Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Domingo, Agosto 31, 2003


desenho de António Poppe
s/ título, 1998
Tinta da china sobre papel
23 x 30 cm
Colecção Fundação Luso Americana, Lisboa

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desenho de António Poppe
s/ título, 1998
Tinta da china sobre papel
23 x 30 cm
Colecção Fundação Luso Americana, Lisboa

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:20 PM - Comments:


Enquanto escrevia pela madrugada fora a luz foi-se e, com ela, o acesso à rede
Será o apagão da cidade de Lisboa, depois de Nova Iorque, Ontário e Londres?
Ou do meu bairro, do meu quarteirão, do meu prédio, do meu andar, da minha sala, do meu candeeiro, dos meus olhos,...?
Porque apagões há muitos, como chapéus!

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:12 AM - Comments:


Sexta-feira, Agosto 29, 2003

(porque desde que este blogue existe nunca apresentámos a tribo, resolvemos publicar esta pequena entrevista feita à tribo pela Maria João Cantinho e publicada na revista on-line Storm-Magazine.com no início deste ano)

M.J.C. - Saíu recentemente o segundo livro da Tribo, justamente intitulado "As Segundas Palavras da Tribo". Gostava que me dissessem como é que nasceu este projecto colectivo tão interessante e donde partiu a ideia.
M.P. - Não sei se no início podíamos falar de projecto. Gosto da palavra colectivo. No início éramos um colectivo sem projecto. A ideia de tribo não precedeu a edição dos livros, foi exactamente o contrário. A palavra tribo surgiu com a procura de um título para o primeiro livro. A Isabel, Branco, lembrou-se de uma frase muito bonita do poeta Malarmé que diz qualquer coisa como "os poetas são os purificadores das palavras da tribo" e nós, de imediato, percebemos que ela tinha acertado em cheio.
A tribo nasceu à mesa, numa mesa de canto de um pacato restaurante Lisboeta. Começámos por ser quatro pessoas, três raparigas e um rapaz. Uma tradutora-interprete, uma jornalista, uma advogada e um professor de língua portuguesa. Todos oriundos das letras, mas cingidos ao enquadramento dos seus mesteres. Foi por partilharmos o gosto pela escrita (livre), pela leitura, e pelo arroz de grelos, que nos aproximámos. As duas Isabéis e o Zé conheceram-se num curso de escrita criativa da Luísa Costa Gomes. Eu apareci mais tarde, pela mão da Branco. E assim foi, de um primeiro almoço de apresentações, demos início, sem na altura nos apercebermos disso, a este agora projecto colectivo tribal.
Ao fim de um ano de encontros semanais, percebemos que tínhamos de quebrar o circuito fechado a que os textos estavam circunscritos. Começámos a sentir necessidade de os mostrar. De chegar a novos leitores. Foi aqui, talvez, que nasceu o projecto tribo. Quando, pela primeira vez, se colocou a questão da edição e tivemos que nos decidir por editar por nossa conta ou procurar uma editora. Depois de uma rápida troca de impressões com o meio editorial, resolvemos avançar para a edição de autor, neste caso de autores. A nossa visão do "objecto-livro" não sobreviveria a uma lógica de mercado. E agradava-nos a ideia de controlarmos todo o processo. A escolha do papel, do tipo de letra, da paginação, da capa; os contactos com todas as pessoas pelas mãos das quais o livro circula, desde a gráfica até às livrarias.
Fizemos muitas amizades. Houve pessoas incríveis que se cruzaram no nosso caminho e que nos apoiaram desde o início. E, embora nem todas participem no livro, participam nos encontros antes e depois do livro. Prolongando a mesa.
Numa primeira fase, pensámos apenas em fazer o livro para oferecer a familiares e amigos, em jeito de presente de Natal. Mas depois de pronto o livro fugiu-nos das mãos. Das "Primeiras Palavras da Tribo" só nos restam vinte exemplares e as segundas venderam o suficiente para pagar a edição e nos deixar troco para podermos começar a pensar nas terceiras, quartas, .... Agora que a tribo alargou e se abriu a outras linguagens, outros registos, como a fotografia e o desenho. Não podemos parar. Parar seria morrer da cabeça.
I.B. - De repente aconteceu reencontrarem-se amigas que se julgavam normais e que se descobriram como escritoras de prosas dispersas e leitoras apaixonadas. E a partir de então os seus encontros tornaram-se luminosos em volta de textos lidos, livros por ler, poesia que se partilha e os textos que revelam um olhar transformador sobre a vida. Daí até à ideia de publicar os textos para nos revelarmos também aos amigos que nos rodeavam e que nos desconheciam foram alguns passos dados com entusiasmo e uma enorme crença. Tudo isto em volta de uma mesa, de uma atitude de uma ingenuidade antiquada e da amizade que nunca esfriou, que nunca fugiu das desavenças.Um livro para os amigos nos conhecerem. Um desnudar da nossa paixão pelas palavras, que nos retratam e que nós esperemos captem a essência do mundo aos nossos olhos.


