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Palavras da Tribo
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As primeiras, as segundas e todas as palavras Sexta-feira, Junho 20, 2008 Não costuma acontecer e olhe que eu sei do que falo pois ando de Metro há 30 anos. Mas hoje de manhã, era bem cedinho (chego ao escritório sempre pouco antes das oito), mal pus o pé no degrau das escadas rolantes, dei logo por um som pouco habitual. O que me veio à cabeça foram, sabe o quê, senhor comissário? folhas, folhas caídas, soltas das árvores, em rodopio, gentilmente impelidas pelo vento de maneira que parecem ter passado a contê-lo elas mesmas. Só quando passei das escadas para o piso quieto vi o rapaz – magro, abraçado ao violoncelo. Que estranho corpo faziam os dois, senhor comissário. O instrumento tão bojudo, o rapaz tão delgado, como parasitando o imenso violoncelo. Tem toda a razão, a biologia não é para aqui chamada e, digo-lhe mais, se fosse, soaria absolutamente evidente ser aquela uma relação de simbiose e não de parasitismo. Imagina o senhor o que é ouvir a suite nº 1 de Bach para violoncelo, logo de manhã, nos corredores do Metropolitano? Os corpos ainda adormecidos e renitentes tornam-se subitamente folhas caídas incitadas ao baile pela brisa. O som crescia até às abobadas dos túneis, o movimento, cada vez mais desprovido de pensamento, fazia-se fácil e o corpo leve. Foi nessa altura, senhor comissário. Eu descia as escadas para o cais, mais do que segurar-me a ele, acariciava o corrimão, quando ela se me apresentou pela frente. Não me peça para descrevê-la. Só me lembro das raízes brancas que lhe despontavam do alto da cabeça. Disse-me qualquer coisa como “saia da frente, não vê que quero passar?” Ao lado, os outros passageiros laçavam-se em corrida antes que se fechassem sonoramente as portas da carruagem. Só eu fiquei, com aquele corpo com raízes aéreas diante de mim. Os dois empancados, ela a olhar para os meus ombros e eu para o risco ao meio dela. Quando a suite acabou pus as minhas mãos no peito dela. Empurrei-a. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:30 PM - Comments: Sexta-feira, Maio 30, 2008 Eu e a minha afilhada canina Lara, um animal belíssimo que vive há seis anos no canil da União Zoófila, em momento de pausa durante um revigorante passeio pela belíssima serra do Monsanto.
IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:12 PM - Comments: Quarta-feira, Maio 28, 2008
The Dialogue Series: iii. Dinozord [2006] "- Pourquoi t’appelle-t-on dinosaure ? - Parce que je suis le dernier de ma race. Dernier de ma race comme la dernière bouteille de bière fraîche dans une ville à l’orée de la civilisation. Dernier de ma race comme le dernier sourire d’un braqueur de banque à l’agonie, emportant à jamais avec lui le secret de ses trésors. Dernier de ma race comme la dernière tirade de Molière, le Requiem de Mozart, le dernier cachet du virtuose. Dernier de ma race comme la toute dernière mandarine s’agrippant encore obstinément à un arbre rabougri alors que la saison des sécheresses déjà revêt le paysage de sa funeste robe brune. Comme la dernière brique de sperme avant l’andropause. Comme le dernier roi d’une courte dynastie. La dernière énigme du mystère. Le dernier bateau sur le fleuve. Dernier baiser. Dernier sommeil. Dernier amour. Dernier plaidoyer au pied du dernier échafaud du tout dernier des gamins-apprentis-dictateurs. Requiem aeternam dona nobis, Domine - De quelle race es-tu ? - De la race des chiens - Plutôt bête, ça ! - Je veux dire de la race des chiens du roi, de la race des chiens-fous-du-roi, de la race des chiens poètes, de ceux qui naissent la danse dans les jambes et la foudre dans le regard, la race des poètes-saltimbanques, des sopranos-scalpeurs, de ceux qui sont nus sur la place publique sans en éprouver aucune sorte de gêne qu’on ne sait plus s’il les faut dire innocents ou pervers. Je suis de la race de ceux que l’on condamne à mort pour le restant de leur vie les yeux fermés, le nez pincé et le visage détourné. Je suis le vomitorium de la République. Kyrie eleison Christe eleison" Un