at me, The guy you're with has up and split, the chair next to you's free, And I hope that you don't fall in love with me. Now it's closing time, the music's fading out Last call for drinks, I'll have another stout. Well I turn around to look at you, you're nowhere to be found, I search the place for your lost face, guess I'll have another round And I think that I just fell in love with you" postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:33 PM - Comments: "Eu sei, eu sei, eu sei Que um homem Aos cinquenta anos Tem sempre as mãos limpas Eu lavo as minhas duas ou três vezes ao dia Mas é somente quando as vejo sujas Que me lembro De quando era miúdo." Também foi Tonino Guerra, co-argumentista de "Amarcord", quem o escreveu, mas é de mim que fala. homem de 50 anos postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:50 AM - Comments: Sexta-feira, Setembro 19, 2003 UMA ESCADA PARA O CÉU (ALENTEJANO) (...) Dormiu como não dormia há muito, como se deveria dormir, ressonando como um animal e, de manhã, ficar a olhar o tecto ou sair até à porta, Apanhar caracóis ou cogumelos. Ter um tempo apenas seu, fora dos próprios dias. Sentir-se finalmente cavalo ou outro animal de grande faro. Perseguir odores no vento límpido. Não contar os dias e as noites. Esquecer a tortuosa estrada e as cidades vistas e não vistas. Apenas ficar. Não pensar. Mover-se, imobilizar-se sobre as pedras ou sobre a erva. Olhar demoradamente todas as coisas que se movem ou crepitam nos seixos. Abelhas selvagens a zumbir. Onde estão e quem são? Perguntas abandonadas. (...) (Tonino Guerra "Histórias para uma noite de calmaria", Assírio & Alvim) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:12 AM - Comments: Quinta-feira, Setembro 18, 2003 gosto tanto das malaguetas da cristina. gosto delas. gosto de vê-las entrelaçadas. gosto da série. desde a amálgama até à vontade de separação. não gosto de separações. talvez algumas só algumas sejam necessárias. as malaguetas resistem. agarram-se umas às outras. defendem a unidade. mordem o que existe. dificilmente aceitam distender-se. continuam a tocar-se. mas só aqui e ali. gosto do momento antes da separação. do momento que a anuncia. gosto da distenção. da suspensão. não hei-de gostar eternamente dela. não hei-de. deixar de morder o que pode ser nada. hei-de forçar-me à acção. como as malaguetas. mesmo se como elas for arremessado. ser pré big bang postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:49 PM - Comments: Encontrei-a. No caixote. Uma folha amachucada. Dizia. Não me deites fora. Encontrei-a. No caixote. Uma folha amachucada. Dizia. Não me deites. Encontrei-a. No caixote. Uma folha amachucada. Dizia. Não me dei. Encontrei-a. No caixote. Uma folha amachucada. Dizia. Não. Encontrei-a. No caixote. Uma folha amachucada. Diz. Encontrei-a. No caixote. Uma folha ama. Encontrei-a. No caixote. Uma folha. Encontrei-a. No caixote. Uma. Encontrei-a. No caixote. Encontrei-a: postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:23 AM - Comments: ETSA CRASOIDUDIE CEOHGM-UE VIA NET! De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, nao ipomtra a odrem plea qaul as lrteas de uma plravaa etaso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma ttaol csãofnuo que vcoe pdoe anida ler sem gnderas pobrlmea. Itso é poqrue nós nao lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo. Cosiruo não? postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:02 AM - Comments: Quarta-feira, Setembro 17, 2003 estava sentada à espera quando se viu a pensar mesmo em frente dos olhos. o mecanismo materializara-se naquele homem que apertava uma maleta castanha debaixo do braço. o homem, que era baixo e tinha pouco cabelo, correu sete ou oito metros e voltou atrás. uns segundos depois recomeçou a correr no mesmo sentido. parou. levou a mão à testa e regressou ao ponto de partida. olhou em torno. suspirou. repetiu a corridinha percorrendo o caminho de antes. na meta invisível estacou, virou-se e voltou atrás em passos curtos e ligeiros. aí inspirou antes de retomar a corrida. ia e vinha. ela levantou-se quando percebeu que se tinha visto em acção. foi-se embora. a correr. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:34 PM - Comments: casos de polícia tínhamos diferentes noções de inferno. para mim era desacelarar no amarelo à espera que o vermelho caia. para ele era passar pelos outros em aceleração e gozar com a lentidão deles parados como mortos no semáforo. mortos que ficaram para trás. que não aceleraram quando era preciso. que deixaram cair o vermelho. aos pés dos outros. sentia-me dentro de uma coincidência. eu parada no semáforo, pondo as folhas do jornal no volante desejando que o verde não avance, correndo com os olhos para ler o artigo. ele virando a cabeça em câmara lenta. olhando o relógio e cronometrando oa minha aflição. abre o semáforo. a coincidência caiu ao chão e partiu-se. a imaterial postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:31 AM - Comments: Today I am A small blue thing Like a marble Or an eye With my knees against my mouth I am perfectly round I am watching you I am cold against your skin You are perfectly reflected I am lost inside your pocket I am lost against Your fingers I am falling down the stairs I am skipping on the sidewalk I am thrown against the sky I am raining down in pieces I am scattering like light Scattering like light Scattering like light Today I am A small blue thing Made of china Made of glass I am cool and smooth and curious I never blink I am turning in your hand Turning in your hand Small blue thing Small Blue Thing - Suzanne Vega 1995 postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:34 AM - Comments: escritos e ditos filiais II postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:59 AM - Comments: escritos e ditos filiais "dedicatória" no presente do dia da mãe: depois de morrerem dois peixes do aquário em menos de uma semana: postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:22 AM - Comments: Terça-feira, Setembro 16, 2003 temos ou não coisas e coisas a mais? dizia ela encostada a uma poltrona de veludo vermelho escuro a fumar um puro cigarro com aroma de jasmim. adorava abdicar de coisas materiais, assim, teorizando sobre o excesso entre dois cafés e um telemóvel pousado sobre a mesa. a imaterial postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:36 PM - Comments: Segunda-feira, Setembro 15, 2003 "Pensava que fosse saudade de casa e dos pais. Mas, na verdade, era algo mais complexo e indefinido. Pois o 'objecto' dessa saudade, a imagem dos pais, já nem estava contido nela. Refiro-me à imagem plástica de uma pessoa amada, não apenas fruto da memória, mas algo físico que fala a todos os nossos sentidos e permanece guardado neles, de modo que nada fazemos sem sentir o outro do nosso lado, silencioso e invisível. Em breve, essa recordação desfez-se como uma ressonância que só vibra por algum tempo. Por exemplo: Torless já não conseguia evocar visualmente os seus 'queridos pais' - em geral era assim que pensava neles. Quando tentava, no lugar deles crescia no seu interior uma dor ilimitada, uma saudade que o feria e atraía, pois as suas chamas ardentes doíam e deliciavam-no ao mesmo tempo. A lembrança dos pais tornou-se cada vez mais uma ocasião de provocar esse sofrimento egoísta, numa espécie de altivez sensual, encerrando-o como no isolamento de uma capela, onde, diante de imagens sagradas, vindo de cem velas e cem olhos de santos, se espalha o incenso entre a dor dos que ali se flagelam..." in "O Jovem Torless", de Robert Musil. postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:51 AM - Comments: a título de desabafo a-literário: preparem-se para ouvir o paulo portas gritar portugal para os portugueses e temos de defender as nossas mulheres. postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:18 AM - Comments: Os animais Um rouxinol do Japão. O que ela gostava mesmo de ter era um rouxinol do Japão. Mas habituara-se ao mandarim de penas brancas e bico vermelho. Acostumara-se-lhe, e agora? Agora exibia-lhe a cabecita deitada sobre o indicador a fazer anel com o polegar e em cone com os demais dedos, como se pedisse que a trouxessem de novo à vida, que a fizessem piar outra vez antes de ela sair para ir às compras, à loja do senhor Manuel. Avisara o mandarim: "Não demoro nada. Vou num pé e venho no outro", maneira de falar pois pesavam-lhe cada vez mais os dois. Ouvira-o piar, a responder-lhe que sim, esperaria por ela, aproveitar-lhe-ia a ausência para tomar banho. A D. Irene não ficara a dar à língua. Tinha sido só o tempo de pedir e pagar as duas carcaças: metia uma no congelador, a outra repartia-a por dois dias. Trouxe-as dentro de um saco de plástico, seguras nas belas unhas cor-de-rosa platinado. Não estranhou a ausência de piado quando meteu a chave à fechadura, nem a falta dos saltinhos de poleiro em poleiro ao