M.J.C. - Como é o processo de criação literária? Os escritores produzem os contos independentemente ou há um trabalho colectivo por detrás?
M.P. - O processo criativo não é colectivo. A criação só é trazida para a mesa, partilhada, enquanto obra acabada ou semi-acabada. Primeiro escreve-se, depois come-se, e só então se fala do que se escreveu ou do que se está para escrever, do que se leu ou do que se está a ler. O acto criativo é solitário e exige o jejum para poder funcionar. A mesa com refeição é a nossa revolta contra a mesa com computador. Para não acabarmos a comer a máquina ou a nossa própria cabeça dentro dela. À refeição, a cabeça descansa enquanto o estômago trabalha. Facilitando a assimilação. Não se fala de boca cheia, é muito feio!
I.B. - Às vezes são lançados desafios, temas. A alguém que só perseguia mulheres personagens e que se afastava da descrição dos homens, exigimos uma escrita à volta de um homem, um personagem masculino tão forte como as suas mulheres o eram. E daí nasceu a ideia de todos escrevermos com homens dentro. Os textos teriam de rodopiar em torno do homem. Aos homens que participaram nesta segunda edição foi-lhes colocada a questão inversa. Uns aceitaram outros não. O método de trabalho mantém-se estritamente individual e intimista ao ponto de alguns de nós só saberem o gosto do texto dos outros poucas semanas antes da publicação. Para que a liberdade seja vivida em pleno, para que a confiança no juízo de cada um seja inviolável. E por cima de tudo isto, como o molho à espanhola nos carapaus, está a crença uns nos outros e a esperança mal camuflada de que alguns de nós sigam para além da Tribo, construam a sua obra a sós. E os outros, a Tribo, saberão que valeu a pena.

M.J.C. - O que é particularmente saboroso é o modo como "A Tribo" se tem vindo a implantar discretamente, a crescer lenta e solidamente e a afirmar-se um pouco à margem da lógica do mercado. Acham que esse sonho concretizado está para continuar? O que vem a seguir?
M.P. - Não sei se se poderá falar de discrição no caso de autores que se publicam em vida. A verdadeira discrição é a da obra póstuma. O nosso caso será mais o de uma indiscrição discreta. Tentamos manter alguma reserva. Felizmente, por termos outros ofícios, não precisamos de vender para sobreviver e isso dá-nos muita liberdade. Permite que os livros caminhem pelos seus pés, calmamente, rumo aos leitores, por ruelas e calçadas, sem necessitarem de tomar transporte nas monótonas auto-estradas da social comunicação. Como leitora gosto de chegar aos livros pelas mãos, pelo tacto, pelo espirro do pó acumulado. Os livros da minha vida foram encontros assim, do acaso. Nas livrarias menos arrumadas vasculho sempre por detrás das primeiras filas para ver o que ficou esquecido na face não visível da prateleira. Por isso gosto de frequentar os alfarrabistas. Afogar-me no aparente caos e de lá sair com um ou dois livros na boca.
I.B. - Somos efectivamente da margem, a molhar os pés no rio de águas frias e a não saber se nele queremos mergulhar. Fora da Tribo, no mundo editorial e da literatura publicada sopram ventos, agrestes uns, agridoces outros, pouco acolhedores quase todos. Sem menosprezo por textos maravilhosos que por aí andam muito maltratados. Não pensamos ocupar outros lugares que não o nosso, que vamos conquistando dia a dia como quem borda uma colcha, como quem espera por alguém ou alguma coisa, que há-de chegar. Gostamos de nos ver repousar sobre os balcões dos alfarrabistas, manuseados por amantes de livros, descobertos entre sobras das distribuidoras, entalados entre prémios revelação e quintas reedições. Vamos continuar como respiramos, por vezes ofegantes da pressão dos afazeres que nos afastam das palavras, outras abandonando-nos de olhos brilhantes em redor de um chocolate. A comer, a ler e a escrever.