monologue de chien, Antoine Vumilia Muhindo, Prison de Makala, Kinshasa, 2006 mp (ontem, no ccb, integrado no Festival Alkantara, assisti a esta criação do estudio Kabako / Faustin Linyekula; se nós por aqui nos queixamos de falta de subsídios e apoio às artes, eles, por ali, em Quinxassa, de que se queixarão? mas mesmo assim persistem, e projectos, artísticos e sociais, não faltam, como podem ver aqui ; É admirável! como flores a florir em campos queimados). postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:04 PM - Comments: Sexta-feira, Maio 23, 2008 Ao fim de 528 páginas não sei nada. Por que morreu a menina sem nome? Que responsabilidade, se alguma, teve a sua mãe, D. Mariana, em morte tão precoce? Que fez de tão grave D. Mariana para permanecer confinada ao quarto? Por que partiu durante a noite? O que diziam as cartas – uma por ela enviada e outra, que a ela se destinava, ambas interceptadas pelo marido, o comendador? Por que deixou D. Mariana uma única linha escrita, “tenho medo de ver-te”, à filha mais velha que regressou do colégio supostamente para fazer-lhe companhia? O escravo Florêncio morreu de morte matada ou suicidou-se? Se foi assassinado, quem o matou? Quem atirou visando a cabeça do comendador? Por que é que o vigário deixou de ser bem-vindo na casa grande do Grotão? Quando e como é que Carlota recusou o negócio do casamento com o filho da condessa arruinada mas politicamente relevante? Que mancha caiu sobre a família para que o casamento com João Baptista constitua a redenção? Qual é o sentimento dos 300 escravos da fazenda? Que revolta preparam - se alguma? Há um interdito no qual o próprio leitor participa. Deve ser por isso que sinto estes incómodo. Um incómodo sem expressão. Na casa grande reina o não dito. (grande, grande livro o de Cornelio Penna, “A Menina Morta”, absolutamente impressionante, inesquecível...) IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:36 PM - Comments: Domingo, Maio 18, 2008 Aprendo a rezar com os pés Caminham em filas ao lado das estradas nacionais, por trilhos de terra batida, atravessando pequenos povoados que antes desconheciam, cruzando horas e horas a paisagem de giestas e silêncio. Têm em português um nome que deriva de uma forma latina: Per ager, que significa “através dos campos”; ou Per eger, “para lá das fronteiras”. Definem-se, assim, por uma extraterritorialidade simbólica que os faz, momentaneamente, viver sem cidade e sem morada. Experimentam uma espécie de nomadismo: não se demoram em parte alguma, comem ao sabor da própria jornada, dormem aqui e ali. Num tempo ferozmente cioso da produção e do consumo, eles são um elogio da frugalidade e do dom. Relativizam a prisão de comodismos, necessidades, fatalismos e desculpas. E o seu coração abre-se à revelação de um sentido maior. A verdade é que é difícil ter uma vida interior de qualidade, se nem vida se tem, no atropelo de um quotidiano que devora tudo. Na saturação das imagens que nos são impostas, vamos perdendo a capacidade de ver. No excesso de informação e de palavra, esquecemos a arte de ouvir e comunicar vida. Damos por nós, e há, à nossa volta, um deserto sem resposta que cresce. E quando nos voltamos para Deus, parece que não sabemos rezar. Estes peregrinos que tornam a encher as estradas de Fátima (mas também de Santiago, de Chartres, do Loreto…) assinalam-nos o dever de buscar a estrada luminosa da própria vida. Já não separam a existência por gavetas estanques, mas o seu corpo e a sua alma respiram em uníssono. A oração torna-se natural como uma conversa, e as conversas enchem-se de profundidade, de atenção, de sorrisos. A parte mais importante dos quilómetros que percorrem não está em nenhum mapa: eles caminham para um centro invisível onde pode acontecer o encontro e o renascimento. Queria dedicar este texto a um amigo que, neste mês de Maio, fez a sua primeira peregrinação. A meio do caminho enviou-me uma mensagem a dizer: «Aprendo a rezar com os pés». José Tolentino Mendonça miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:27 PM - Comments:
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