cruzar da soleira, ajeitando o tapete com o bico do pé. Também não sentira qualquer gotícula atirada do corpo eriçado dele, molhando-lhe a cara, a ela, quando a aproximou das grades, a chamá-lo, como aos gatos, bichaninho, bichaninho. Ao canto da gaiola vira um miolo de onde saíam dois pauzinhos tintos como o vinho, aqui e ali com minúsculas saliências redondas. A D. Irene abriu a portinhola e foi lá com as pontas dos dedos: sentiu o miolo tão pouco denso como o das carcaças. Ergueu-o. A cabecita sinalizada de vermelho veio atrás. Acostumara-se-lhe, e agora? perguntava ao vizinho, interceptado no corredor por onde passava um corpo de cada vez. O da D. Irene acumulava-se entre as coxas e a cavidade abdominal. Às pernas e ao tronco superior pouco restara. O vizinho estava à mercê do corpo em losango. Não podia escapar-se ao que dali viria, a não ser que o empurrasse para dentro da casa, de porta entreaberta. A D. Irene encostava-lhe o mandarim ¿ cuja cabecita rodava na forca dos dedos - ao peito e contava-lhe que tivera, muitos anos antes, dezenas de canários. Cantavam de manhã à noite. Traziam alegria à casa, embora fossem porcalhões. Havia sempre um tapete de merda na gaiola. Um rouxinol do Japão. De um desses é que gostava. Agora, não pensasse o vizinho que só lhe importavam as aves. Tivera também um cão - o Tomix -, que passeava por aquele corredor quando lhe abriam a porta e a da rua se fechava. Durante oito anos o pobre Tomix vivera com a D. Irene e o marido. Mas depois... uma história de carne envenenada com que a gente maldita seduzia os animais e os levava à morte. O que ela chorara, e como se preocupara, com a do Tomix! O vizinho encurralado deu por si a simpatizar com a matrona. Insultou-se por ter tido medo físico dela. Deixou-se rir para dentro ao lembrar-se que lhe passara pela cabeça empurrá-la para o interior da casa dela e desatar a correr para a dele. Depois trancar-se lá: duas voltas em cada fechadura e a corrente no sítio. Afinal, não passava de uma velhota dedicada aos animais. Pois, continuava ela, era sempre bom ter bichos em casa. O vizinho atreveu-se à fala: sim, os animais eram uma companhia e não tinham igual em generosidade, oferecendo-se sem expectativa de que se lhes oferecessem os donos. A matrona abanava a cabeça em sinal evidente de não. Não era por isso. Ficasse então a saber que se a morte rondava ¿ e a ela não deixava de a atenazar com aquelas dores no peito -, se fixava neles e não os largava até conseguir o que queria. Os animais eram uma espécie de escudo. Atraíam-lhe a atenção. Salvava-se a vida humana. A morte tinha-lhe entrado em casa durante o pouco tempo que estivera na loja. Andava a procura dela, e agora? Um rouxinol do Japão. O pássaro que ela gostava mesmo de ter era um rouxinol do Japão. Não sabia o vizinho como eram lindos, capazes de captar os olhares? postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:32 AM - Comments: Sábado, Setembro 13, 2003 responde ao Abrupto
GOD SAVE L´AMOUR J`aime souvent faire la Manche Quitter mon Big Ben en musique Et sentir mon Coeur en Dimanche Battre à Paris, c`est magnifique! Car la douce France m`est chère Autant que ma vielle Angleterre Et quand le permet mon planning: Je viens chanter dans mon parking: God save l`amour français Always! Always! Les bell`s assiett`s anglais`s Mais la cuisine`français L`eau pour faire le tea anglais Et le pinard français! J`aime le gris des paysages Des délicats peintres anglais Gainsborough m`emmène en voyage Turner m`emporte à tout jamais Mais la douce France m`est chère Autant que ma vielle Angleterre Et j`aime voir et puis revoir Les jolies femmes de Renoir God save l`humour anglais God save l´amour français Always! Always Les grand`s tenues anglais`s Les petit`s rob`s français`s Her Gracious Magesty, forever Et Monsieur l`President ! La liberté always De filer à l´anglais Pour aller faire l`amour toujours A la française! Pour aller faire l`amour toujours A la française! ("Comme une femme", Charlotte Rampling diz e canta Michel Rivgauche, música de Jean-Pierre Stora, absolutamente magnifique !!) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:55 AM - Comments: Sexta-feira, Setembro 12, 2003 É PRÓ MENINO E PRÁ MENINA o site mais xilipu da net portuguesa postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:58 AM - Comments: Já sei namorar já sei beijar de língua agora só me resta sonhar ... Eu sou de ninguém eu sou de todo o mundo e todo o mundo me quer bem Eu sou de ninguém eu sou de todo o mundo e todo o mundo é meu também ... Vou-te querendo como ninguém Vou-te querendo como Deus quiser Vou-te querendo como se quer postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:18 AM - Comments: UM ABRIGO NA NET Já há algum tempo que venho seguindo este blog de um sem-abrigo americano e hoje descobri que ele tem companhia na internet, a Crystal de 22 anos. Leiam-nos com atenção e vão ver que a vossa opinião sobre esta comunidade muda radicalmente. Como diz a Crystal: "Things That Frustrate Me About Homelessness: Being discriminated against just because I'm homeless; Being stereotyped. All homeless people don't smell or sleep on park benches. We aren't all drug addicts or alcoholics. We aren't all mentally ill. We aren't all lazy. We are each an individual.; Being treated poorly in places such as hospitals just because I'm homeless; Seeing homeless elderly women in the shelters. Many of them have no family to take care of them. They can't afford an assisted living facility so they come and live in the shelters. It's sad. ..." Como diz o Kevin: "I first became homeless in the Winter of 1982. I was 21 years old then, yet had no idea how to take care of myself in this world. Since then, I have experienced several episodes of homelessness, as well as periods of semi-homelessness. The past 20 years have been a struggle, trying to get a grip on what most everyone else considers to be normal life. I've never been able to fit into "normal." And I've never been able to fit into our society, which I doubt is anywhere near normal, either. I have discovered recently some of the causes of my problems and am working to overcome them as best as I can." postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:07 AM - Comments: Quinta-feira, Setembro 11, 2003 [11.9.03 11:37 AM | PALAVRAS DA TRIBO] isto assim não vale. não vale. não vale. não vale trazer nevoeiro aos olhos de quem lê os posts. primeiro a menina-um-bocadinho-triste. agora um pc-em-frente-ao-pc a lembrar-se de um homem não posso escrever como porque não sei se os há assim. também eu me lembro pc. também eu lhe ouço a voz à beira de falhar quando... ¿que eu não volto a cantar¿. deixo aqui a balada de outono qualquer dia encontramo-lo na rua, ao Outono, porque ao zeca deixamo-lo ir, inteira, da maneira que a lembro. ¿aguas e pedras do rio, meu sono vazio, não vão acordar, águas das fontes calai, ó ribeiras chorai, que eu não volto a cantar, rios que vão dar ao mar, deixem meus olhos secar, águas das fontes calai, ó ribeiras chorai, que eu não volto a cantar. águas do rio correndo, poentes morrendo p¿ras bandas do mar, águas das fontes calai, ó ribeiras chorai, que eu não volto a cantar. rios que vão dar ao mar, deixem meus olhos secar, águas das fontes calai ó ribeiras chorai que eu não volto a cantar.¿ pronto, lá vem o nevoeiro outra vez. deixei de ver o écrã. lembram-se do avô perdido na névoa a dois passos do portão de casa, perguntando se era aquilo a morte, em "Amarcord"? isto assim não vale. mesmo. estou a escrever a sério. postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:43 AM - Comments: isto assim não vale. não vale. não vale. não vale trazer nevoeiro aos olhos de quem lê os posts. primeiro a menina-um-bocadinho-triste. agora um pc-em-frente-ao-pc a lembrar-se de um homem não posso escrever como porque não sei se os há assim. também eu me lembro pc. também eu lhe ouço a voz à beira de falhar quando... ¿que eu não volto a cantar¿. deixo aqui a balada de outono qualquer dia encontramo-lo na rua, ao Outono, inteira como a lembro. ¿aguas e pedras do rio, meu sono vazio, não vão acordar, águas das fontes calai, ó ribeiras chorai, que eu não volto a cantar, rios que vão dar ao mar, deixem meus olhos secar, águas das fontes calai, ó ribeiras chorai, que eu não volto a cantar. águas do rio correndo, poentes morrendo p¿ras bandas do mar, águas das fontes calai, ó ribeiras chorai, que eu não volto a cantar. rios que vão dar ao mar, deixem meus olhos secar, águas das fontes calai ó ribeiras chorai que eu não volto a cantar.¿ pronto. lá vem o neveoiro outra vez. deixei de ver o écrã. postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:37 AM - Comments: O LIVRE CURSO DA POESIA por António Poppe na Livraria Eterno Retorno a partir de 30 de Setembro http://www.atxilipu.com/poppe/
postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:55 AM - Comments: Quarta-feira, Setembro 10, 2003 TRISTEZA, POR FAVOR VAI EMBORA Queria ter escrito isto ontem. Não sei se a-menina-contente de hoje é a mulher-um-bocadinho-triste, aquela a quem assaltou a frase "a morte passou mais uma vez por aqui". É que essa mulher deixou-me também um-bocadinho-triste. A frase que a assaltou a ela assaltou-me também a mim, ao lembrar-me outra. Frase, que não mulher. Em concreto, "a morte saiu à rua num dia assim", de Zeca Afonso. Estamos de acordo em que a morte, para passar mais uma vez por aqui, tem de ter saído à rua, certo? "A morte saiu à rua" evoca Dias Coelho, o pintor que a PIDE assassinou. Mas ontem lembrou-me foi o Zeca. A humildade do Zeca. A voz do Zeca. Que uma doença matou "num dia assim", um dia de Fevereiro de 1987 de que não me lembro, porque era muito miúdo e até nem estava em Lisboa - onde uma multidão se despediu dele, disso sim lembro-me, de ver as fotografias, com o Sérgio Godinho e o José Mário Branco destacando-se entre milhares de caras. A morte de Zeca terá sido horizontal, tolhido por uma esclerose não-sei-das-quantas que apenas consumou o que já se vira, verticalmente (e vocalmente) no seu último concerto, em 82 ou 83. É arrepiante o "águas das fontes calai / ó ribeiras chorai / que eu não volto a cantar" da sua Balada do Outono. Escreveu-a antes de adoecer, mas ao cantá-la naquela noite, no Coliseu dos Recreios, deu-lhe significado mais negro. Pensar em Zeca, na sua humildade, na sua voz e na sua doença é pensar também em Carlos Paredes, na sua humildade, na voz que os seus dedos emprestam à guitarra e, uma vez mais, na maldita doença que há dez anos mantém horizontal e à espera da morte um homem em tudo vertical. Puta de vida. pc-ao-PC-e-triste-mas-a-resistir PS: Claro que depois há coisas bonitas: je t'aime, meninas contentes e, acima de tudo, a música. Nánáiáná, náiánáiánáiáná, náiánáiánáiáná, quero de novo sambar. postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:09 PM - Comments: (para Louise Bourjois e Ruy Belo) - Je t´aime. Estava escrito sobre a almofada. A linha em sangue vivo. Alguém talvez bordara o que sentira e não conseguira dizer a outro alguém. Alguém se ajoelhara sobre a confissão. No avesso de uma almofada que agora servia para eu proteger os joelhos enquanto ajoelhada orava. Alguém a quem talvez outro alguém lhe tivesse dito. Ecris mois. Pas de lettres. Ou talvez. Dis-moi que tu m´aime. Mes pas aujourd´hui. Enquanto eu te murmurava, sussurrava. Alguém me bordava um dos joelhos, que entre a meia e a saia, se deixava aparecer. Há palavras que só podem ser ditas de joelhos. Há palavras que só podem ser bordadas a linha encarnada ou vincadas na pele. Je t´aime. Dentro de quem ora. Dentro de quem borda. Lava que ainda não cegou os teus olhos. Nunca te encandeaste? É uma pergunta. Eu encandeei-me de ti. É uma resposta. Quando saí do templo olhei o joelho esquerdo e tentei subir a meia que teimava em ficar. Envergonhei-me que alguém as visse. As palavras que eram para ti. Apenas para ti. E fingi que perdera alguma coisa no chão inclinando-me. Fui assim até casa. Mas os vincos na pele tinham desaparecido e na polaroid que disparara em direcção ao genou a pele lisa e intacta parecia recusar o encontro. Queria-ta enviar embora não te soubesse a morada. No templo, vazio, procurava-te, retinha-te, esgotava-te. Mas cá fora tantos eram os sinais que me baralhava. Olhava o mapa da cidade, aberto sobre o soalho, e com o dedo tentava caminhar ao teu encontro. Imaginava onde viverias. No centro? Nas periferias? Queria-te na rua, sem destino, à mercê dos dias. E sobre um banco de jardim, todas as noites. Queria que tivesses passado muito frio, para que o meu pouco, calor, te parecesse tanto. Queria que tivesses passado muita fome, para que o meu pouco, alimento, te enchesse. Queria-te só. Para que a minha solidão te fosse tudo. Je t´aime. a-menina-con-ten-te postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:02 AM - Comments: Terça-feira, Setembro 09, 2003 COM A CABEÇA ABERTA Hoje acordei e a primeira frase que me assaltou foi "a morte passou mais uma vez por aqui". Têm passado algumas mortes por aqui. A maior parte delas celestes. Das que se dirigem para as alturas que não alcanço e a que chamaria também de verticais. Mas outras há horizontais. Mortes térreas, de um só piso. Onde o morto somos por vezes nós próprios. Porque abandonamos alguém. São estas as mortes que mais custam a aceitar por sabermos que dependem de uma vontade