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Quinta-feira, Agosto 28, 2003

notas de uma leitora

(para José Tolentino Mendonça)

Morrer atropelada
Com um livro de poesia na mão
Aberto numa página ao acaso
Que seja toda a minha vida
Que seja de igual para igual.


(para Enrique Vila-Matas)

Luzias a dor ao passares
gaivota ingénua
confundias amor com calor
corrias para o outro julgando-o o sul
voltavas atrás
não tinhas bem a certeza
demoravas-te
lembravas-te então da bússola que deixaras esquecida no bolso de fora de uma mochila há muito perdida
parecia-te indispensável
tarde de mais
ninguém a sul nem a norte nem a este nem a ...

caíste em ti
hoje pelo menos sabes que não te és dispensável


(para João Luís Barreto Guimarães)

O que eu mais gostei de Viena foi dos Cafés
de Praga foi dos Cafés
do Porto foi dos Cafés
de Lisboa ... estou ainda à espera do café

7 de Março
perdi um lenço numa rua do Porto
9 de Junho
encontrei-o num poema em Lisboa

10 de Julho
é uma mulher que te conhece pelas palavras, escritas

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Terça-feira, Agosto 26, 2003

a tribo contada por miúdos

Era uma vez duas meninas e um menino
brincavam com as palavras
soltavam-nas para cá
soltavam-nas para lá
até que uma caiu no chão e esborrachou-se
sob o tacão rijo da mestre-escola
os três choraram com pena
e, oprimidos, prometeram nunca mais brincar com coisas sérias
tinham acabado de crescer
medo hesitações dúvidas
deixaram de acreditar
mas nunca deixaram de contar, para dentro
1, 2, 3 contos
até que apareceram outras meninas meninos
uma mão cheia delas deles
e o medo foi-se
eram meninas meninos que ainda não sabiam do medo de contar
inda agora aprenderam a falar!
e já eram nove
palavras voavam de um lado ao outro da mesa
não de escola
não de trabalho
de cantina
palavra que no dicionário
instituição que ministra refeições e outros auxílios a crianças pobres;
lugar onde soldados, estudantes, operários ..., podem obter refeições, vestuários e outros utensílios, a preços módicos
já não somos infantes
já não somos estudantes
nunca fomos soldados
somos operários
empenhamos a língua
a preços módicos
aos sonhos
de menina menino

a-menina-mulher

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Quarta-feira, Agosto 20, 2003

tradução livre de "balada de ser criança", apropriada a peter handke para dar à outra no dia 20 de agosto
quando a criança era criança, caminhava com os braços a balançar. queria que a corrente fosse um rio. o rio uma cascata e esta poça o mar. quando a criança era criança não sabia que era criança. tudo estava cheio de vida e a vida era una. quando a criança era criança não tinha opiniões sobre o que fosse. não tinha hábitos. sentava-se de pernas cruzadas, largava a correr, tinha uma poupa no cabelo e não fazia pose se fotografada. quando a criança era criança, era o tempo de questões como estas: porque é que eu sou eu e não tu? porque estou eu aqui e não ali? quando é que o tempo começou e onde é que o espaço acaba? a vida debaixo do sol não é apenas um sonho? não é o que eu vejo, ouço e cheiro apenas uma ilusão de um mundo antes do mundo? o mal existe de facto e há pessoas que são mesmo más? como pode ser que eu, aquele que eu sou, não existisse antes de eu ser eu e que algum dia aquele que eu sou deixe de ser aquele que eu sou? quando a criança era uma criança engasgava-se com espinafres, ervilhas, arroz-doce e couve-flor cozida a vapor. não que comesse tudo aquilo e não apenas porque tinha que. quando a criança era criança acordou um dia numa cama estranha e agora isso acontece sucessivamente. muitas pessoas pareciam bonitas naquela altura e agora apenas algumas, se tiver sorte. ela tinha uma imagem precisa do Paraíso e agora pode apenas tentar adivinhá-la. não era capaz de conceber o nada e agora treme com a ideia. quando a criança era criança brincava com entusiasmo e agora também fica excitada, mas só em relação ao seu trabalho. quando a criança era criança as bagas caíam-lhe nas mãos como apenas as bagas fazem e ainda o fazem agora. as nozes frescas tornavam-lhe a língua áspera e ainda a tornam agora. em cada topo de montanha tinha um desejo por uma montanha ainda maior. e em cada cidade tinha um desejo por uma cidade ainda maior. e ainda é desta maneira. alcançava as cerejas no cimo da árvore com a emoção que ainda sente hoje. era tímida com todos os estranhos e ainda é. esperava pela primeira neve. ainda espera da mesma maneira.

