Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Quarta-feira, Setembro 07, 2011

penso que nasci para me sentar numa esplanada, receber o vento que circula em movimentos mais ou menos enérgicos, e bebericar um refresco. olhar para quem passa e quando a banalidade cansa, recolher os olhos num livro. também suspeito que tenha nascido para idealizar os pares, que passam ao largo e aproveitam o desnível do passeio para se tocarem. acho ainda, que me encaixo bem a rezar por quem passa e desejar que se sintam tão certos do Bem, como eu.

miss portugal

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Sexta-feira, Agosto 26, 2011

É tão fácil enunciar o que se pretende, como colocar um título num documento Word. Escrita, assim se intitula o que por vezes tão complicado parece. Difícil extrair de muitos pensamentos amontoados, como caixotes em dia de mudança. Mais penoso destrinçar o que vale a pena ser dito, o que está impregnado de verdade e de urgência. Dias há em que de nada se dizer, porque as narrativas se repetem e não têm vida, todos os pequenos gestos se tornam gigantes de angústia e clamam pela vingança das letras. Horas há em que o movimento substitui a escrita e de tanto se subirem e descerem escadas, de tantas máquinas de roupa e de loiça feitas, se esquece a mais profunda desilusão. Sair da repetição, não perdoar nem mais uma vez (para ser impelida para a acção), não arrastar as peles de animais há muito mortos e postos a pingar sangue no estendal. A voz sai perigosamente igual à de todos os dias. A raiva, pobre entidade raquítica, força a entrada em cena, insegura embora, olhando tentativamente para o ponto na boca da cena. Há minutos em que toda ela se exibe perante os ouvintes, que na maioria se entreolham sabendo-se no lugar errado. Não quer mais saber de argumentos racionais, de espera paciente, de olhar arguto e sábio sobre o futuro. Quer sair deste lugar onde.

miss portugal

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Quarta-feira, Agosto 24, 2011

olhei para trás. estava dentro do rio e olhei para trás e não em frente, como solia. Dentro do carro, envolta no abraço metálico, absolutamente aninhada na minha solidão, cheguei à terra firme sem temores. Postadas na outra margem figurinhas sem forro acenavam-me, com uma semelhança de cadáveres. Não lhes mostrei que me tinha libertado da mostalgia e dos acenos de máquinas. ao chegar a terra, vi-me a passar um túnel pequeno e que possivelmente me mataria. Sofri, chorei de angústia, mas estou viva. sou mulher, tenho nome e tenho voz.

miss portugal

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Segunda-feira, Março 28, 2011

continuo a batalhar na dura insatisfação de ser só o que sou e não ser mais, apesar de toda a percepção mais ou menos aguda que tenho de mim própria e da realidade. o que torna a vida difícil é sentir esta enorme discrepância entre o desejado e o possível. o heroísmo da luta e do devir quotidiano é o ser mais do mesmo diariamente até que, por uma miríade de coincidências, de acasos afortunados ou de mera gratuidade, passamos a ser melhores e somos por breves instantes alguém que gostaríamos de ser. o outro grande desafio é amarmo-nos, é tornarmo-nos amáveis nesses momentos de negrume.

miss portugal

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Quinta-feira, Março 03, 2011

dantes achava todas as coisas dignas de serem nomeadas, explicadas e em cada uma delas encontrava uma história que exigia ser contada, um sub texto que era demasiado gritante para ser esquecido ou ignorado. Hoje sinto que a maioria do que é e que encontro por existir ao meu lado ou perto de mim não tem história.Se a tem eu não a encontro, não me pede para ser escrita ou não vejo em mim a necessidade de arrancar às profundezas a verdade de cada coisa. Esta perda de capacidade ou de visão pesa-me e esvazia-me. Tento arranjar algo que preencha este espaço de imaginação que não parecia ter fim. Caminhando por esse fio de estrada onde não conheço o fim nem o que me leva a andar, olho para os outros e pareço entender uma qualquer sede de serem contados, de serem ditos por alguém, de serem pelo menos notados e vistos. Vistos e revistos, olhados muitas horas por dia, descortinados os seus desejos e anseios, entendidos por um amador que mais não faz do que amar o que quer ser amado e ser fiel ao olhar durante uma vida e para além dela. É este o sentido da eternidade , do que está para além. O amar não pode nunca acabar e por isso no amor existe eternidade, olhar cada dia incessantemente para o outro, mesmo que já se tenha esgotado o sentido de o fazer. Quem disse que o que se faz por sempre se ter feito não é verdadeiro. é-se o que sempre se fez. se sempre cuidei sou a mulher que cuida, se sempre estive presente sou o ser fiel, se sempre menti sou a mentira. As coisas à minha volta já não querem ser ditas. Eu já não sou a que sempre contei histórias. Elas esconderam-se ou eu escondi-me numa história de mim que ando a contar.
Gostaria de querer as histórias de novo. Não sei se elas me querem. Não sei se ainda há histórias para eu contar.

miss portugal

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