nossa ou ao alcance de quem nos morre. Quando alguém segue uma outra direcção deixando o outro a sós, especado, sem sequer olhar para trás a mostrar o derradeiro rosto. O derradeiro aceno. Não há perdão. Não há consolo. E, quase sempre, há a troca, a descoberta de algo novo que não poupa os presentes agora passados. À história. Numa eventual biografia do morto-vivo, se for homem célebre, lá estarão todos juntos a coroar épocas diferentes, lembrados apenas por serem aqueles com quem conviveu durante um período demarcado - o período que medeia o ano em que se apresentou e o ano em que os deixou. A vida é uma caminhada na qual não deveríamos deixar destroços. mulher-um-bocadinho-triste postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:43 AM - Comments: Domingo, Setembro 07, 2003 Tirava os ganchos. Um a um. No sentido dos ponteiros do relógio. Fazia-o com um vagar que encantava a criança. A criança não desviava os olhos do cabelo da avó, enrolado muito enroladinho quase no cimo da cabeça. Não se via onde começava ou acabava. Era como um bicho de conta quando a criança lhe tocava com o dedo. A criança estava sempre a tocar nas coisas e nos animais, para ver se eram de mexer ou de ficar quietos. As mãos da criança eram de mexer e, por isso, nunca estavam limpas. As mãos da avó tiravam ganchos um a um. Os ganchos pareciam ¿us¿, mas de pontas muito loooooongas. O cabelo da avó só começava a distender-se quando já havia um montinho de ¿us¿ em cima da mesa, de camilha até aos pés, a esconder a braseira. Depois soltava-se uma trança cinzenta, com uma ponta fina e encaracolada. A criança aproximava os dedos e mexia-os dentro do cabelo da avó. O cabelo, antes uno, separava-se em três. A avó tinha tantas ondinhas no cabelo, espantava-se a criança, que pegava na travessa e a fazia correr por ali abaixo. Muitas vezes. Os bichos de conta podiam esperar quando ela penteava a avó. a nostálgica postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:51 PM - Comments: Sexta-feira, Setembro 05, 2003 FIADA DE GENTE postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:58 AM - Comments: REBENTAR OS TÍMPANOS DO LEITOROUVINTE AO SOM DO POEMA ORAL DOM QUE EM BRASA RASGA O ESPAÇO ENTRE CORRENTE ARDENTE FIADA DE GENTE CORDÃO TIMPANAL VIBRANDO SEMPRE DE MENTE (para o meu irmão) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:12 AM - Comments: Quinta-feira, Setembro 04, 2003 A CASA COR-DE-ROSA Éramos sete naquela Casa. Sete crianças endiabradas. Três de uma, quatro de outra. De fronte o mar e as rochas, pelas costas o pinhal, a nascente a vila e a poente a praia. No centro ficava a Casa. A Casa parecia feita de dois esqueletos. Um revestido de pobre e outro de rico. A zona de serviço e a zona dos senhores. As escadas, as duas colunas vertebrais. Uma em laje, mais larga, outra em madeira, mais estreita, mas que nos levava mais alto e permitia-nos voar. Descíamos sentados no corrimão, fechávamos os olhos e deixávamo-nos levar pelo balanço, até que um de nós achou mesmo que voava e ficou com uma cicatriz no queixo de recordação. Vigiava-nos um gigante disfarçado de mulher. Por isso aquele nome, Bernarda, que só mais tarde ouvi outro igual também numa personagem de ficção como imaginávamos aquela. O gigante perseguia-nos pela Casa, mas não nos deixávamos apanhar. Tínhamos esconderijos só nossos. As nossas pequenas celas para sonhar. Um dia o meu primo mais novo tentou matar o gigante. Foi o nosso herói por um dia. Mas a faca nem sequer perfurou o débil pano do avental com peitilho, que para nós passou a ser uma armadura de ferro disfarçada. Naquela Casa coabitavam lado a lado três mundos, o nosso, o dos adultos e a atravessar-nos ao meio, o das criadas, que de dia faziam o serviço e à noite acarinhavam-nos como se fôramos filhos. Beijocavam-nos, abraçavam-nos, davam-nos colo, contavam-nos histórias de infâncias inverosímeis em que gomos de laranja faziam a vez de reboçado em dias festivos. Partilhávamos a televisão: as novelas brasileiras, o Natal dos Hospitais, a cornélia, ...; e a nós, mulheres, deixavam-nos ler aqueles romances aos quadradinhos das revistas de amor, paixão e ódio. À noite eu sonhava com aqueles príncipes encantados, os beijos dados no meio da erva precedidos de um jogo de gato e rato através de campos em flor. Às vezes fazia xixi na cama e para me desculpar dizia que tinha sonhado que estava na casa de banho e todos acreditavam. As minhas primas liam livros aos