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Quarta-feira, Agosto 13, 2003

Alucinação de verão
Vi montanhas geladas, árvores
Brancas de neve
Vi lagos rendidos ao frio envidraçarem-se à superfície
No mar, icebergs faziam vez de rocha
Em terra, pinguins faziam-se passar por homens.
Andorinhas
Não vi
Nem ouvi grilos
E suas namoradas
cigarras


breve epitáfio para uma árvore
tu, mesmo assim, não fugiste.
Esperaste, até ser tarde demais.

a-mulher-das-quintas-às-quartas

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Terça-feira, Agosto 12, 2003

À SOMBRA DA PÓVOA
Póvoa de São Miguel, freguesia do concelho de Moura. Pequena povoação da margem esquerda do Guadiana. Sua vizinha e prima abastada é a nestes dias tão falada Amareleja, a quem, para além de lhe caber a máxima temperatura do país, coube sempre dose melhor servida de fundos públicos. Em 1933, ano em que é inaugurada na Amareleja a primeira cabina telefónica, queixam-se os moradores da Póvoa no "Jornal de Moura": "Sabe-se apenas que Póvoa, Santo Amador, não têm esperanças de possuir a sua cabina telefónica. No entanto, passam rés-véz das traseiras das suas habitações os fios telefónicos que ligam outras povoações, (...) Não compreendemos estas diferenças de critérios e não nos conformamos com ela." Por outro lado, ainda hoje a Póvoa não tem pároco nem GNR próprios. Para os seus serviços religiosos vê-se obrigada a mendigar padre nas paróquias vizinhas. E o serviço da Guarda é feito com o posto de Moura. O que vale é haver pouco que guardar nesta freguesia, já que é tudo gente boa e honesta. Daquela gente que já quase só o Portugal profundo nos consegue dar. E é com palavras desta gente que vos deixo, dois poemas em rima do poeta João Chouriço Páias, filho da terra que este ano completa os 83 anos:


A MINHA BIOGRAFIA

A minha biografia
Vista à luz do dia
Revela bem quem eu sou
Sou um simples aldeano
Andei à escola quatro anos
Graças ao meu avô

No exame por qualquer razão
Deram-me uma distinção
E assim fiquei formado
Não sei se fiz bem ou mal
O meu pai era moiral
Fui também guardar gado

Depois uns anos mais tarde
Aos catorze anos de idade
Deixei de ser moiral
Como trabalhador honrado
Fui então condecorado
Com o nome de rural

Cada qual faz como gosta
Eu fui juntar lenha às costas
Pra fazer carvão da brasa
Como não fui militar
Resolvi-me então casar
E fui viver prà minha casa

Já depois de ser casado
De repente fui atacado
Por uma doença agressiva
Não me tocaram o campanário
Graças a um herbanário
Senhor Frederico da Silva

Ainda mal restabelecido
Passou-me pelo sentido
De tirar um curso agreste
O de podador de oliveiras
Lá de qualquer das maneiras
Fiquei classificado em mestre

Mas com medo ao desemprego
Eu nunca tive sossego
Andei sempre com invenções
É vergonha que se diga
Tive mais olhos que barriga
Em arranjar profissões

Também fui horticultor
E ainda fui lavrador
Lavrei com bois e bestas
Como o ordenado era baixo
Nada disso me deu tacho
Meti-me então a estafeta

Outra vez a decadência
Empreguei então a ciência
Em trabalho sofisticado
Passei a mestre pedreiro
Depois a carpinteiro
E agora estou reformado

Só que a minha reforma
É apenas uma forma
De tapar algum buraco
Recebo todos os meses
Não é sempre mas às vezes
Dá para comprar tabaco


UM LIMÃO CRIADO À MÍNGUA

Correr a terra inteira
Foi sempre o meu desejo
Esbarrei numa oliveira *
Não passei do Alentejo

E jamais me desenrasco
Porque deu o resultado
Da oliveira ser carrasco
E eu fiquei encarrascado

Vislumbrava nos horizontes
A imagem da minha nau
Fecharam-me portas e pontes
Fiquei no segundo grau

Sonhava com um liceu
E um curso superior
Mas quanto me aconteceu
Ter que aprender a pastor

Não bastou ver-me à rasca
Plo meu pai ser pobrezinho
Ainda a oliveira carrasca
Me veio barrar o caminho

Quem se formou finalmente
Em doutor ou engenheiro
O que era inteligente
Ou o que tinha dinheiro?