quadradinhos, discutiam a mónica, o cebolinha, o professor pardal, o riquinho. Dormíamos as três juntas, num quarto com um beliche e uma cama. Quando não queríamos ir ao colégio, trancávamos a porta, saíamos pela janela da mansarda e deitávamo-nos nuas sobre o telhado à espera que a chuva, o vento e o frio nos trouxessem a febre. Enquanto isso, o gigante arrombava a porta com toda a sua força, segurava-nos por um braço e enfiava-nos dentro das cuecas, meias, calças, camisola interior, camisola de gola alta, botas, anorak. Tudo entrava de uma só vez e já estávamos na escola. Certas noites havia festas. Nós não éramos convidados, nem desejados, por isso não aparecíamos. Mas estávamos lá, por detrás das portas, debaixo dos sofás, com as caras coladas aos vidros das janelas. Até que a nossa respiração, uma tosse repentina, um espirro, nos traía e, com dois açoites, virávamos costas e lá nos íamos deitar, não sem antes lançar um último olhar. De dia, quando acordávamos, dávamos uma corrida até ao salão. Inalávamos o fumo, dançávamos ao som da música que ainda sentíamos pairar no ar, bebíamos de um trago os restos de vinho, whisky, rum, vodka, ... que restavam nos copos ainda com cheiro a outras bocas. Os nossos pijamas de duas peças transformavam-se então em vestidos de cetim, quais cinderelas precoces. E os primos faziam de nossos pares, trajando smoking ou paletó. Éramos tudo naquela casa. menina-à-quinta postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:54 AM - Comments: Terça-feira, Setembro 02, 2003 augustus et novus amicales. est invitates parlare et cenare in literates et orbi forum. bacchus et panem ofertates, orfeus suonare et parvulus espiritus laudare. tomara já quinta feira, na eterno retorno, com sopa e uvas sobre as mesas de verga e acadeiradas conversas rodeadas de profundos copos de água e chá. aurelia timidus, uma vossa vestal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:24 PM - Comments: Segunda-feira, Setembro 01, 2003 acordei na cidade a pensar na vida nova. telefonei aos amigos, secretamente à espera de relatos de espampanantes acontecimentos, zangas fratricidas, despedimentos com justa causa, mais fugas ao fisco, discórdias, escândalos, duelos. mas nada se passara. deitei para trás das costas mais uma ilusão: a de que o mundo se altera quando estamos de férias, a de que se revelam verdades e desvendam mistérios quando viramos a cara. todas as cartas que deixara sobre a mesa me esperavam com uma abnegação de coisas. coisas sem movimento nem alma. senti-me presa. pus o relógio e rectifiquei a postura. os músculos foram perdendo pouco a pouco a flacidez do descanso. fui ao supermercado e pus o lixo no mesmo caixote verde que me fitava sem me reconhecer. fraca de espírito postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:19 PM - Comments: Descobri a cançao de que falei no post anterior. A música tem destas coisas, permite dizer opostos com a mesma melodia. Esqueci-me de assinar a mensagem anterior, mas ao falar de Madrid suponho que me identifiquei. Otro abrazo, amigos. pc. Sealed With A Kiss Jason Donovan Though we've got to say goodbye, for the summer Darling, I'll promise you this I'll send you all my love every day in a letter sealed with a kiss Yes, it's gonna be a cold lonely summer But I feel the emptiness I'll send you all my dreams every day in a letter, sealed with a kiss I'll see you in the sunlight I'll hear your voice everywhere I'll run to tenderly hold you, but darling, you won't be there I don't wanna say goodbye for the summer Knowing the love we'll miss, well, let us make a pledge To meet in September and seal it with a kiss 100 Hit Lyrics. Gürol CANBEK (gcanbek@hotmail.com) , 2000-2001 http://go.to/gurol Yes, it's gonna be a cold lonely summer, But I feel the emptiness; I'll send you all my love Every day in a letter sealed with a kiss Sealed with a kiss Sealed with a kiss postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:56 AM - Comments: De C. Jérome, Derniers baisers, que cantavam os Chats Sauvages. Para responder ao Bécaud. Por curiosidade, faó saber que há uma versao inglesa desta música em que o enredo é ao contrário: dois amantes separam-se durante o verao. Desculpem a falta de "tiles", estou de volta a Madrid. Un abrazo, tribales. DERNIERS BAISERS Quand vient la fin de l'été sur la plage Il faut alors se quitter peut-être pour toujours Oublier cette plage et nos baisers Quand vient la fin de l'été sur la plage L'amour