Durante mais de dez lustros
Até abril de setenta e quatro
Não ganhei só para sustos
Como os coelhos no mato

Com medo de ser salgado
Não quis ir à ilha do sal
Preferi ficar congelado
Que apodrecer no Tarrafal

Passei a vida em apuro
Com falta de respiração
Mesmo respirando ar puro
Asfixiei meu coração

Eu já pouco ou nada pesco
porque o meu fim será breve
mas esta lufada de ar fresco
ajuda-me a partir mais leve

agora é que posso falar
e dar ousadia à língua
mas que sumo pode dar
um limão criado à míngua?

* Oliveira, refere-se ao ditador Oliveira Salazar

(poemas retirados de uma pequena colectânea de poesias de João Chouriço Páias)

a-mulher-das-quintas-às-terças

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Castanha a terra como as folhas que já por todo o lado se atapetam. Talvez algumas ajudem o fogo a comer mais e mais floresta ante a nossa impotência e/ou estupor temporário. Que afinal temporário é também este Verão, que de azul se acastanha já também em Outono. August, die she must, the autumn winds blow chilly and cold, cantavam Simon & Garfunkel quando ainda eram amigos e os dois tinham voz. Apesar disso, é um mês que está no meu top-12. A gosto.
pc

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Segunda-feira, Agosto 11, 2003

a terra naquele sítio não era castanha. como era possível viver tantos anos sem saber que existem sítios no mundo, num mundo próximo e que nos pertence onde a terra nem sempre é castanha, nem sempre tem a textura de terra. da nossa terra, da terra lavrada e gradada, rasgada pelo homem e pelas suas máquinas. ali a terra era preta, nem negra era. negra brilhava, tinha lustro. aqui a terra era preta mesmo, baça e quase mole, duma textura lunar. era terra nova, muito nova, a terra mais nova do mundo conhecido. e nesta terra preta, baça e mole, as pessoas calcavam pela primeira vez o solo virgem, forte, brutal e belo, tão belo como o paraíso.as pessoas da terra preta tinham olhos de mar. olhos onde se lia o mar, onde os outros se perdiam. era fácil soltar a alma neste olhar. a alma mergulhava no mar cavado afagado pelo vento de noroeste. a humidade eram as lágrimas da ilha, que não eram tristes, mas naturais.
a turista de olhos de mar

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Quinta-feira, Agosto 07, 2003

apanhei o avião para as ilhas marani. quando saí, de malas aviadas e chapéu de palha o calor ia atrás de mim, pegadinho às costas, como um post it. caramba. já devia ter adivinhado que era preciso tomar medidas para o calor não embarcar comigo. voltei ao check-in e avisei peremptória: disseram-me que o voo ia cheio ! é verdade, minha senhora, respondeu uma voz modulada. então, volvi eu, o calor não pode embarcar. não tem bilhete, nem reserva feita ! silêncio. a voz fardada discou dois dígitos num telefone invisível e disse: eu vou tratar disso. virei costas. dei uns passos em frente. nada. fui ao balcão dos jornais, pedi isto, aquilo e mais aqueloutro e esperei. o calor pegajoso que insistia em me perseguir, tinha-se ido embora. escapulira-se. embarquei e ao avistar as ilhas marani, senti que estava finalmente livre. desci as escadas do avião com especial desenvoltura. olhei em volta, senti o ar ensopado de humidade e respirei fundo. dei uns passos decididos. pus a pequena mochila às costas e ao retirar de dentro uma garrafa de água, salta uma mancha amarelada e disforme, que se me pegou às costas. Senti o visco do calor na pele e iria jurar que alguém ou alguma coisa se riu de mim, naquele instante.
a turista afogueada