va se terminer comme il a commencé Doucement sur la plage par un baiser Le soleil est plus pale Mais nos deux corps sont bronzés Crois-tu qu'après un long hiver Notre amour aura changé ? Quand vient la fin de l'été sur la plage Il faut alors se quitter les vacances ont duré Lorsque vient septembre et nos baisers Quand vient la fin de l'été sur la plage Il faut alors se quitter peut-être pour toujours Oublier cette plage et nos baisers, Et nos baisers, Et nos baisers ! postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:52 AM - Comments: um presente para a http://amontanhamagica.blogspot.com (não conseguimos colocar o link!) que nos abriu as portas de sua casa e supriu a nossa carência de sal como qualquer bom vizinho que se preze! (peço desculpa por não estar traduzido mas tinha-o assim mesmo) "(...) I have always been particularly touched by the plays and the stories of Anton Chekhov. He said about himself: "medicine is my lawful wife and literature my mistress. When I get tired of one I spend the night with the other. Though it´s disorderly, it´s not dull and besides, neither of them loses anything from my infidelities. If I did not have my medical work, it would be hard to give my thought and liberty of spirit to literature." Some of his stories such as the "Misery", "Ward n.º 6" or the "Black Monk" should be part of any psychiatric cannon. The "Medical Case" illustrates vividly what he called the "common stuff of humanity". Like most Chekhov´s writings, the story is of a disarming simplicity. A professor is called to see the sick daughter of a certain Mrs. Lialikov, apparently the owner of a factory. He sends his intern, Korolev, in his place, so he travels from Moscow to the country. The governess tells him that "she had been "sickly, you might say, from childhood", although the doctors suspected it was "nerves". The girl was big, tall, but not pretty, lying in bed complaining of terrifying heart pounding. Then suddenly as a light is brought into the room she suddenly clutches her head with her hands and bursts into tears. Then the impression of a woebegone and uncomely creature suddenly vanishes, and instead Korolev "no longer noticed either the small eyes or the coarsely developed lower face, he saw a soft, suffering look, which was both reasonable and touching, and the whole of her seemed shapely to him, feminine, simple, and he would have liked to comfort her now, not with medications, not with advice, but with a simple, tender word". Later she confesses him that during the day she reads, but at night her head is empty, there are some sort of shadows instead of thoughts. Korolev tries to explain to her that she is not content in her position as a factory owner and rich heiress, and her illness was simply that. It has been observed that the study of literature may contribute in many ways to appreciate the human dimensions of medicine: literary accounts of illness may illuminate us about what is indeed to be sick." (excerto de "REPRESENTATION OF SUFFERING IN LITERATURE", do Prof. Doutor João Lobo Antunes) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:23 AM - Comments: C'EST EN SEPTEMBRE Gilbert Bécaud Letra de Maurice Vidalin Les oliviers baissent les bras Les raisins rougissent du nez Et le sable est devenu froid Oh blanc soleil Maîtres baigneurs et saisonniers Retournent à leurs vrais métiers Et les santons seront sculptés Avant Noël C'est en septembre Quand les voiliers sont dévoilés Et que la plage, tremblent sous l'ombre D'un automne débronzé C'est en septembre Que l'on peut vivre pour de vrai En été mon pays à moi En été c'est n'importe quoi Les caravanes le camping-gaz Au grand soleil La grande foire aux illusions Les slips trop courts, les shorts trop longs Les hollandaises et leurs melons De cavaillon C'est en septembre Quand l'été remet ses souliers Et que la plage est comme un ventre Que personne n'a touché C'est en septembre Que mon pays peut respirer Pays de mes jeunes années Là où mon père est enterré Mon école était chauffée Au grand soleil Au mois de mai, moi je m'en vais Et je te laisse aux étrangers Pour aller faire l'étranger moi-même Sous d'autres ciels Mais en septembre Quand je reviens où je suis né Et que ma plage me reconnaît Ouvre des bras de fiancée C'est en septembre Que je me fais la bonne année C'est en septembre Que je m'endors sous l'olivier postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:53 AM - Comments:
|
![]() |