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Segunda-feira, Agosto 04, 2003

ulisses punha-se a andar quando alguma coisa ou alguém o enervava. às vezes dispensava alguma coisa ou alguém. ele próprio conseguia enervar-se sozinho e punha-se a andar. no sentido literal. aquele de sentir o impulso da coxa retesar-se querendo erguer o pé. de vê-lo retomar o chão. delicadamente. a proteger os dedos que sabia um tanto curvos. quereis talvez saber para onde se punha ulisses a andar (é importante o assunto do destino) mas apetece-se a mim deter-me nos pés dele. não eram bonitos. não eram de catálogo de sandálias masculinas. demasiado grandes. pouco parecido um com o outro. como se não pertencessem ao mesmo corpo ou não tivessem andado pelos mesmos caminhos. um era mais alto. tinha o peito orgulhoso. o outro quase chato. queria todo inteiro tocar o solo. era este o mais feio. era dele que ulisses mais gostava.
penélope

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clarisse resolveu sacrificar-se. afinal era quaresma. pálida já ela estava. há doze dias que comia beterraba com salada de cenoura e leite. estava mais para o amarelado. a cenoura é saudável, mas o que faz bem à anca, faz mal à pele. o que faz bem ao bolso, faz mal ao ego. o que faz bem à pernas, faz mal às costas. Era verdadeiramente injusta esta conjugação indecorosa do bem e do mal. do jejum quaresmal estava conversada. mesmo que a anca não cedesse estava certa de que a recompensa no outro mundo seria multiplicada por mil. não o tamanho na anca, mas a paz de espírito, o júbilo de estar sem corpo, ou no que chamavam de corpo glorioso. clarisse imaginava-se, gloriosa, no seu mini vestido preto bem decotado, pairando entre as nuvens e de algum modo sendo apreciada por isso mesmo. Mas, vamos ao sacrifício, admoestava-se clarisse. o sacrifício: não desistir dos tratamentos de algas. eram adelgaçantes, mas suava-se como no inferno. e se alguma coisa a deixava transtornada era essa sensação de não poder escapar ao calor húmido das algas, que a faziam derreter. deitada na marquesa, de mãos e pés imobilizados por um cobertor eléctrico que a estorricava lentamente, clarisse tinha visões de pequenos demónios verdes e acastanhados que se deleitavam com os prazeres da carne. da carne dela, clarisse, que se liquefazia pela marquesa abaixo.
fraca de espírito

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Sexta-feira, Agosto 01, 2003

Marisa entrara numa gelataria, ou seria geladaria. Bem, vendia gelados, isso sabia ela bem. Dirigiu-se honestamente para o balcão e nem a mocinha de Fortaleza que a atendeu, desconfiou de nada.Pediu, com uma voz circunspecta, um cone de strawberry cheesecake e caramel cone explosion. Esperou alguns segundos pela reacção da garota, desta vez parecia-lhe que seria de Ipanema. nada. nem um piu, nem um reacção emotiva de carioca exilada. pensou que se poderia sentar. os cones não se sentam. só os copos com três bolas. mas, mesmo assim arriscou. ainda ontem tinha três bolas mais um café e tinha ficado pouco tempo. sentia que merecia alguma consideração. Na mesa tinham ficado em desleixo, dois pedaços de lemon dream e mystic vanilla. marisa ficou chocada. como podem as pessoas deixar assim para trás as coisas de que gostam. se não gostam não compram. ninguém as obriga. era sempre a mesma coisa. deciciu agir. passou com o dedo médio sobre os pedaços abandonados e levou-os à boca. assim estava bem. quando saiu resolveu telefonar para a CML. deviam inspeccionar melhor estes sítios. acesso reservado, idade mínima de entrada. multas. qualquer coisa devia ser feita para manter limpos e em ordem um dos únicos lugares do mundo onde se pode comer um bocado de infância em cone de baunilha.
fraca de espírito

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TRIBALISTAS

Tríade
Trinómio
Trindade
Trímero
Triângulo
Trio
Trinca
Três
Terno
Triplo
Tríplice
Tripé
Tribo

Os tribalistas já não querem ter razão
Não querem ter certeza, não querem ter juízo nem religião
Os tribalistas já não entram em questão
Não entram em doutrina, em fofoca ou discussão
Chegou o tribalismo no pilar da construção
...

Os tribalistas saudosistas do futuro
Abusam do colírio e dos óculos escuros
São turistas, assim como você e o seu vizinho
Dentro da placenta do planeta azulzinho
...

O tribalismo é um antimovimento
Que vai se desintegrar no próximo momento
O tribalismo pode ser e deve ser o que você quiser
Não tem que fazer nada, basta ser o que se é
Chegou o tribalismo, mão no tecto e chão no pé
...

(para ouvir no cd "Tribalistas", de Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte)

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